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sexta-feira, 30 de março de 2012

Aspectos da Mulher no Sanatana Dharma


Aspectos da Mulher no
 Sanatana Dharma

Swami Krishnapriyananda Saraswati
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
1997-2012





"Estava conversando com um amigo indiano, e ele me disse que as mulheres dentro do hinduísmo são sempre atreladas ao pai ou ao marido como seus gurus. E que normalmente é só o homem que recebe o cordão bramanico. As mulheres nunca podem ter o voto de Sannyasa nem poderão realizar cerimônia de Diksha ou cerimônia do fogo. Ou seja, elas podem ter um guru desde que seja o mesmo do pai ou do marido, mas nunca buscar por si próprias um guru, ou sequer são aceitas na condição de shishya, mas que podem seguir o guru nunca se declarar shishya. Queria saber se isso é verdade e como eu como professora de yoga poderia então transmitir algo nessa condição, pois sou solteira e não desejo me unir a nenhum homem para realizar isso". J.S.

Vejamos, então, as suas colocações:

"as mulheres dentro do hinduísmo são sempre atreladas ao pai ou ao marido como seus gurus".
Está perfeitamente correta esta afirmação; ela tem base no Manadharma Sastra, o qual afirma Uma mulher não deverá ter um Guru diferente do seu pai ou marido. Isso é devido à tradição, e para evitar conflitos entre as interpretações de um Guru e outro Guru de uma outra linhagem. É preferível que a mulher siga o mesmo Guru do seu marido (uma vez que renuncia a família do seu pai ao se casar). Algumas tradições permitem Diksha para mulheres quando solteiras. Neste caso, são consideradas Kumaris, e se vestem como viúvas. Na Índia, há muitas tradições que acolhem as mulheres nestas condições. Mas se por ventura elas se casarem, então, deverão renunciar ao Guru e adotar o Guru do marido. Para evitar isso, não devem tomar Diksha sem ser com o Guru do marido. Via de regra, os Gurus adotados fora do casamento são apenas Guru Sikshas, e não Diksha, porque o Diksha é uma relação eterna.

No Sanatana Dharma, uma pessoa deverá seguir o Varna e Ashrama. Isso é o que nos orienta o Código de Manu. Ser Vaidika Dharmi significa seguir os Sastras, Sadhu e Guru. De outra forma não será Sanatana Dharma.

A idade da pessoa, no caso também da mulher, entra em consideração. A mulher tem o maravilhoso dom de gerar filhos, por isso, não deve renunciar antes de entrar na menopausa. O desejo de ter filhos é inerente a natureza humana, salvo a pessoa tenha o acumulo da bênção de muitas vidas, então deverá seguir o devido curso da natureza. No seu caso especifico o fato de ter nascido num lugar diferente de Bharata (Índia), e não pertencer a nenhuma família de Brahmanas, está claro que não tem o Karma necessário para renunciar antes de atingir a idade que não tenha mais como engravidar.

"é só o homem que recebe o cordão brahmânico".
Apesar de algumas ordens permitirem que a mulher receba a iniciação Brahmínica (o que é nada mais do que a autorização para cantar as linhas do Gayatri do Guru), apesar da autorização para as linhas do Guru Gayatri, e outras, o Brahma Gayatri não se autoriza às mulheres, na maioria das linhagens fidedignas. Isso é o que nos orienta o Código de Manu. Também, o Brahma-Gayatri trata-se de um Mantra para os homens amaciarem seus corações (as mulheres, no mais das vezes, já são meigas por nascimento. Aqui nos referimos à mulher Oriental, que é naturalmente feminina, diferente da Ocidental, que é de comportamento masculino), mas em todo o caso, elas não recebem o cordão Brahmínico, porque estão ligadas diretamente à criação, e o cordão é uma referência à ligação da Mãe Divina.

"As mulheres nunca podem ter o voto de Sannyasa nem poderão realizar cerimônia de Diksha ou cerimônia do fogo"
Sanyasini
De fato, as mulheres não podem realizar cerimônias de fogo complexas, como a dos Samskaras, mas devem e são responsáveis pelo Agni Hotra diário, duas vezes por dia, feito nas suas casas, porque a mulher é a responsável pela manutenção do fogo (por isso, "lareira", fogo do lar). As mulheres são mais adequadas ara o Agni Hotra diário, e isso é o que nos oriente o Manadharma Sastra. Seguimos Sadhu, Guru e Sastra.

Muitas ordens permitem o ingresso da mulher na ordem de vida renunciada, desde que, de fato, a mulher seja renunciada (por isso deverá esperar a menopausa). Apesar de isso, não é possível de a mulher realizar cerimônia de Samskaras. Também, a mulher tem a regra menstrual, que é considerada inadequada para a condição de purificação. Por estar se purificando, "lavando a Yoni com sangue para agradar Durga ou Devi", a mulher fica em vantagens sobre o homem, então não tem como sacrificar para Vishnu ou Siva. As mulheres são regidas pelas Nityas ou fases lunares. Todos sabem que a mulher muda de humor conforme as fases da lua. Isso faz com que fique difícil a convivência com os homens num Ashrama, devendo, portanto, viverem nos seus próprios Ashramas (locais específicos para mulheres). Apenas a condição fisiológica é fator de separação no caso. Estes fatores também mantêm a mulher fora do Homa depois de pararem de menstruar. Tudo conforme Sadhu, Guru e Sastra.

De qualquer maneira, há tradições que a mulher levou adiante o Diksa de uma Sampradaya. Isso é possível caso a corrente tenha sido interrompida na ausência de homens. Uma vez que a mulher é o depositário embrionário de toda a criação, é ela quem exerce esta função, caso não haja homens para fazer o processo seguir adiante, ou então porque encabeçou um math ou templo (conforme o exemplo de Bharati Devi, discípula de Sri Sankara). Contudo, sempre as cerimônias de fogo serão conduzidas por brahmanas masculinos, conforme a tradição dos Sastras.

De fato, os homens vivem e levam a tradição tão somente devido a graça feminina. Isso é transcendental, e está além do falso liberalismo feminino existente no Ocidente, onde tão somente as mulheres se dizem liberadas por fazerem aquilo que os homens querem que elas façam, para a satisfação deles (nunca foi tão pesado para a mulher ocidental ter que arcar com tantas atividades, apesar de uma longa e milenar adaptação genética da sua condição de educadora e protetora do lar).

Diksha
A mulher pode e deve receber Diksha; deverá pedir isso para o Guru Deva da Sampradaya ao qual seu marido ou pai estão ligados. Caso não exista marido ou pai, então deverá pedir a permissão para sua mãe, e ligar-se ao Guru da sua mãe. Se não existe mãe, pai ou marido deve pedir para o tio, e assim sucessivamente. Deve entender que a tradição é manter o vínculo com a família, e evitar as diferentes interpretações de cada linhagem. No seu caso em particular, por não pertencer à linhagem védica, e estar, provavelmente, vinculada a tradição judaico-cristã, é evidente que seu vínculo é familiar com a religião dos seus pais, ainda que intelectualmente diga-se independente. É normal na tradição ocidental que a mulher e os filhos sigam a tradição religiosa do marido e do pai. São notáveis os conflitos e desencontros entre o casal quando há diferentes posições religiosas dentro de uma mesma família (Sampradaya e Varna). No Ocidente, naturalmente, os filhos tendem a ser contrários aos princípios dos pais, pelo menos em boa parte das suas vidas. Depois, aos poucos, os princípios se introjetam e passam a fazer parte da vida comum. Sinceramente, os grandes problemas que enfrentamos na sociedade ocidental estão vinculados a tola idéia de "liberdade", permitindo que cada um possa “fazer o que bem entenda”, não tendo nenhum respeito à tradição religiosa familiar.

Para mudar de ethos, ou seja, modo de pensar religioso e cultural, alguém deverá renunciar totalmente os vínculos com seu passado familiar-religioso. Para que isso ocorra, é necessária a misericórdia do Guru, com rendição incondicional às suas orientações. De outro modo, é melhor retornar aos princípios religiosos familiares e segui-los conforme a tradição familiar.

O fato de ser evitada a Diksha com um Guru de forma independente é devido à natural tendência das transferências afetivas, e inconvenientes entre os relacionamentos. Por isso, também, nunca uma mulher deverá ficar sozinha com um Brahmana que não seja o seu próprio marido, nem qualquer outro homem que não seja seu irmão ou pai. Mas, nem mesmo seu pai ou irmão deverão ficar numa mesma sala na intimidade. Por conseguinte, Sannyasis não devem ficar dentro de uma sala, sozinhos, com uma mulher, e tampouco num mesmo aposento íntimo.

Igualmente, as mulheres Sannyasinis deverão tão somente ficar na presença de homens na devida distância física, e sempre com a presença de uma serva particular, para evitar os problemas naturais nestes casos, como por exemplo, contato físico e sexual. Um grande fator, sem dúvida, muito importante para que sejam mantidas determinadas distâncias entre os monges de sexo opostos devem-se tão somente pelo fato de as mulheres no período fértil engravidarem, e isso é considerado geração indesejada. Por isso, os casamentos são aconselhados e as pessoas devem realizar o que o casamento permite, e e somente depois, então, deverão renunciar à vida de gozo dos sentidos, conforme a tradição do Varna-Ashrama Uma vez que a mente se entretém facilmente com aquilo que lhe é mais prazeroso, deverá o devoto direcionar todas suas energias para o amor de Deus. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.

Tyaga

O Sr. Krsna no Bhagavad-gita diz que “o conhecimento das Escrituras é melhor do que a mera prática ritualística; também diz que a meditação é superior ao conhecimento das Escrituras, e que Tyaga ou renúncia é superior à meditação”. Renúncia ou Tyaga é um processo, porque passa pela destruição definitiva das idéias de “eu” e “meu”, em todos os seus aspectos, tendo em vista alcançar o Yoga ou união com o Supremo, experimentado no Samadhi. Enquanto alguém se idêntica com sexo, raça, gênero, cor, religião, e diz o tempo todo: “eu”, “meu”, há, com toda a certeza, a identificação material com o corpo e Maya, portanto, há uma falsa idéia da verdade, ou sequer existe esta idéia.

Se a mulher possui o desejo de renunciar ao mundo material, e tiver a permissão do seu amado Gurudeva, então, com certeza, poderá unir-se a missão d´Ele e prestar serviço abnegado por toda a sua vida. Deverá, então, renunciar definitivamente a sua vida material, e passar tão somente a dedicar-se a servir ao Gurudeva e a sua missão, tendo-O como a encarnação do Supremo, e tão somente vivendo para servi-lO.

Todo aquele que alcançou a plataforma de servo de um Maha-bhagavata, “grande devoto do Supremo”, está qualificado para ser um Sannyasi ou Sannyasin. Isso é Sadhu, Guru e Sastra. Para alguém ser um Sisya deverá renunciar por definitivo a idéia de “eu” e “meu”, nascida no Akamkara ou falsa noção de “eu”. Deverá tão somente dispor-se a ouvir e prestar Seva (serviço abnegado). Deverá, também, ser humilde, mais do que uma folha de palha na rua; deverá, também, controlar a língua e os genitais, bem como colocar-se como servo e nunca o fazedor. Deverá, também, renunciar aos frutos das ações, e compreender que tudo é misericórdia do Supremo. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.
Glórias do Gita

Para que alguém possa entender a Suprema meta e realizar Moksa, deverá estudar, sob orientação do seu Guru, o Bhagavad-gita. Deverá, por conseguinte, iniciar a estudar no décimo segundo canto – Bhakti-yoga – e então meditar em cada uma das palavras que o Sr. Krsna diz para nós, no Seu maravilhoso diálogo com Arjuna.

Leiam, releiam, voltem a ler, voltem a reler. Outra vez leiam, meditem, voltem a ler; retornem a leitura, tornem a reler, etc. Assim deverá ser, até que se compreenda a Suprema forma do Senhor Krsna, e então se possa realizar a meta humana de amor puro por Deus. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.

Sampradaya ou tradição
Todas as manifestações religiosas, de conhecidas religiões, possuem a sua tradição. É notável que não haja espaço para “liberalismos”, e idiossincrasias em nenhuma delas. As razões repousam na evidência da orientação disciplinar. Erroneamente, o Ocidente vê discriminação entre homens e mulheres na tradição védica, porque estão apegados aos seus corpos e à vida material. Há princípios profundamente meditados e realizados em cada um dos aspectos do Sanatana Dharma.

Yoga
O que é chamado de “yoga” no Ocidente longe está de ser considerado como tal no Sanatana Dharma. Chamam “yoga” a um conjunto de exercícios ou posições físicas, que mais ou menos lembram Asanas, e o que é apenas uma parte de uma tradição ou visão – Darshana – dentro do Sanatana Dharma. O Oriente não conhece o que chamam de “yoga” no Ocidente. “Professor de Yoga”, é uma expressão do Ocidente, e ela não tem reconhecimento dentro do Sanatana Dharma, como autoridade. Somente o Guru é “professor”. Isso é definitivo.

O Gita de Bhagavam é uma notável demonstração do que é o Verdadeiro Yoga. Cada um dos Seus capítulos trata de uma forma de união com o Supremo. Yoga significa junção, ligação, vinculação, etc. A palavra “yoga” tem origem no Pahli, depois passa para o Brahmin, e finalmente é colocado na escrita chamada de Sânscrito. Ela origina-se de “yus”, que quer dizer “justo”, “acertado”, e que foi para o Latim como “Jus”, ou “justiça”. Ajustar, juntar, acertar, etc., é o objetivo fundamental do Yoga. Uma pessoa que se aproxima deste caminho deverá sabiamente renunciar as idéias de “eu” e “meu”, e desenvolver amor pelo Supremo por meio de Viveka. Não há, definitivamente, nenhum liberalismo dentro do Yoga. Há um processo de formalização e respeito ao Guru que deve ser respeitado. O Oriente védico ri-se do que chamam de “yoga” no Ocidente, e são céticos com relação à conduta moral dos praticantes ocidentais. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.


 Não é possível alguém ser iniciado se não renunciar aos vícios e a sua vida promiscua. Servir, amar e meditar, tendo em vista realizar o Supremo, através do Seva ao Guru e a Sua missão, é indispensável para o iniciante. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.

Como não há espaços para “liberalismos” dentro do Sanatana Dharma, e em nenhum dos Seus Darshanas ou visões, todo o pretendente a ingressar n´Ele, deverá, portanto, renunciar as idéias de “eu” e “meu”. O Ahamkara não tem vez no Sanatana Dharma. Quem pensa diferente, então que ingresse numa religião que se afeiçoe. O Sr. Krishna nos aconselha a abandonar todas as religiões, e simplesmente seguir a Ele e Suas instruções (B.gita, 18.66). Ler, reler, voltar a ler, reler, depois ler novamente, reler e reler, então uma dúvida sincera irá despertar. Uma vez que surja um questionar sincero, então o pretendente ao ingresso no Sanatana Dharma, a ciência transcendental do Yoga, deverá ser feita mediante o Seva, o inquirir sincero, e a rendição incondicional ao Guru, conforme está dito no B.gita 4.34. Não há outra maneira, se houver, então não será no Sanatana Dharma, mas então será uma coisa falsa, como as milhares que se espalham no Ocidente, e que falsamente usam o nome de “yoga”. São apenas “meios de vida”, não “modos de viver”, conforme o Dharma.

É impossível alguém pretender ingressar num sistema filosófico religioso sem aceitar os seus princípios. Porque não há espaços para hipocrisia no Dharma. Ou seguimos os exemplos dos Acharyas ou mudamos para coisas distintas. Do mesmo modo como o simples uso de um uniforme de piloto não transforma ninguém em piloto, da mesma maneira, usar nomes, e títulos pomposos não transforma ninguém em um Yogi. Isso é Sadhu, Guru e Sastra.

Om Hari hara OM

terça-feira, 27 de março de 2012

Sinopse sobre o Hinduismo

Sinopse sobre o Hinduismo

Swami Krishnaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
1997-2012



O termo “hinduísmo”
Trata-se de um termo inventado pelos europeus, da tradição judaico-cristã, para designar a “religião” de Bharata ( Índia). Na realidade, é um termo pejorativo porque se refere àqueles que têm jeito, modo, etc, de gente, “mas não são gente, porque não possuem alma”; “pagãos ignorantes’; “restolho”, “gentinha”. Contudo, este termo não designa uma só religião na Índia, senão que deve ser entendido como um grande conjunto de religiões, o que pode alcançar a cifra de umas 30 mil somente no território de Bharata.

O povo de Bharata designa-se a religião deles de “Ordem Eterna”; em sânscrito, a antiga escrita clássica dos textos védicos, se escreve Sanatana Dharma. Esta expressão era usada freqüentemente por Mahatma Gandhi, tendo em vista retirar o tom pejorativo dado pelos europeus prepotentes e orgulhosos. Dharma é um conceito amplo e central na filosofia religiosa de Bharata, porque expressa: ordem, lei e dever. Contudo, não se trata de uma simples ordem no sentido jurídico, senão que uma ordem cósmica oniabrangente, que determina toda a vida e ao que todos devem se ater, independente de casta ou classe em que se encontre. Dharma diz respeito a todas as pessoas  e a relação dela com todos, inclusive com a natureza. De fato, o Dharma se trata de uma ética fundamental, que se encontra até mesmo entre os aborígenes australianos. Dharma é uma ordem fundamental que nos foi dada de antemão desde o princípio.

A partir da compreensão deste princípio ético fundamental, fica claro que o Sanatana Dharma não se trata, primariamente, de proposições de fé, tampouco de dogmas, e de ortodoxia. Senão que se trata de proceder de forma reta ou justa: justo ritual, justa moralidade, justa religiosidade, o que constitui a filosofia religiosa do Sanatana Dharma em potencial.

Dharma, também, não se trata de simples direitos frente aos demais, senão que a maior determinação de uma pessoa, e dos deveres que uma pessoa possui: deveres frente à família, à sociedade, e aos “deuses”.

Quatro objetivos vitais
O Sanatana Dharma possui quatro objetivos vitais, a saber:

  1. Kama: Busca do agradável, e o gozo dos sentidos regulados conforme o Varna e Ashrama;
  2. Artha: busca pela correta distribuição da riqueza, tendo em vista conceder o bem-estar geral;
  3. Dharma: esforço na reta distribuição da justiça, bem como desenvolvimento de virtudes;
  4. Moksa: busca pela liberação ou salvação do ciclo de nascimentos e mortes, Samsara (conhecido como “reencarnação”).

Pecados sociais modernos – Mahatma Gandhi
Mahatma Gandhi, como um devoto Vaishnava, apontou sete dos “pecados” sociais modernos, que provocam desigualdades, a saber:
  1. Política sem princípios éticos;
  2. Negócios sem moralidade;
  3. Riqueza sem trabalho;
  4. Educação sem caráter;
  5. Ciência sem humanidade;
  6. Desfrute sem consciência, e
  7. Religião sem sacrifício (sem entrega, sem Seva ou serviço abnegado).

Virtudes do caminho do Yoga
Muito longe da cômica atividade de exercícios físicos, mal denominados de “yoga” no Ocidente, encontramos virtudes éticas na filosofia do Yoga, a saber:

Ahimsa: não-violência; não agressão; não-ferir;
Satya: veracidade (agir e dizer coerentemente com a verdade e veracidade);
Asteya: não furtar, roubar ou retirar o que não lhe pertence;
Brahmacharya: conduta casta, e
Aparigraha: contentamento com o que tem; ausência de desejos materiais e de cobiça.

O Atharva Veda possui máximas que enaltecem os princípios morais e éticos do Yoga:

“Eu – princípio Absoluto – os procurarei na unidade dos corações e de espírito, e da ausência de ódio”;
“Amai-vos uns aos outros como a vaca ama a sua terneira que há parido”;

“Faça que teu filho seja leal como o pai, e esteja de acordo com a mãe”;

“Nenhum irmão odiará ao seu irmão; nenhuma Irma a sua Irma. Decidam vossas palavras de comum acordo, unidos na mesma finalidade, com amabilidade;
“Há que dizer a verdade, e há que dizê-la de modo agradável”;

“Não há que dizer a verdade de forma desagradável, nem há que optar pela falsidade somente porque é agradável. Essa é a lei eterna”.

Aspectos fundamentais
A maioria dos Hindus crêem num Deus único como sendo o Absoluto, porem, segundo a tendência o Absoluto está associado a uma figura de relevância determinada (isso porque seguem as Escrituras, como o Bhagavad-gita, que orienta preferencialmente a adoração a Deus com forma), sendo mais comuns a adoração a Siva, Vishnu e Sakti (aspecto feminino de Deus).

No Sanatana Dharma a alma é eterna, sendo idêntica a causa primeira do mundo, e segundo a lei do Karma – causa e efeito – passa por várias existências terrenas. Todas as criaturas possuem alma, e apenas se diferenciam pelo grau de consciência e conhecimento do criador.

A chamada “lei do Karma” diz que todos os atos possuem causas procedentes de uma vida anterior, e que é feito irá repercutir na próxima existência. Apesar de isso, não se trata de uma forma insuperável, porque pela livre vontade alguém pode mudar seu Karma e purificar suas reações.

Os quatro Vedas
As Escrituras sagradas são consideradas como Escritos divinos. Os Vedas são escritos adequados para Brahmanas ou sacerdotes, mas há um conjunto de Escrituras igualmente consideradas védicas como o Bhagavad-gita, O Mahabharata (de onde saiu o Gita), bem como Ramayana. Além destes escritos há os Puranas, considerados obras populares, onde se encontram os princípios éticos e morais da filosofia do Sanatana Dharma.

Hari Hara Om Tat Sat.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Símbolos no Sanatana Dharma

 
Símbolos no Sanatana Dharma

Swami Krsnapriyananda Saraswati
(prof. Olavo DeSimon)

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
 2006-2012


O Sanatana Dharma (hinduísmo) emprega a arte de símbolos com agradáveis efeitos. Nenhuma religião está repleta de símbolos como esta antiga forma de manifestação religiosa, ainda viva e ativa no continente indiano, e com os praticantes fidedignos do Sanatana Dharma.

A base dos símbolos do Sanatana Dharma se encontra nos Dharmashastras (escrituras sobre justiça e religião). Na aparência externa, os símbolos utilizados pelos hindus podem parecer absurdos, mas na medida em que se descobrem seus significados profundos, percebe-se a sua imensa riqueza.
Vejamos alguns destes símbolos mais usuais, e o que eles, no mais das vezes, significam:
OM
 
 O OM é o símbolo sagrados dos hindus, de um modo muito semelhante como uma cruz representa o cristianismo, o OM é o símbolo do Sanatana Dharma. Ele é comporto de três fonemas sânscritos, a saber, aa, au, e ma, os quais combinados dão o som de OM. Este símbolo, sendo o mais importante do Hinduísmo, ele aparece em todas as orações e invocavoes, na grande maioria das Deidades. O OM é o símbolo do Brahman Supremo, origem, meio e fim de todas as coisas. Todos os templos hindus possuem um OM bem como os locais de peregrinação, e nas casas das famílias hindus.

O OM é o símbolo da sílaba sagrada que representa o Brahman ou Absoluto, a origem de toda a existência. Brahman, em Si mesmo, é incompreensível para  mente mundana, então o seu símbolo se torna uma grande ajuda para que possamos realizar o “incognoscível”. A silaba “om” aparece em muitas palavras de origem latina, que dão sentido para a Sua totalidade, como em omnisciente, omnipotente, omnipresente. Por conseguinte, compreendemos que o símbolo do OM é utilizado como divindade e autoridade suprema.

De modo semelhante a letra latina “m” e também a letra grega “omega”, a palavra “amem”, utilizada por judeus e cristãos, concluem com o significado amplo de OM.

Swastika
o segundo símbolo em importância para o Sanatana Dharma é, sem dúvida, a Swastika. Este símbolo, infelizmente, ficou conhecido como o símbolo dos nazistas, mas ele é um símbolo de grande significado religioso para os hindus. Swastika não se trata de uma silaba ou lera, mas um caráter pictórico, desenhado na forma de uma cruz quadrada com braços em ângulos retos, em sentido cruzado. Este símbolo é a representação de Mitra ou Surya Deva, e em muitas celebrações religiosas o Swastika simboliza a natureza eterna do Brahman, e o fato de apontar para todas as direções ele assim representa a omnisciência do Absoluto.

A expressão “swastika” crê-se originar da fusão de duas palavras encontradas no sânscrito, “su” (bom”, e “asati” (existir), as quais combinadas significam “que o bem prevaleça”. Os historiadores dizem que o Swastika deve representar a real estrutura e que nos tempos antigos, os fortes eram construídos nesta forma tendo em vista razões defensivas. Devido ao seu poder de proteção, ele tornou-se santificado.

A Cor açafrão
Se há uma cor que representa todos os aspectos do Hinduísmo esta é a cor açafrão, a cor de Agni ou o fogo, a qual simboliza o Ser Supremo. A cor açafrão, também auspiciosa para os Sikhs, budistas e jainistas, é tida como uma cor de significado religioso muito antes daquelas religiões terem iniciado.

A adoração ao fogo tem origem nos tempos védicos. Um dos hinos mais importantes no Sanatana Dharma o Rg Veda, glorifica o fogo, como o verso a seguir: "Agnimile purohitam yagnasya devam rtvijam, hotaram ratna dhatamam." Quando os sábios se movem de um Ashrama para outro, é costumeiro carregaram fogo com eles. A inconveniência de carregar alguma substância acesa, em longas distâncias, está simbolizada na cor das vestes dos Swamis. Bandeiras triangulares na cor açafrão são vistas no topo de templos Hindus e Sikhs, e esta cor é, também, a cor da renúncia, sendo carregada por monges. Enquanto os Sikhs consideram uma cor militar, budistas, bem como santos Hindus, vestem-se com a cor açafrão como uma marca da renúncia da vida material.
Símbolos nos rituais

Agnideva
Os rituais védicos como Yajña e Puja (adoração em forma de sacrifício e oferendas), conforme disse Sri Aurobindo, “são tentativas de preenchar os propositos da criação e elevar o status das pessoas para Deus”. O Puja é essencialmente um ritual sugestivo com símbolos, onde se oferece a nós mesmos e nossas atividades para Deus.

Cada um dos objetos associados ao Puja ou adoração é simbolicamente significativo. A estátua ou imagem da Deidade, a qual é chamada genericamente de “Vigraha”, tem o significado de algo que é devido aos planetas ou “grahas”. As flores que se oferecem para a Deidade simbolizam o florescer de algo bom em nós. Os frutos oferecidos, simbolizam nosso desapego, o auto-sacrificio, e a rendição, e o incenso que queima, simboliza o desejo coletivo de ter coisas auspiciosas em comum. A lâmpada de luz, feita de Ghee (manteiga clarificada), representa a luz em nós, nossa alma, que oferecemos para Deus ou o Absoluto. O vermelho do pó significa nossas emoções.

As Escrituras dizem que devemos colocar nosso sentidos para adorar a Deidade, então cheirar, tocar, ver, dançar, etc., são símbolos muito significativos de adoração, e durante o Puja nossa mente está inteiramente ocupada em feitos meritórios e espiritual, se afastando das coisas mundanas e grosseiras. Participar de um Puja, realizado por um sacerdote autorizado, e feito da maneria correta, é uma forma de alcançar a liberação.

O Lótus
A flor santa para os Hindus é a maravilhosa flor de lótus, sendo o símbolo da verdadeira alma individual. A flor representa o ser, o qual vive em águas turvas, e apesar disso floresce de modo impuluto. Na mitologia, o lótus é o símbolo da criação, uma vez que o Senhor Brahma, o criador do universo, surgiu de um lótus que brota do umbigo do Senhor Vishnu (o controlador Supremo).
O lótus é também um símbolo oficial da Índia; há uma posição ou Asana, praticada no Yoga, que tem o nome de Lótus. Aquele que se mantém firme como uma flor de lótus, florescendo sem poluir-se e sem se molhar com a água, é considerado um verdadeiro Yogi.

O Purnakumbha
Um pote ou cântaro da barro, chamado Purnakumbha (também chamado de Kalash), com a imagem do Swastika, cheio com água, tendo folhas frescas de manga e um coco no topo, é geralmente um ponto importante, senão a principal forma de Deidade num Puja, ou então fica de um lado ou diante Dela, antes de iniciar um Puja. Purnakumbha literalmente significa, purna= pleno; kumbha= pote; “jarro cheio”. O pote simboliza a mae Terra; a água a doadora da vida; as folhas, a vida e o coco, a consciência divina. O Purnakumbha é usado durante a maioria dos ritos religiosos, sendo que a deusa Laksmi segura um Kumbha, com o significado de abundância e prosperidade.

Frutos e flores

A água no Purnakumbha e o coco têm sido objetos de adoração deste os tempos védicos. O coco, que em Sânscrito é “sriphala”, ou “fruto do Senhor”, é também usado com o símbolo para Deus. A adoração de qualquer Deidade é feita também com cocos, oferecido junto com flores, incensos e outros objetos significativos. Outros objetos naturais que simbolizam a divindade são a folha de Betal, folhas de Tulasi, folhas da figueira Banyam, ou então folhas da árvore Bilva (ou vilva).

Naivedya ou Prasad
É nossa ignorância que oferecemos num Puja para que a Deidade a remova. O alimento, simbolicamente, refere-se a nossa consciência ignorante, a qual é o local de iluminação diante de Deus. O alimentos tendo sido provado por Deus, pois é oferecido antes de ser comido, torna-se Prasada, a qual nos torna também divinos. Quando distribuímos Prasada para os outros, nós distribuímos conhecimento para todos os seres.

As Deidades védicas simbolizam as forças da natureza, bem como o lado interior dos seres humanos. Sri Aurobindo, referindo-se ao significado das Deidades védicas, como deuses, deusas, e demônios que são mencionados nos Vedas, diz que eles representam vários poderes cósmicos, de um lado as virtudes, e de outros os vícios de alguém.

Por que adorar um ídolo?
A adoração ao ídolo e os rituais de Puja ou oferendas são o cerne do Sanatana Dharma, e possuem grande e simbólico significado. Todas as Deidades Hindus são em Si mesmas símbolos do Absoluto abstrato, e um ponto particular de aspectos do Brahman. A Trimurti Hindu é representada por Brahma, o criador; Vishnu, o protetor ou conservador, e Siva, o destruidor ou renovador.

Por que adorar diferentes Deidades?
Diferentes dos seguidores de qualquer outra religião, os Hindus sentem-se livres para adorar a sua deidade pessoal, escolher um ícone e oferecer orações para o Brahman incognoscível. Cada Deidade dentro do Sanatana Dharma controla uma energia particular. Estas energias presentes numa pessoa como uma forma selvagem, devem ser controladas e canalizadas de modo adequado, tendo em vista infundir uma consciência divina nele. Por isso, uma pessoa deve contar com a boa vontade de diferentes deuses, que lhe instigue a sua consciência, tendo em vista ajudar-lhe de acordo com sua pessoa. No caminho pessoal do progresso espiritual, precisam-se desenvolver vários atributos, os quais são exemplos nas Deidades, e desta forma se alcança o perfeição espiritual.

Simbolismo de Deuses e Deusas
Cada Deus ou Deusa Hindu possui muitas características como, vestimenta, veículos, armas, etc., que são em si mesmos símbolos do poder da Deidade (que na realidade são diferentes aspectos do Uno ou Brahman). Por exemplo, o Senhor Brahma tem os Vedas em Suas mãos, o qual tem o significado de que Ele é o comandante supremo sobre o conhecimento religioso e criativo; Vishnu carrega uma concha, a qual tem o significado dos cinco elementos e da eternidade; um disco ou Chakra, que simboliza a mente; uma maça, que simboliza o poder, e uma flor de lótus que simboliza o cosmos. O tridente ou Trishula do Senhor Siva representa as três Gunas (qualidades materiais), e a flauta do Senhor Krishna (Murali), significa a música celeste, e o exemplo de devoção servil.

Muitas Deidades podem ser reconhecidas pelos símbolos que estão associados com Ele. Siva, por exemplo, é simbolizado por um Linga, ou então por três linhas horizontais na testa, tendo um ponto vermelho entre elas. De modo semelhante, Sri Krishna é representado por um pavão, e Ele veste uma pena desta ave na sua cabeça, bem como pelo desenho que trás na testa.

Veículos dos Deuses
Cada uma das Deidades possui um veiculo, no qual viaja. Este veiculo é representado por um animal, os quais representam as várias forças que Ela comanda. A deusa Saraswati tem como veiculo o gracioso e lindo pavão, o que tem o significado de que ele é a controladora da busca e realização das artes. Vishnu senta-se sobre Garuda, o qual luta com a serpente primal, o que representa o desejo da consciência na humanidade. Siva monta o búfalo Nandi, o poder cego, bem como representa a energia sexual desenfreada numa pessoa, e as qualidades materiais ou Gunas apenas Siva pode nos ajudar a controlar. Sua consorte, Parvati, Dura ou Kali, monta um leão ou tigre, o que simboliza a falta de misericórdia, ira e orgulho; o controle sobre os vícios são bênçãos de Devi. O veículo de Sri Ganesha é um ratinho, que representa a timidez e o nervosismo que aparece diante de uma nova aventura; os sentimentos e obstáculos podem ser vencidos com as bênçãos de Ganesha.

Conclusão
Há uma imensa variedade de símbolos, bem como significados variáveis quanto a forma de adoração divina, segundo o Sanatana Dharma. De fato, uma vida irá ser pouco para podermos conhecer todos os significados e a imensa variedade de nomes e formas de Deus, segundo a expressao religiosa mais antiga do mundo, o Sanatana Dharma. Apesar desta imensa variedade de deuses e deusas o Hindu vê tão somente um único e mesmo Deus, que tem o nome genérico de Brahman. Não há “deuses”, mas tão somente um único e mesmo Absoluto, origem, meio e fim de tudo, que se manifesta em tudo e em todos. Para um Hindu, tudo é Deus, e Deus é tudo.

Hari Om Tat Sat

sexta-feira, 23 de março de 2012

Filosofias da Índia


Filosofias da Índia
Aspectos pertinentes ao Ser e Suas relações

Swami Krṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA

Porto Alegre, RS - Brasil
 2006-2012




Talvez a grande complexidade do pensamento dentro do que chamam "hinduismo" seja algo surpreendente, mesmo para alguém já acostumado ao estudo da filosofia do Ocidente. Para termos uma idéia, o que é chamado popularmente de "hinduísmo" se trata, na realidade, provavelmente,  de cerca de trinta mil (30.000) religiões distintas, que mais ou menos seguem um determinado conjunto de instruções, de um grupo de Escrituras chamadas de Vedas e Seus comentários, como os Upanishads. Uma vez compreendido isso, então pode ser que fique um pouco mais fácil de entender o contexto amplo da filosofia do Oriente.

Devido ao fato peculiar da existência de uma enormidade de religiões dentro do que é conhecido como “hinduismo”, é preferível denomina-lo de “Filosofias da Índia”, para nos referirmos às várias formas de abordagem do Ser e Suas inter-relações (Karma), bem como de “Filosofia Védica”, ou Sanatana Dharma, quando a corrente filosófica segue a supremacia dos Vedas.

Fica claro que não há uma “filosofia Hindu” única, propriamente dita, uma vez que “hindu” é um conjunto de milhares de religiões, além de ser uma denominação pejorativa dada pelos exploradores ao povo da Índia (índia= palavra diminutiva de “indigenius”, que designa “quem tem jeito de gente, forma de gente, mas não é gente!”, ou seja, são “pagãos ignorantes”; animais sem alma). Também, há que se despojar da idéia institucional de “religião” para compreendermos a religiosidade filosófica da Índia. O que podemos, também, referenciar, é o fato de que há diferentes enfoques dentro do Sanatana Dharma, diante de uma “mesma coisa”, mas que todos tendem a convergir para a busca da unidade na diversidade.

Para ilustrar o que estamos dizendo, veremos os aspectos: Deus, homem e natureza, e a relação destes com o Ser ou Atma. Os primeiros três aspectos são fundamentais, e norteiam o pensamento filosófico em praticamente todas as religiões do Sanatana Dharma. Aqueles três aspectos são o Supremo ou Brahman (ou o que no Ocidente chamam de Deus); a Natureza Material ou Prakriti (o mundo fenomênico ou objetivo), e a Alma Individual, também chamada de Atma ou Jiva. Via de regra, Atma é empregado como a unidade de tudo e todos; Atma é algo como “alma” dos cristãos; contudo, sua abrangência é maior, porque ultrapassa a idéia de “eu” e “meu”, típica dos que vêm a religião e Deus como algo externo a si próprio. Numa visão ampla e total, o que chamamos de Deus, homem e Natureza, dentro do Sanatana Dharma, é tão somente Brahman ou o supremo; o Absoluto.

Dvaita
Outro ponto importante é o que diz respeito e tem relação com estas três divisões: Deus, homem e natureza. Num primeiro momento, Deus, homem e natureza são distintos uns dos outros; isso é chamado de Dvaita ou dualismo; nesta abordagem filosófica, Deus é um, o homem é um, e a natureza é um; Deus está acima e fora de nós; a natureza está fora de nós. Sendo cada um deles distinto um dos outros, o Jiva ou alma individual não perde, mas amplia a sua consciência com relação a Deus e a Natureza. O Jiva contempla o mundo e Deus que está fora de si mesmo. Também concebe Deus como diferente da Natureza. Portanto, todos estão interligados, mas são separados uns dos outros. Deus cria tudo, toca em tudo, e não é tocado por nada. Ele é tal qual um “motor imóvel”, aspecto muito comum entre a filosofia dos filósofos gregos dos tempos áureos gregos.

Advaita
Adi Sankara
Um ou outro aspecto, mais abrangente da filosofia védica, vê uma unidade em tudo e em todos. Este aspecto é chamado de Advaita ou não-dualismo. Portanto, Deus, Natureza e o Homem são diferentes aspectos de uma só e mesma coisa, ou seja, são manifestações do Uno ou Brahman. Do mesmo modo como vasos, copos, potes, etc., são feitos de barro, tendo o barro como elemento comum, apesar de suas diferentes formas, o Brahman é a unidade de toda a diversidade. Somente há o Uno Brahman, e esta abrangência de compreender a unidade de tudo e de todos é chamada de iluminação ou Buddhi. Perceber somente os aspectos diferenciados e dizer que eles são a realidade trata-se de Maya, ou ilusão. Uma vez que as idéias de “eu” e “meu” se desfazem, o Ahamkara, ou falsa idéia de “eu” (geralmente identificada com o corpo material), se desfaz. O devoto percebe que é uma alma ou Atma que possui um corpo, mas não um corpo que possui uma alma; ele toma conta que todos somos unos; quanto mais se aprofunda em si mesmo percebe Deus e a natureza, e quanto mais se aprofunda na natureza mais percebe Deus, e quanto mais se aprofunda em Deus percebe a unidade d´Ele em tudo e em todos. No final, devoto e Deus são unos e um só.

Dvaita e Advaita são duas formas de ver o Ser ou Atma num enfoque distinto. A primeira maneira vê as coisas como separadas do Jiva ou “de si mesmo”, porque pensa a si mesmo como eterno, sempre existente e sempre individual; há o objeto e o sujeito; o contemplador e o contemplado. O segundo aspecto não separa a natureza pessoal individual da Suprema. Por isso é dito não-dualista; Samadhi significa “ser uno com o Uno”, desfazendo a idéia de “eu” e “tu”. As religiões Ocidentais todas são dualistas; nelas Deus está fora; Ele é o Supremo; somos meros servos ou diminutas consciências perto da Sua imensa magnitude. Na visão não-dual, Brahman é a unidade de tudo; do mesmo modo como todos os rios deságuam no mar, deixando de ser rios e passando a ser mar; do mesmo modo como uma gota de água se funde no Oceano passando a ser oceano, assim, também, a consciência ou Atma se funde no Supremo ou Sua realidade última, Brahman.

Gayatri
A primeira abordagem ou dualista é considerada ingênua pelos Advaitas, porque é dito que ela apenas transfere os problemas para uma esfera mais sutil ou que chamam de “superior”, não resolvendo as três perguntas fundamentais: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Na visão que transfere o problema da existência ou dualismo, há um “pai e uma mãe dos céus”, assim como há um pai e uma mãe na Terra. Também, há um “mundo espiritual”, mais puro, tranqüilo, sem sofrimentos, do que se encontra no mundo material ou terreno; trata-se de uma escatologia que transfere os problemas encontrados na natureza material para um local divino, puro e tranqüilo. Esta abordagem é a que está presente nas religiões Ocidentais ou Ocidentalizadas. Portanto, para os dualistas há um paraíso celeste, e aqueles que praticam boas obras têm direito a desfrutar da companhia do mundo celeste. O “inferno” seria ter que nascer aqui novamente na Terra, e ter que passar por tantos sofrimentos, e não se tornar servo eterno de Deus. Este dualismo, “Deus/sujeito” tem como base a afirmação de que Deus somente toma conta de quem lhe dá atenção. Uma transposição ingênua das relações afetivas humanas para as “celestes”.

Por sua vez, na visão Advaita, há o sofrimento tão somente porque há a idéia de “eu” e “meu”, ou de que “eu sou o indivíduo”, quando, na realidade, somente há o Ser uno: a máxima Tat Tvam Asi define bem o que estamos dizendo, ou seja, “Sois Ele”; “tal como Ele”. Retorna-se ao mundo material devido aos apegos aos desfrutes, portanto, porque se quer desfrutar do mundo material, mesmo tendo que passar por nascimento, doença, velhice e morte, é que ocorre o Samsara. Mas a consciência de unidade com o Ser Supremo ou Brahman é um estágio elevado da consciência, e somente quem se desfaz por completo da identificação com o corpo material poderá alcançá-la na plenitude. A mente de um Advaita está o tempo todo focada em “Sivoham”, ou “Eu sou o Ser; Eu sou auspiciosidade; puro Brahman”.

A totalidade das Escrituras originais que seguem os Vedas é Advaita ou não-dualista. O dualismo se introduziu mais intensamente na filosofia da Índia devido à influência dos Gregos, principalmente devido a Parmênides (filósofo que viveu cerca de 500 a.n.e), que trouxe o que no Ocidente é conhecido como “metafísica”. Mas também havia gregos que defendiam a mudança na unidade do Ser, como Heráclito (também cerca de 500 a.n.e), que introduziu a filosofia dialética. Mas a forte influência posterior da Igreja preferiu o Ser ataráxico da metafísica. Heráclito foi quem mais influenciou o Budismo, uma filosofia herética do Brahmanismo. O Brahmanismo segue os preceitos dos Vedas, e os Budistas Os desprezam. Os Budistas influenciaram enormemente o modo de pensar no território da Índia por cerca de 1.200 anos, até ser praticamente extinto na ocasião da reintrodução da filosofia de Sri Shankaracharya (por volta do ano 800). Sankar trouxe novamente a adoração no Sanatana Dharma (que havia sido descartada pelo niilismo de Buddha). Sankaracharya retirou os aspectos fundamentais do Advaita confrontando-O com o Mimamsa (rituais de adoração), e o “hinduísmo” voltou a florescer na Índia. Muito posteriormente, principalmente devido ao desenvolvimento do Feudalismo, surgiu o movimento Bhakti dualista, buscando muitas influências do Vedanta, por isso é às vezes chamado de Dvaita Vedanta ou Vedanta dualista.

Bhakti
O Bhakti dualista foi uma espécie de “resposta” indiana para a pressão de religiões como o Islamismo e o Cristianismo, devido ao fato de os governantes naquele período ou serem mongóis muçulmanos ou então estarem sob o jugo de governantes ou comerciantes cristãos. O momento bhakti na India é coincidente com as Companhias das Ìndias, onde os europeus exploravam as “especiarias”, como pimenta, cravo, canela, seda, etc.

Concomitante a filosofia presente nos Vedas, na Índia há outro importante movimento filosófico e, sem dúvida, inteiramente original, conhecido como Tantra (normalmente desconhecido e confundido no Ocidente). Defendem que, se o Ser ou Atma é eterno, sempre-existente, intocável, como descrito pelos dualistas; ou se não há Ser, como defendem os niilistas budistas, então como explicar as constantes transformações do mundo? O Tantra nos traz a idéia do “Ser Vibrante” ou o Ser que está constantemente sendo; o Ser está sempre mudando; é sempre vibrante, porque a natureza do Ser é estar sempre sendo; jamais ficando estático ou ataráxico, como defendiam os metafísicos gregos. No Tantra, Deus é um todo que está se aprontando. A filosofia do Tantra está mais para a Dialética do que para a Metafísica, sem desprezar os aspectos de nenhum dos dois pontos filosóficos. O mais importante propositor da filosofia do Atma vibrante ou dinâmico, também conhecido como Spanda Tattva, foi Vasugupta. Num famoso texto denominado Siva Sutra (Escritos Auspiciosos), Vasugupta defende a idéia de que o Atma é a própria consciência ou Chaitanya, e que a natureza da consciência é sempre-Ser.

Conclusão
Para resumir o que dissemos acima, retomemos os aspectos na Filosofia da seguinte forma:
1. Três aspectos do Absoluto: Deus ou Brahman; Natureza ou Prakriti, e Homem ou Jiva (alma individual que têm consciência de si);
2. Dvaita: Deus, Natureza e o Jiva são distintos uns dos outros; o Ser ou alma é ataráxico, eterno, sempre existente, um mero espectador das ações do Jiva;
3. Advaita: Deus, Natureza e Jiva são três aspectos do Brahman ou Absoluto; somente há a unidade de tudo e de todos ou Brahman, e a distinção entre um aspecto de outro de Brahman é devido à Maya ou ilusão da Verdade.
4. Tantra, o Ser está sempre sendo; Ele é dinâmico, e a própria Consciência.

Hari Om Tat Sat