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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Kamakhya, uma forma feminina do divino

Kamakhya, uma forma feminina do divino
Mitologia indiana clássica

Swami Krishnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Gita Ashrama – outono 2017

Kamakhya yoni, deidade no interior do templo


O mítico feminino
Diferente das religiões abraâmicas, a filosofia do Tantra (teia; rede) tem no culto à divindade ou devoção à forma feminina de adoração ao divino, algo muito vivo, ativo, atuante e pungente. Sendo uma das mais antigas tradições religiosas existentes, o culto a Devi permanece tão ativo hoje quando no passado. Não sabemos quando foi que deus virou macho pela primeira vez, mas a história religiosa da humanidade nos mostra que todas as religiões do passado iniciarem como um culto ao feminino, principalmente pelo fato de que é a mulher quem gera, portanto, origina a vida, e o macho apenas controla. Assim, sabe-se porque Vishnu, por exemplo, é tido como o supremo macho; o controlador supremo. A visão e cósmico divina dos povos do passado era bem mais objetiva do que a mítico e poética que hoje temos da divindade. Achados arqueológicos no Indus Valley, mostram-nos claramente que o culto à divindade feminina era predominante, sendo o Shaktismo anterior aos faraós no Egito. Kamakhya é uma das tantas e inúmeras divindades femininas da Índia, onde Aditi, Durga, Uma, Saraswati, Kali, Lajja Gauri, entre milhares de outras formas da Shakti, são adoradas com a mesma fé e devoção às formas masculinas do Absoluto. É provável que o Shaktismo seja a manifestação religiosa mais antiga do mundo. Percebemos isso em pinturas rupestres no Vale do Indo, pertencente a época dos homens da cavernas.

Pintura rupestre no Vale do Indu,
retratando o culto a Devi
A adoração à Kamakhya na Índia é tão fervorosa ou mais quanto o culto à Virgem Maria no Ocidente, essa, por sua vez, também tendo vários nomes e vestes diferentes, dependendo da região que é adorada. Na Índia, o fervilhar da fé no aspecto feminino da divindade, é algo que pode facilmente chocar uma mente acostumada a pensar em deuses masculinos poderosos, mas um devoto de Devi não diferencia o divino, seja na forma masculina ou feminina. Talvez seja essa a razão porque os ocidentais têm a tola ideia de que na Índia há “milhões de deuses”, não sabendo ver na sua própria fé as inúmeras formas femininas da divindade, seja ela representada como mãe de deus, entre os católicos, ou como um Linga, entre os muçulmanos em Meca, ou então as mulheres que libertaram os judeus em vários momentos históricos.

Devi é uma das maiores manifestações da adoração da divindade no seu aspecto feminino, e o número de adoradores é gigantesco. É provável que tenha igual número de adoradores de Shiva, seguido de Ganesha, seguido de outras formas de adoração da divindade, porém em menor número, como Karthikeya, Vishnu e seus representantes como  Rama e Krishna,


Kamakhya a deusa que menstrua
Anualmente em Assam, estado localizado no nordeste da Índia, milhares de jovens mulheres realizam uma peregrinação ao templo dedicado a deusa Kamakhya. O objetivo principal, é quererem se tornar mães. No interior do templo, o objeto de adoração é uma yogi (vagina simbólica), a qual se refere à deusa em si mesma. Kamakhya é tida como um avatara da Shakti todo-poderosa, a qual menstrua.

O mito
A história de Kamakhya aparece principalmente nos Puranas, Shiva e Vishnu. É dito que Daksha, o patriarca filho de Brahma, realizou um sacrifício (yajña) para ter a força primordial ou Shakti como sua filha, tendo essa o nome original de Sati. Quando Sati alcançou a maioridade (pela tradição é quando ocorre a menarca), ela escolheu o Senhor Shiva como seu esposo. Mas seu pai, Daksha, detestava o estilo de vida, nada ortodoxo, de Shiva, o qual se caracterizava pelo pouco caso às convenções sociais, e respeito aos valores tradicionais. Também é dito que Daksha ficou furioso pelo fato de Shiva não ter feito reverências (curvando-se) diante dele, não dando atenção ao futuro sogro. Apesar da relutância de Daksha permitir que sua filha casasse com Shiva, ela insista em casar-se com ele, indo morar com Shiva mesmo contra a vontade de seu pai. Considerando essa rebeldia de Sati como uma grande ofensa, ele decidiu puni-la, bem como a Shiva.

Shiva carrega o corpo de Sati
Daksha organizou um enorme sacrifício (yajña), convidando todos os semideuses, bem como Brahma e Vishnu, mas não convidou Shiva e tampouco Sati. Mas Sati considerou que seu pai estava sendo negligente, porque exigia que Shiva respeitasse as tradições, mas agora, pelo fato de não convidar Shiva e nem ela, sua filha, ele estava sendo incoerente e negligente. Sati, então, insistiu que Shiva fosse até o altar do sacrifício, mas Shiva negou-se dizendo, “Não irei de modo algum; seu pai me insultou de propósito. Uma vez que você tem um dever para com o seu pai, eu não lhe pedirei que não vá, mas terá de ir sem mim”. Ficando muito sentida, Sati foi até o local do sacrifício.

Chegando no local onde acontecia o sacrifício, Sati não foi recebida, ficando ignorada no evento. Sendo a mulher que era (shakti significa poder feminino absoluto), ela decidiu admoestar o seu pai dizendo: “Eu prefiro morrer do que ter esse desonroso tratamento injusto e horrível, que está sendo dado ao meu marido”! Assim, estando resoluta em suas palavras, ela resolveu saltar dentro do fogo do sacrifício. Contudo, mesmo Agni, o semideus do fogo, não podia queimá-la. Então, ela evocou seu poder imensurável e entrou em autocombustão, mantendo-se na posição de lótus, incinerando-se a si mesma.

Shiva ficou muito triste e perturbado com isso. Dirigindo-se ao local do sacrifício, recolheu o corpo incinerado de Sati, e decidiu realizar a dança da destruição, Tandava. Temendo pelo fim do mundo, Vishu enviou a Sudarshana Chakra (um disco de destruição) que rasgou o corpo de Sati em 108 pedaços, os quais se esparramaram por sobre todo o continente indiano. Segundo a tradição, esses lugares são conhecidos como Shakti-pithas (locais de peregrinação).

O templo de Kamakhya
Templo de Kamakhya
Um daqueles locais, considerados Shakti-pithas, é o templo de Kamakhya,  o qual fica localizado no estão de Assam. É dito que a parte que caiu naquele local fora o ventre de Sati. Portanto, a mítica yoni está instalada no chamado Garbhagriha (casa do ventre), o local do templo. A divindade do tempo leva o nome de Kamakhya devido ao fato de que Kama, o deus do amor e da procriação, certa feita perdera a virilidade devido a uma maldição, e procurou o ventre de Sati para libertar-se. Desta forma, o nome do templo, “kamakhya” advém do deus Karma. Também é dito que o local era costume ser usado para Shiva e Sati para encontros amorosos.

Ambubachi Mela
Arredores do templo
Um festival em homenagem a Kamakhya, conhecido como Ameti ou festival tântrico da fertilidade, é realizado no mês de Ashaad (junho), em Assam, onde é dito que a deusa sangra, dando uma coloração avermelhada às águas do rio Brahmaputra. Nesta ocasião, o altar do templo permanece fechado, e toda a comunidade comemora a Shakti, a festividade de procriação feminina.

Na ocasião, há centenas de anos, um festival de cores, músicas, reunindo pessoas de todos os lugares da Índia e do mundo, torna-se um desfile de fé e renovação no poder feminino da Shakti.

Video de cenas pitorescas do festival Ameti

video


Para saber mais
- O Tempo de Kamakhya; site oficial do templo
- Ambubachi Mela: Wikipedia (inglês)




quarta-feira, 3 de maio de 2017

Um Momento de Gratidão - O Nascimento de Shanmukha

Um Momento de Gratidão - O Nascimento de Shanmukha

Swami Krsnapriyananda Saraswati - Olavo DeSimon

Mitologia indiana védica
Gita Ashrama - Outono, 2017


Murugan, com sua lança e transporte celeste (pavão real)

Preâmbulo
A mitologia indiana védica é riquíssima, e, provavelmente, suas narrativas influenciaram toda a Ásia, bem como o Ocidente, com a sua visão cosmogônica e teogônica. Contudo, os aspectos peculiares de cada lila (passatempo) que aparece nas narrativas da chamada “mitologia hindu” estão repletos de conteúdos morais, e como sabemos, são assuntos pertencentes aos mitos de todos os povos, além disso, os mitos indianos nos mostram a natureza divina e um princípio cósmico e universal permanente incoativo em tudo e em todos. Na mitologia indiana, é Impossível separarmos o cosmos, as estrelas, os planetas, os cometas, os meteoros, os nomes dos personagens e suas personalidades com eventos cósmicos e antropogênicos, e assim por diante. Notável é, também, a relação íntima entre o universo-macrocosmos com o universo-microcosmos, no que somos todos nós. A ideia de “teia” (Tantra), hoje difundida como “rede”, constitui-se a base fundamental do mito e do pensamento hindu. É por isso que a chamada “lei do karma” é tão surpreendentemente fecunda no campo tanto das coisas físicas como psíquicas. Mal interpretado no Ocidente, o princípio do karma defende que apenas objetivamente (na aparência temporária das coisas), é que temos nomes, formas, atribuições, e tudo aquilo que o mundo fenomênico nos mostra, mas, de fato, são modificações de uma mesma e singular substância primordial: o Absoluto.

Além dos aspectos mitológicos em si mesmos, presentes nas narrativas hindus, o leitor irá encontrar uma série de termos-palavras dos quais derivam muitos vocábulos usados no Português, e que também estão em outras línguas, as quais possuem “origem  hindu-europeia”, dando um nuance muito especial para o aspecto étimo-filológico - o sentido original de uma palavra - adicionando, assim, uma pitada da rica história da gênese e do sentido dos significados dos nomes contidos nas palavras. O primeiro exemplo é a própria palavra mito, a qual advém do Sânscrito, “medh” ou “midh”, tendo, entre outros, o significado de “entendimento”; “sabedoria”; “compreensão”, e, nos remete para narrativas de “formas e força extraordinárias”, as quais aparecem nas histórias através dos tempos. Gregos, Romanos, e outros povos do passado, herdaram, assim, a palavra, o termo e o significado original de mito. Conforme CIVITA (1973, p. 3), “Dentro da narrativa mítica esconde-se um aspecto, um núcleo, que encerra uma verdade... o mito relata uma ‘história verdadeira’, na medida em que toca profundamente o homem...”

Por outro lado, o leitor atento perceberá que há um conteúdo “esotérico” (interno; velado) e outro “exotérico” (externo, comum) nos mitos da Índia, e, quiçá, em toda a mitologia conhecida. É por isso que é sempre recomendado ler e reler as narrativas e estabelecer um elo entre a cosmogonia e a teogonia hindu. E a palavra-chave, aqui, é “despojamento”, desde que pelo viés particular o social que alguém está engajado, certamente, não será possível avançar-se na compreensão mitológica indiana. De algum modo muito peculiar, todos somos fruto das estrelas.

O que é notável nesta presente narrativa do aparecimento do chefe de todos os guerreiros celestes, Karthikeya, além de ser altamente imaginativa, é o modo como ele foi nutrido pelas estrelas, Krittikas, bem como esteve acolhido por Agni-deva, e, por fim, onde Śiva reconhece e agradece a cada um, dando epítomes como Shanmukha, Murugan, Skanda, Kumara, Vishakha, Subramaniyam, entre outros tantos, para o menino cuidado pelas estrelas. Pode ser que possamos implementar isso também em nossas vidas. Muitas vezes somos rápidos em esquecer daqueles que nos ajudaram ao longo da nossa existência terrena, mas olhando bem de perto, todos temos um pouco de um e arremedo de outro, tendo muitas faces, bocas e olhos, e pode ser que nem sequer nos demos conta disso.

O Nascimento de Shanmukha
O Senhor Shiva ficou imerso em profunda meditação, depois de perder sua esposa Sati[i]. Tirando proveito deste estado de Shiva, o demônio Tārakāsura ofereceu uma longa e dura penitência, de mil anos, ao Senhor Brahma, e, assim, obteve uma bênção: "Que minha morte venha apenas nas mãos de um menino que seja filho do Senhor Shiva".

As atrocidades de Tarakasura entre os deuses, sábios e devotos, se tornaram insuportáveis ​​depois disso. Os deuses perseguidos, se uniram e lançaram um grande plano. Eles incentivaram o casamento de  Shiva e Parvathi, ​​com a ajuda de Kama, o deus do amor.

No entanto, após o casamento, mesmo depois de várias centenas de anos, não havia nenhum sinal do casal sair de seu palácio em Kailasa. Os Deuses, agora desesperados, debateram seu próximo plano: "Se o Senhor Shiva e a Deusa Parvathi não tiverem um Filho em breve, então vamos perder o paraíso para este demônio Taraka. Vamos conversar com eles”.

Nandi, o assistente de Shiva, guardava a porta do palácio em Kailasa. Ele recusou a entrada para os visitantes. Então, eles planejaram, mais uva vez: "Vamos cantar alto, louvores a Shiva,  daqui. Ele, certamente, vai sair para nos receber. Ele é um Deus bondoso”. Como esperavam, Shiva, depois de ouvir as preces dos deuses e sábios, saiu e foi tomado de surpresa: "O que traz todos vocês para minha morada?", Perguntou Shiva.

Na reunião, agora animada momentaneamente, explicou-se a Shiva como estavam ansiosamente, esperando seu filho nascer. Shiva pensou por um momento e então disse: "Vou liberar essa energia do meu corpo agora. Vocês cuidam disso, e um menino nascerá dela."

A felicidade dos Deuses não conhecia limites. Mas quando eles perceberam que a energia emitida por Shiva era insuportavelmente quente, eles empurraram o deus do fogo, Agni, para a frente, dizendo: "Pegue a energia, Agni!" E ele o fez. Depois de um tempo, o próprio deus do fogo estava em chamas! "Eu tenho que tirar isso de mim. Este calor é mais quente do que qualquer coisa que eu senti até agora.” Assim, Agni transferiu a energia para os corpos de seis Krittikas (exceto Arundhati), as esposas de Saptarshis (sete sábios).

Krittikas (Plêiades ou M45)
As delicadas Krittikas começaram a queimar com o calor da luz branca que tinham recebido com entusiasmo de Agni. Elas rapidamente lançaram-na no Himalaya. Quando a neve começou a derreter, Himavantha fez flutuar a energia até o rio Ganga (Ganges). A deusa do rio, secando-se do calor, depositou suavemente a energia na grama exuberante de Shara, em sua margem de rio.

E, no minuto em que a energia tocou a grama, uma criança, que emanava uma luz brilhante ao redor dela, se formou. Quando os gritos do bebê chegaram às Krittikas, elas vieram correndo para alimentá-lo. Então elas iniciaram uma disputa: "Ele é meu bebê", disse uma. "Como assim? Eu o dei de mim também ", disse a seguinte. O bebê, então, magicamente, fez crescer seis cabeças para apaziguar cada uma de suas seis mães adotivas! O pequeno adorável cresceu logo, para ser um menino valente sob o amoroso cuidado das Krittikas.

Shiva e Parvati, com Karthikeya e Ganesha
Enquanto isso, o Senhor Shiva e Parvathi estavam em busca frenética de seu filho. Os homens de Shiva, Ganas, finalmente localizaram o garoto que brilhava com uma refulgência igual ao do Sol.
"Nós estaremos eternamente gratos a você por ter criado nosso precioso filho", Shiva e Parvathi agradeceram a Krittikas, que, embora muito tristes, enviaram seu filho para seus legítimos pais.

Shiva e Parvathi então declararam: "Este nosso filho foi criado por muitas pessoas de bom coração. Queremos agradecer a todos eles. Ele será chamado Kartikeya por ser nutrido por Krittikas. Ele também será chamado Agney por ter sido levado por Agni; Gangeya por estar no ventre de Ganga, e Saravana, por ser protegido pela grama Sara.

O jovem Kartikeya, foi, então, nomeado por Śiva como comandante-em-chefe do exército dos deuses, e assim lutou e matou o poderoso demônio Tarakasura, restaurando a paz em todo o universo.


Glossário Sânscrito
Himalaya: lit. sânsc.: “morada da neve eterna”; cadeia de montanhas do norte da Índia.
Himavantha: lendária floresta que rodeia a base do Monte Meru (monte místico, considerado centro do mundo), onde a cadeia do Himalaya é considerada a localização física atual. O seu nome está, também, associado a criaturas míticas como Naga (povo serpente), Kinnara (criaturas metade homem/cavalo/pássaro, sendo a provável origem da palavra “quimera”) e Garuda (o condutor de Vishnu). Na mitologia budista, a árvore Nariphon, florescia naquela região.
Nariphon: “pronuncia-se: “naripon” sânsc: nari=“nascida”; “phalak”= fruto;  também conhecida como “makkaliphona”; árvore na qual crescem frutos com formatos femininos, estando atados por suas cabeças (como maçãs). Na mitologia indiana, os Gandharvas (músicos guerreiros celestes), desfrutavam destas frutas com esse formato peculiar. Essa mitologia se espalhou para a Tailândia e entre os budistas.
Kṛttikās: também conhecidas como “kārtikās”, correspondendo as estrelas Plêiades, são chamadas de “esposas” dos sete sábios.
Saptarishis: lit. sânsc. “sete sábios”; estes sábios tem diferentes nomes em cada Manvantara ou era cósmica, segundo a mitologia do ciclo de criação  e destruição do universo ou ciclo de Brahma ou Manuvantara. Na atual era, os sete sábios são: Kashyapa, Atri, Vashista, Vishvamitra, Gautama Maharishi, Jamadagni e Bharadvaja. Também possuem correspondência com sete estrelas, as quais estão na constelação da Ursa Maior, então seus nomes são: Kratu, Pulaha, Pulastya, Atri, Angiras, Vashista, e Bhrigu. É dito que Vashista está acompanhado de sua esposa Arundhati (Alcor/80 da Ursa Majoris).
Shara: ou sânsc. śara, um tipo de gramínea medicinal, conforme a tradição do Ayurveda. É também referenciada como Inana ou Iśtar (da mitologia sumeriana). A expressão “savana”, bem como “caravana”, deriva-se deste tipo de grama.
Kailasa: conforme a mitologia hindu, trata-se da residência de Śiva, localizada no monte Kailāsaḥ ou Kailash (do sânsc. kelāsa= cristal), o pico da cadeia Kailash no Himalaya.
Shanmukha: do sânsc. “ṣaṇmukha”, tendo seis bocas ou faces.
Tārakāsura; do sânsc. “Meteoro”.

Referências bibliográficas
ZIMMER, Heirinch. Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia. 2ª impressão. São Paulo, Palas Athena, 1998.
___. Filosofias da Índia. 5ª reimpressão. São Paulo, Palas Athena, 2000.
CIVITA, Victor. Vol. 1, 1ª. Ed. Mitologia. São Paulo, Abril S.A, 1973.

Para saber mais
Wikipedia: Karthikeya 
The Hindu Universe: Karthikeya-Subramaniya






[i] Satī é também conhecida como Dākṣāyaṇī (filha do rei Dākṣā), sendo considerada a deusa da felicidade matrimonial e da longevidade na mitologia hindu. Ela foi a primeira esposa de Śiva, o qual sempre vivia em isolamento asceta, na participação criativa do mundo. O ato conhecido como “satī”, na qual a viúva se autoimolava na pira de cremação do marido, como prova final de lealdade e devoção a ele, deve-se ao fato de que Dākṣāyaṇī ter feito isso em honra ao seu marido, quando seu pai desprezou Śiva deixando-O fora de um grande sacrifício e mantando matá-lO, o que é uma tarefa impossível. Após isso, Parvathi casou-se com Śiva, sendo, na verdade, uma reencarnação de Satī.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Eu sou Hindu, e eu não sou um pecador

Eu sou Hindu, e eu não sou um pecador


Udaylal Pai  
Jornalista freelance , escritor e pesquisador

:-:
Tradução e adaptação por

Krsnapriyananda Swami - Olavo DeSimon


Prólogo
Este belo texto, resume a pragmática e a vivência filosófica do Sanatana Dharma, conhecido como "hinduísmo" no Ocidente. A vivência da cultura védica, bem como seus princípios norteadores espirituais remetem-nos a trilhar o caminho da liberação por livre iniciativa, e não por meio de uma imposição restritiva e a consequente punição por não seguir o que é ordenado. Diferente da forma puramente regulativa e restritiva da espiritualidade, a filosofia dos Vedas dá o total apoio a independência da pessoa, instruindo-a antes, sobre as inevitáveis reações das ações que alguém empreenda. Não se trata de uma ameaça punitiva, mas um abrir os olhos para que saibamos que ninguém é uma ilha no mundo, bem como no universo, de modo que não há como alguém atuar sem que haja reação em si mesmo e nos outros. Tendo a noção que só há um único e mesmo princípio em tudo e em todos, certamente a consciência universal é o norte para um hindu. Muito mais do que seguir algo por simples medo de punição ou por recompensa, um hindu busca liberar-se das amarras do "eu" e "meu", princípios egoístas que movem até mesmo religiões calcadas em busca de ganho material.
Udaylal Pai é um hindu prático, portanto, vive-o na intensidade da sua vida diária, não distinguindo ações divinas ou sacras nas atividades de todos. Por que isso? Simplesmente porque deus e a divindade está em tudo e em todos. A ignorância do divino é a causa do sofrimento. Assim, a consciência panenteísta é a principal diferença entre as religiões punitivas ocidentais e a consciência cósmica universal do Sanatana Dharma.

Krsnapriyananda Swami




Eu sou um hindu
O Sanatana Dharma ou “hinduísmo”, como é popularmente conhecido no Ocidente, não é uma religião prescritiva. Não lhe dá uma lista de “faça isso” não “faça isso”. De fato, o Sanatana Dharma permite muita liberdade de pensamento, na medida em que aceita, por exemplo, que se uma pessoa diz que não existe Deus, ela é também referida como Santa. De acordo com os princípios básicos do hinduísmo, o maior pecado é chamar uma pessoa de pecadora. Acreditamos que a força divina existe em todos os seres vivos e não-vivos ... assim, chamar uma pessoa de “pecador” é negar sua divindade.

Em 2006 abril, eu estava em San Jose, Califórnia, para participar de uma conferência. À margem de uma reunião, um colega jornalista, um afro-americano, me disse que somos todos pecadores.

Como pode ser?

"Eu não acho que sou um pecador ..." eu disse.
"Você está dizendo que é perfeito?", Ele ergueu os olhos.
"Sim, é claro, eu sou perfeito com todas as minhas imperfeições ..."
"Isso é ridículo. Ninguém é perfeito ... Para não ser um pecador significa que você nunca quebrou qualquer Lei de Deus? "
"Lei de Deus? O que é isso? Eu não sabia que Deus era um criador de leis "
"Sim - Deus faz leis. Você já mentiu, enganou ou roubou? "
"Eu não me lembro de trapacear ou roubar. Mas eu posso ter mentido. Não dizer a verdade é quase igual a mentir. Hmm ... pode ser ... Eu sou um ser humano comum - na minha infância eu poderia ter roubado doces também "
"Então, você é um pecador"
"Sério? Como pode ter tanta certeza de que eu sou um pecador? "
"As escrituras de Deus dizem assim"
Então - essa é a razão - Ele segue algumas crenças. - O que diz?
"Como um pecador, você está separado de Deus. Mas o Deus te ama o suficiente para querer que você esteja com ele. Portanto, a única maneira de ter seus pecados perdoados é colocar sua confiança em Deus e seguir o que Deus disse ... Caso contrário, você terá que enfrentá-lo por conta própria no Dia do Juízo ... Então, por que você não aceita a si mesmo como um pecador?
"Eu não vou por tais crenças. Eu sigo Sanatana Dharma, em que você não tem que acreditar em nenhuma crença".
"Você está criticando a nossa confiança em Deus como apenas um conjunto de crenças?"
- De jeito nenhum ... Quem sou eu para fazer isso? Eu não estou. Estou apenas dizendo que meus pontos de vista são diferentes ... este é um país democrático, certo? Você tem o direito de expressar sua opinião"
"Então sua religião não diz que você é um pecador?" Ele perguntou.
"Sanatana Dharma ou Hinduísmo não é uma religião prescritiva. Não lhe dá uma lista de faça isso ou não faça isso. Dá muita liberdade de pensamento, tanto que uma pessoa que disse que não há Deus é também referida como Santa ".
"Isso é bull 8 @ # &"
- Essa é a sua opinião. Porque, você é condicionado por suas crenças. Eu não acredito em crenças. Eu sou um buscador da verdade. Com uma mente condicionada como a sua, não se pode buscar a verdade ".
Seu rosto ficou vermelho. Ele ficou realmente muito irritado.
"Não me olhe com raiva. Por favor, não reaja antes de eu terminar. Eu não me sinto inseguro ou magoado se você falar alguma coisa ruim sobre minhas crenças, então por que você deve se machucar? "Eu perguntei a ele.
Isso é muito estranho. Alguns sistemas de crenças que têm o maior número de seguidores do mundo são mais inseguros e se sentem magoados, quando alguém questiona suas crenças ou superstições.
Perguntei-lhe: "Por que vocês se sentem inseguros e zangados ou se machucam quando alguém diz contra a sua fé? Por favor, dê liberdade aos outros para expressar suas opiniões ... "
- Não concordo com você. Você está errado, totalmente errado ", disse ele.
"Você está livre para discordar. Esta é a América, um país democrático ... Você não está me deixando completo ... "
"OK" ele estava esfriando.
"Veja meu amigo, o conceito de bom ou mau é ocidental. O mundo de ver a dualidade e os opostos polares em todos os lugares é semítico. Uma visão totalmente simplista do mundo.  Não é verdade?”
Brahmaa, Vishnu e Shiva, a Trimurti 
"É uma filosofia muito simplista em preto e branco - eu concordo que é muito fácil de entender no nível da mente e seguir também ... mas tudo não pode ser definido em preto e branco. Na verdade, 99% de tudo está no cinza ""Hmm ... eu não entendo. Venha ao ponto, não apenas blah-blah ... Você quer dizer que não há pecado em sua religião? "
"Sim e não ... Não há tal pecado, como por seu conceito, no hinduísmo. Este é apenas outro conceito ocidental que se infiltrou na Índia através dos missionários estrangeiros ... É um conceito estrangeiro trazido a nós por estrangeiros, e não tinha lugar no hinduísmo original "
A visão hindu do pecado não é a mesma que outras visões religiosas ... Por exemplo, os cristãos (particularmente católicos) acreditam que o pecado é uma ofensa contra Deus. De acordo com a teologia católica, um pecado mortal (um ato mau cometido com pleno conhecimento e reflexão significativa) rompe o relacionamento de uma pessoa com Deus e se ele/ela morrer não arrependido em um estado de pecado mortal, ele/ela vai para o inferno.
No hinduísmo, o termo pecado (pāpa em sânscrito) é freqüentemente usado para descrever ações que criam karma negativo, violando códigos morais e éticos. No entanto, é totalmente diferente de outras religiões como o judaísmo, o cristianismo e o islã, no sentido de que o pecado é contra a vontade de Deus - ou contra as leis de Deus.
Em outras palavras, o cristianismo não tem nenhuma teoria do karma, então eles acreditam no julgamento de Deus após a morte. Também todo ser humano é assumido como um pecador desde o nascimento e, portanto, deve temer a Deus, que por sua vez vai então amar a pessoa.  Alguns hindus podem dizer que o bem leva você mais perto de Deus, enquanto o mal leva você longe de Deus - mas não há tal menção em nossas escrituras antigas: mesmo bom karma não pode chegar a Deus ... a pessoa deve transcender ambos pāpa e punya para realizar o supremo ou cósmico….
"O hindu não é responsável perante um Deus pessoal. Ele não pode se arrepender do pecado, e não há perdão. Ele é responsável por suas ações por causa de uma lei inexorável do universo. "
"Oh, eu ouvi a palavra 'karma' - nós também usamos isso enquanto escrevemos notícias, embora eu não entenda completamente o significado. Então você está agora concordando que há karma ruim."
"Karma - é apenas karma, não é bom ou ruim. Os resultados dependem da ação e reação da pessoa, das situações, do espaço e do tempo ... aqui de novo, não podemos promovê-lo como simples preto e branco ou em plataforma 'sim ou não' ... "
"Mas você acredita que o karma cederá ao resultado ..."
"Oh, isso não significa que se você fizer o bem, o resultado será bom, e se você fizer algo ruim, o resultado será ruim. Essa também é uma maneira muito simplista de ver coisas complexas e relacionadas. Se isso é verdade, por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? "
"Oh Oh ... você está complicando intencionalmente as coisas, só para ganhar em discussão ..."
"Não. No momento, não estou discutindo com você. Estou tentando expressar o que eu tinha entendido. Eu não sou um autêntico especialista em hinduísmo. Mas, tanto quanto sei, não há expiação formal para o pecado em qualquer lugar nas escrituras hindus "
"Mesmo? Pode explicar mais?
- "Segundo meu conhecimento, no hinduísmo, o pecado não é uma ação. É a reação a uma ação. Significa meramente não julgar e condenar alguém sem uma apreciação plena dos fatos e circunstâncias. Significa não adotar uma atitude mental superior, virtuosa, "mais santa do que tu" ... "
"Assim não há nenhum bom e mau ... como as sociedades podem ou uma comunidade pode, sobreviver sem nenhum conceito moral do bom e do mau?"
- "A sociedade e os conceitos morais são assuntos diferentes. Agora, estamos falando sobre pecado. Nós, hindus, tanto quanto sei, consideramos os bons e maus atos como um retardo na consecução do objetivo final da eterna felicidade e paz. As escrituras védicas dizem que punya ou pāpa são produtos da mente e não possuem qualquer substância ... ".
"Então, como você pode alcançar a salvação?"
- "Isso é o que é. Para nós, não há pecado. Portanto, nenhuma salvação é necessária, apenas iluminação. Devemos simplesmente acordar para nossa divindade inata. Se eu sou parte de Deus, eu nunca posso ser realmente alienado de Deus pelo pecado ... Eu simplesmente não posso fazer nada contra a vontade cósmica, desde que eu estou ciente de que eu sou uma parte de tudo "
As escrituras hindus dizem que todo o universo, incluindo todo ser vivo, é Uno.

Fragmentos de textos védicos


1. aham brahmāsmi - "Eu sou Brahman" (Brhadaranyaka Upanishad 1.4.10 do Yajur Veda)
2. tat tvam asi - "Tu és Isso" (Chandogya Upanishad 6.8.7 do Sama Veda)
3. ayam ātmā brahma - "Este Ser (Atman) é Brahman" (Mandukya Upanishad 1.2 do Atharva Veda)
4. prajñānam brahma - "Consciência é Brahman" (Aitareya Upanishad 3.3 do Rig Veda)

Tudo, tudo, é Deus. Único cósmico. (Separação cria ego e medo - mas isso é outro assunto); e nós somos divinos; deuses (Deus não pessoal, mas realidade impessoal). Qualquer coisa feita para fins puramente egoístas ou para a gratificação do ego, tende a limitar a mente. E essas ações levam você longe do conhecimento do que ele é, finalmente, a compreensão de que você é uno com tudo.
"Eu sinto muito, mas não consigo explicar esses mantras sânscritos como (1) você já tem conceitos condicionados sobre DEUS e (2) eu não sou um bom orador"
- Quer dizer, seus textos sagrados não mencionam o pecado?
"Há dois níveis no hinduísmo - um é o nível mente-corpo - que é conhecido como nível de introdução ao hinduísmo. Tem rituais, fé, superstições, crenças etc. Para ensinar a tais hindus, temos os puranas ou histórias que dizem que há coisas boas e más. Existem deuses e asuras semelhantes aos seus deuses e demônios ... Mas aqui também um hindu tem liberdade para acreditar em qualquer sistema que ele queira seguir "
Sandipani instrui Krsna e Balaram
"Qual é o próximo nível ...?"
"O próximo nível é quando um hindu transcende e se torna um buscador de verdade ... ele vai além de puranas e começa a aprender escrituras védicas ... então ele entende e experimenta a consciência pura ... o eu superior ... nesse estágio, não há pecado ou o mal. Um buscador está ciente da consciência cósmica, então ele simplesmente não pode fazer nada contra o cósmico. Por isso não há pecado para um buscador de verdade "
"Ainda assim, para os hindus no ponto de vista da introdução, vocês têm pecados ..."
"Por favor, não complique com seus conceitos de pecados; pāpa não é a palavra apropriada para o pecado. Você pode dizer, talvez, ‘ações adharmicas (contrária ao dever)’. Isso é uma palavra diferente, e significado diferente também. Ainda assim, digamos que a ação adharmica pode ser traduzida como pecado "
"Aha! ... então você está voltando ao meu ponto. Agora, você explica o que são ações adharmicas? Existem mandamentos? É outra palavra para o pecado?"
"Não ... Como eu disse, não há pecadores, embora haja ações erradas. Somente pela ignorância, cometer várias ações erradas. Não há pecadores, embora haja ações erradas ... "
O Mahabharata, Santi Parva, Seção CLVIII diz: "Cobiça ou excesso desejoso das posses de  outra pessoa (quase um sinônimo de inveja) pode ser considerado como o mairo pāpa. É a partir desta fonte que o pāpa e a irreligiosidade fluem, juntamente com a grande miséria. Esta é a fonte de toda a astúcia e hipocrisia no mundo. É a cobiça que faz os homens pecarem. O orgulho, a malícia, a calúnia, a maldade e a incapacidade de ouvir o bem de outrem, são vícios que devem ser vistos nas pessoas com impureza, estando suas almas sob o domínio da cobiça. Saiba que aqueles que estão sempre sob a influência da cobiça são ímpios. "
"Então, seu Mahabharata diz que existem pecados - há boas e más ações. Então por que você não pode aceitá-lo? É semelhante à nossa fé ... "
"Nem um pouco ... tentando explorar outros ou lavando a mente dos outros também vêm sob o pecado ..." Eu disse, cutucando ele.
O Mahabharata, Santi Parva, Seção XV, diz: "Não há nenhum ato que seja inteiramente meritório, nem qualquer que seja totalmente perverso. Certo ou errado, em todos os atos, algo de ambos é visto ... "
"Diga com palavras simples, não complique as coisas"
"Não existe um direito e um erro prescritivos ... mas, para colocá-lo em palavras simples - no preto e branco para você - prejudicar os outros pode ser considerado como um pecado de acordo com o hinduísmo".
Krsna e Arjuna no campo de batalhas, no Mahabharata
(Slokaardhena Pravakshyaami yaduktham grantakotishu: Paropakaara: Punyaaya Paapaaya Parapeetanam = Significado desta subhashita em inglês: "O que foi dito em milhões de escrituras, vou dizer em apenas na metade de um sloka (verso)- ações que buscam o bem para outros é Punya, e ações que buscam Dificuldade para os outros, é Pāpa ".)
"E qualquer escritura oferece salvação para o ‘seu conceito’ (em citações) de pecado?" Ele bateu de volta para mim.
"Nenhum pecado ... assim nenhuma salvação. Eu disse, esclarecendo ... estar ciente sobre suas ações ... Se você está ciente, você não vai e não pode fazer qualquer pāpa em tudo ... "
- No entanto, no Bhagavad Gita, capítulo 9, versículos 30 e 31, diz: “Mesmo que a pessoa mais pecadora me adore com devoção, e a nenhum outro, ele deve ser considerado justo, pois ele tomou a resolução correta (porque ele fez a santa resolução para desistir dos maus caminhos de sua vida). Logo, ele se torna justo e atinge a paz eterna; Ó Arjuna, sabe que o meu devoto nunca será destruído!”.
"Sim - veja ... veja ... Isso é o que também dizemos - arrepender-se de Deus", ele aclamou.
"Mas há uma diferença séria novamente. Krishna e Arjuna são representações simbólicas. O significado do Gita sloka é: Ao abandonar os caminhos maus em sua vida externa e pela força de sua resolução de direito interno, ele se torna justo e atinge a paz eterna. Em por conseguinte, Krishna é a representação simbólica da consciência cósmica "
"Volte novamente,"
"O corpo-mente traz a ideia do pecado ... O nascimento do próprio pensamento é pecado ... mesmo a espiritualidade sem consciência não o ajudará ... algumas pessoas agem espiritualmente, mas, então, sua espiritualidade é uma coisa de nível de mente ... A mente não pode e não escapará do ego. Portanto, o primeiro e principal aspecto são pensamentos e ações puras - vem do estado de consciência. Se pensamentos e motivos são bons e sustentados pela verdade eterna, qualquer que seja a ação, não haveria pecado algum ... "
- Até a violência?
"Veja, se você olhar para as coisas com a mente condicionada, você pode ver muitos dos acertos e erros. Por exemplo, você pode ver todos os deuses hindus carregando armas com eles. E eles mataram .... Na verdade, os deuses hindus carregam armas para proteger a não-agressão. Para proteger dharma ... "
"Deixe-me dizer-lhe - você chamá-lo bom ou mau ou pecado ou adharma. Para mim é difícil de entender ... "
"Assim é Hinduísmo - difícil de entender, mesmo para seus próprios seguidores ..." Eu adicionei.
- Um verdadeiro seguidor do Sanatana Dharma não se envolverá no karma adharmico. Por quê? Não é devido ao temor de DEUS que um hindu nunca seja ensinado a temer a Deus. Não é por causa de uma proibição de entrada no céu. Mas por causa de seu amor a Brahman ou o Cosmos. Um hindu é responsável per se, pois, ele sabe que ele é parte integrante da natureza cósmica ... a qual é consciência ...
"Ok ... Mas você pessoalmente acredita em pecados? Seja honesto comigo ... não me dê essa consciência ou esclarecimento ou porcaria de Brahman e tal."
"Meu caro amigo, eu não sou uma pessoa iluminada. Eu ainda estou no Hinduísmo no patamar introdutório, embora eu esteja tentando ser um buscador. Eu ainda tenho o maldito problema com ego sutil (que vem em disfarce), então, eu não estou plenamente consciente. Eu acredito em algo bom e ruim. Segundo penso, alguns dos piores pecados no hinduísmo encontra-se naqueles que estão desejando coisas ruins para os outros, sem entender que eles são parte de todos nós. Eu também considero comer carne como pecado. Mas há hindus que comem carne. Eles não pensam isso como pecado. Isso significa que a definição de coisas ruins ou pecado é relativa - diferente para diferentes hindus ... Não há padronização do bem e do mal como as outras religiões "
"Ei, eu também sou vegetariano e também acredito na não-violência. Os cristãos também professam a não-violência, você sabe? "
"Isso é ótimo. Então, em suma, o pecado no hinduísmo = dar dor ou tortura ou até mesmo fazer alguém sentir-se mal, por sua mente, palavras ou por ações. (Mansa, vaachaa, karmana) ... "
"Então, você vai receber punição e ir para o inferno ... lol", ele riu.
"Não ... Não ... Não ... .de novo, nós não temos um castigo como o seu. Apesar de Garuda Purana falar sobre "inferno" e "céu", o assunto está completamente ausente nos textos mais antigos do hinduísmo. As escrituras autênticas não têm tal inferno e céu. Nós temos triloka, mas é um conceito diferente ... Todas as ações são governadas pela lei do Karma ... "
De repente, ele perguntou: "Você gosta de Jesus Cristo? ..."
"Claro que sim ... Creio que Cristo era um homem iluminado como Buda, Madhvacharya e Sankaracharya ... Isso não significa que eu tome tudo o que eles dizem como verdade. Eu sou um hindu por nascimento e por desejo ... Então eu tenho liberdade e escolha para acreditar no que eu quero ... "
"Estou feliz por você ter uma visão equilibrada. Eu também deveria ler estas coisas sobre o hinduísmo. Eu espero que você não vá pensar que somos fanáticos, como eu, que fiquei meio irritado ... "
"De modo nenhum…"


Nós nos tornamos bons amigos e ainda continuamos a amizade.

FONTES

- Site do autorLet's share and care...
- Livro do autor sobre o temaWhy Am I a Hindu? The Science of Sanatan Dharma

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Por que a religião japonesa é tão semelhante ao hinduísmo?

Por que a religião japonesa é tão semelhante ao hinduísmo?

Tradução e adaptação de

Swami Krsnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Gita Ashrama – Maio de 2017




Saraswati Devi, numa escultura japonesa chamada
Benzaiten


A Índia é conhecida como Tenjiku, “a terra do céu”, em japonês clássico. Este é um testemunho de quão grande é a chamada civilização védica. Aquele termo, foi derivado do palavra chinesa, Tianzhu.

A pessoa responsável pela propagação da maioria das ideias indianas foi Shakyamuni Tathagata Buddha. Seus ensinamentos foram espalhados para a China e, em seguida, fez o seu caminho mais para o leste. Assim, você poderia dizer que a China foi o canal para a propagação da filosofia indiana mais a leste.

Inicialmente, a religião japonesa era mais semelhante às filosofias chinesas. A cultura japonesa não é nada sem a influência chinesa, uma verdade percebida mesmo hoje em seu sistema de escrita, o Kanji. A religião japonesa é semelhante ao hinduísmo. Isto é devido à grandeza da civilização védica que, entre tantas coisas, produziu o budismo. Dados históricos demonstram que as ideias indianas entraram no Japão por volta do século VI na Era comum.

Como o próprio budismo é descendente do hinduísmo, era natural que certas ideias hindus penetrassem na Ásia Oriental. Um almirante chinês disse uma vez, que a Índia conquistou a China sem exércitos.

O Japão, como a Índia, também tem uma antiga mitologia com deuses e demônios. Muitos deuses hindus foram incorporados a essas mitologias.

Saraswati com a Vina
Por exemplo, Saraswati Devi, a deusa da sabedoria, arte e música, é retratada como Benzaiten. Kubera, conhecido domo “tesoureiro celeste”, é chamado Bishamonten, em japonês. Ganesha, também chamado Ganapati pelos hindus, é adorado como Kangiten. Yama Raja, o senhor da morte, é chamado Enma. Garuda, o transportador do Senhor Vishnu, recebe o nome de Karura. Por fim, as Apsaras, ou deusas celestes, são chamadas de Tennin.  

Há muitas outras referências naquele sentido, especialmente na região de Kansai do Japão. Cerca de vinte (20) formas de deuses indianos são adoradas no Japão até hoje. Kyoto, a cidade de mil santuários, apresenta muitos santuários dedicados a esses deuses.

Sujatha é um produto lácteo  vendido por Meiraku, uma companhia de laticínios. Isso foi baseado em uma história em que um Buda faminto foi salvo por uma menina, que o alimentou com farinha de leite.


No entanto, mais importante ainda, foi o conceito de karma que entrou em ideias japonesas. Isso é central para a identidade das religiões Dhármicas. Em japonês, eles dizem "bachi ga ataru", significando que algo ruim vai acontecer com você se suas ações causarem danos.

Culto a Saraswati no Japão
Frontispício do tempo Enoshima
O conceito original de Saraswati, sua associação com a ordem natural e a boa fortuna, estão bem preservados no Japão.

A maioria das pessoas não está ciente de que pelo menos uma dezena de “deuses” hindus são adorados ativamente no Japão. Na verdade, apenas para Saraswati, existem centenas de santuários no país do sol nascente. Um dos maiores exemplos é o que encontramos no tempo de Enoshima, em Kanagwa. Existem inúmeras representações de Lakshmi, bem como Indra, Brahma, Ganesha, Garuda e outras divindades. Na verdade, deidades que foram praticamente esquecidas na Índia, como Vayu e Varuna, ainda são adoradas no Japão.

Yasukuni Enoki, ex-embaixador do Japão na Índia, diz: "Como eu venho da cidade japonesa de Lakshmi , não é uma grande surpresa descobrir que a vida japonesa está cheia de tantas divindades hindus. Desde que estas divindades hindus foram introduzidas no Japão através da China, com nomes chineses, os japoneses desconhecem suas origens".

Saraswati - Benzaiten no Japão
Uma das divindades mais reverenciadas do Japão é, sem dúvida, Saraswati. Há dezenas de santuários construídos para ela espalhados pelo país. Existem dois tipos de Saraswati, ou Benzaiten, no Japão. Uma delas é a Saraswati de oito braços, e o outra, de dois braços. Em sua forma de dois braços, ela tem um instrumento musical na mão, que é chamado vina, ou biwa em japonês.

Em muitos aspectos, o conceito original de Saraswati, e sua associação com a ordem natural e a boa sorte, estão bem preservados no Japão. Ela é muitas vezes visualizada como um corpo sagrado da água. No Japão, encontra-se a continuidade de muitas das primeiras ideias da filosofia indiana.


FontesDhiraj Eadara
Frontline: Enoshima Shrine 
Wikipedia: Enoshima Shrine

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Barbarik, o mais poderoso guerreiro conhecido

Barbarik, o mais poderoso guerreiro conhecido

Histórias do Mahabharata
tradução e adaptação de 

Swami Krsnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Gita Ashrama – outono de 2017

Barbarika doa sua cabeça para Krishna
fonte: Wikipedia



Exórdio
“Está escrito”.
Nenhuma sentença é tão verdadeira como essa: “Está escrito!”. Na Filosofia da Linguagem, há uma ocupação com o sentido de uma expressão, mas na visão étimo-filológica, há uma ocupação com o sentido e origem de uma palavra, a qual nos revela o quanto uma palavra é importante. Algo diferente do que conhecemos como “etimologia”. Alguém pode achar que essa colocação é poética, mas o leitor saberá perfeitamente compreender que uma palavra pode causar mais danos que um soco. Por que será? Ora, se há uma perfeita definição de ser humano essa é, sem dúvida, a sua capacidade de fala, e a capacidade de expor a consciência através dela. Fala é “exteligência”, ou seja, ao contrário da “inteligência”, que significa “colocar para dentro”; a fala é o ato “exteligente” de manifestar o pensamento e a consciência de alguém. A escrita por fim, o seu corolário humano.

Seguindo com os textos épicos indianos, o texto a seguir nos apresenta a verdadeira origem étimo-filológica da palavra “bárbaro”, e suas palavras derivadas. Não causa espanto naquele filólogo e linguista que estuda as raízes das línguas “hindu-europeias”, mas nos deslumbra a importância da limitação ideológica, que no mais das vezes, tenta levar as palavras para os conceitos limitados de uma visão comprometida com juízos de valor egoicista. Felizmente, o estudo e despojamento ideológico de uma investigação limpa, e despojada de segunda intenções, nos mostra que temos muito, mas muito mesmo, para aprendermos com as antigas culturas que deram início à nossa. Mitos, crenças, palavras, hábitos e costumes que possuímos e temos, provavelmente, têm uma origem num passado distante que sequer sabemos de onde vêm. Mas as palavras nos dão as pistas.

Ahilawati abençoa as armas
recebidas de Shiva
Barbarik
Barbarik era neto de Bhima, e filho de Ghatotkacha. Tendo aprendido a arte da guerra com sua mãe, Ahilawati ou Maurvi (lê-se mauruí) uma poderosa rakshasa. Desta forma, Barbarik tornou-se um dos guerreiros mais corajosos de seu tempo. Contente com seus talentos e austeridades, o Senhor Shiva concedeu-lhe três flechas especiais, e um arco especial de Agni, o deus do fogo.

Diz-se que Barbarik era tão poderoso que a guerra do Mahabharata poderia terminar em 1 minuto, se só ele fosse lutar contra ela.

A história é assim:
No início da grande guerra (Mahabharata), o Senhor Krishna perguntou a todos quanto tempo levaria para terminar a batalha, se eles lutassem sozinhos contra o inimigo.
Bhisma disse que levaria 20 dias; Dronacharya disse 25 dias; Karna pediu 24 dias e Arjuna afirmou que levaria 28 dias para terminar a batalha.

Ansioso por assistir à guerra, Barbarik perguntou a sua mãe se ele poderia ir ao campo de batalha. Sua mãe concordou, mas perguntou a ele de que lado ele escolheria, se ele lutasse na batalha. Barbarik prometeu a sua mãe que ele iria se juntar ao lado que era mais fraco. Dizendo isto, ele viajou para visitar o campo de batalha.

Ouvindo o interesse de Barbarik pela guerra, Krishna decidiu testar sua força, e apareceu diante dele disfarçado de brâmane. Krishna lhe fez a mesma pergunta: se Barbarik lutasse sozinho na batalha contra o inimigo, quantos dias levaria para terminar a guerra.

A resposta de Barbarik foi, de 1 minuto!

Shiva medita, enquanto Krsna o saúda.
Surpreendido com a resposta, especialmente quando Barbarik tinha apenas três flechas e um arco na mão, Krishna questionou sua resposta. Barbaric explicou o poder de suas armas:

· A primeira seta indicaria todos os objetos que Barbarik queria destruir.
· A segunda seta indicaria todos os objetos que Barbarik queria salvar.
· A terceira seta irá destruir todos os objetos marcados pela primeira seta OU destruir todos os objetos não marcados pela segunda seta.

E no final disto, todas as setas retornariam a aljava. Krishna, ansioso para testar isso, pediu a Barbarik que amarrasse todas as folhas da árvore em que estava. Quando Barbarik começou a meditar para realizar a tarefa, Krishna tirou uma folha da árvore e colocou-a debaixo do pé, sem o conhecimento de Barbarik. Quando Barbarik soltou a primeira flecha, a flecha marcou todas as folhas da árvore, e começou a girar em torno dos pés do Senhor Krishna.

Krishna perguntou a Barbarik por que a flecha estava fazendo isso? E Barbarik respondeu-lhe que deveria ter uma folha sob seus pés, e pediu que Krishna levantasse sua perna. Assim que Krishna ergueu a perna, a flecha também marcou a folha restante.

Este incidente preocupou o Senhor Krishna sobre o poder fenomenal de Barbarik com as flechas, sendo verdadeiramente infalíveis. Krishna também percebeu que no campo de batalha real, uma vez que queria isolar alguém (por exemplo, os 5 Pandavas) do ataque de Barbarik, então percebeu que não seria capaz de fazê-lo, já que mesmo sem o conhecimento de Barbarik, a seta iria adiante e destruiria o alvo, se Barbarik assim o pretendesse.

Krishna perguntou a Barbarik, de que lado ele estava planejando lutar na guerra? Barbarik respondeu que, uma vez que o Exército Kaurava era maior do que o Exército dos  Pandavas, e por causa desta condição, ele havia concordado com sua mãe que lutaria por estes. Mas o senhor Krishna explicou o paradoxo da condição, uma vez que tinha concordado com sua mãe, uma vez que ele era o maior guerreiro no campo de batalha, assim, o lado que se juntaria faria o outro lado mais fraco. Então, eventualmente, ele iria acabar oscilando entre os dois lados e destruir todos, exceto ele mesmo.
Assim, Krishna informou Barbarik a real consequência da palavra que ele tinha dado a sua mãe. Krishna (ainda disfarçado como um brâmane) pediu a cabeça de Barbarik em caridade, para evitar seu envolvimento na guerra. Depois disso, Krishna explicou que era necessário sacrificar a cabeça do maior Kshatriya, para adorar o campo de batalha, e que ele considerava Barbarik como o maior Kshatriya daquele tempo.

Antes de dar a cabeça, Barbarik expressou seu desejo de ver a batalha de perto, a que Krishna concordou, colocando a cabeça de Barbarik sobre a montanha que dominava o campo de batalha. No final da guerra, os Pandavas discutiam entre si qual era a maior contribuição para sua vitória. Krishna sugeriu que a cabeça de Barbarik deveria ser autorizada a julgar isso, uma vez que assistira à guerra inteira.

A cabeça de Barbarik disse-lhes de que somente Krishna era o responsável pela vitória na guerra; foram os conselhos de Krishna, sua estratégia e sua presença, elementos cruciais na vitória dos Pandavas.

Fontes: Quora
Wikipedia: Barbarika

https://en.wikipedia.org/wiki/Barbarika