Pesquisar este blog

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Giri-Govardhana: Por que Sri Krishna é chamado de “Govinda”?

Giri-Govardhana
Por que Sri Krishna é chamado de “Govinda”?

por
Swami Krishnapriyananda Saraswati
Olavo DeSimon

Sociedade Internacional Gita do Brasil
Gita Ashrama
primavera 2017



Narayna-Deva - Sri Krsna

Narayana Deva recebeu muitos títulos ou nomes ao longo de sua vida, devido as suas extraordinárias atividades e feitos. O nome “Govinda”, do Prakrita, quer dizer, “bem-querido das vacas”; “vaqueiro”; refere-se a atitude de Narayana Deva com relação a um importante passatempo ou Lila que ocorreu, e o qual iremos descrever a seguir.

Na Índia havia uma antiga tradição, principalmente em todas as áreas rurais, de se fazer a adoração a Indra-Deva, o semideus dos céus. A adoração aos semideuses sempre fez parte do culto na Índia. Isso porque a tradição religiosa da Índia é agrária, estando ligada ao campo. Quer dizer que as plantações, colheitas, armazenamentos, seguem um ciclo natural conforme as estações. Indra é o controlador celeste das chuvas. E, desde cedo, as pessoas que lidam no campo sabem que se não houver chuvas suficientes não haverá abundância na plantação. Para que houvesse o suficiente provimento de chuvas, então as pessoas faziam uma adoração anual para Indra. Veja-se a importância desta tradição rural na Índia. No Bhagavad-gita, verso. 3.14, o Senhor Krishna diz para Arjuna, “annad bhavanti bhutani parjanuyad anna-sambhavaj/ yajñad bhavati parjanyyo yajñah karma-samudbhavah”; “As entidades vivas se mantêm de alimentos, e estes provêm das chuvas. As chuvas são possíveis pela execução de yajñ€s, e estes (sacrifícios) nascem da atividade (karma)”. Veja-se neste verso a importância dos “sacrifícios” para ter a “recompensa” dos semideuses. Isso está tão impregnado na tradição cultural do indiano, que parar com um sacrifício daquele tipo poderia ser considerado uma grave desobediência a ordem celeste.

Indra-deva, o senhor das águas celestes.
Certa feita Sri Krishna percebeu que toda a cidade estava ocupada nos preparativos de adoração a Indra (geralmente festividade feita no outono, no hemisfério norte). Ele, então, perguntou por que estavam fazendo aquilo, uma vez que é tradição na Índia adorar-se os “deuses” locais em vez de semideuses. As pessoas disseram que deveriam fazer a adoração a Indra, senão iriam ter problemas com as chuvas. Sri Krishna disse que, quem dava para eles abrigo, grama, ervas e tudo o que precisavam, era a Giri Govardhana (g­iri= montanha; govardhana= montanha das vacas), e não Indra. Ele estava certo, porque Govardhana, na época, era uma colina verdejante, e que trazia as chamadas chuvas orográficas. Isso é natural de montanhas e morros. Então, dizia Krishna, eles deveriam adorar Giri Govardhana, e não Indra, até mesmo porque teria sido Govardhana colocada ali por Sri Hanuman, para os passatempos de Sri Ramachandra, quando retornasse ao planeta. Os argumentos de Khana-deva foram suficientes para mostrar que as pessoas estavam desobrigadas de adorar Indra, e então fizeram um grande sacrifício para Giri Govardhana, a tal ponto que a Deidade manifestou-se diante deles, e pessoalmente aceitou todas as oferendas. Todos ficaram muito assustados pelo fato de Giri Govardhana vir pessoalmente e honrar a cerimônia. Na ocasião, depois de terem escutados os argumentos de Khana, Nanda Maharaj (pai adotivo de Krishna) e os vaqueiros, convocaram os Brahmanas e iniciaram a adoração de Govardhana. Desta forma, eles cantaram os hinos védicos e ofereceram os alimentos para a montanha. Todos se vestiram com as suas melhores roupas, decoraram as vacas, e os carros de bois, e glorificaram Govardhana. Todos puderam ver na Deidade manifesta de Govardhana a imagem de Krishna em Si mesmo.

Quando Indra Deva ficou sabendo que os habitantes de Mathura haviam feito um sacrifício para Govardhana e não para ele, ficou furioso, e então chamou um demônio para fazer chover torrencialmente sobre os habitantes. Sri Krishna, com cerca de 7 anos de idade, com o seu dedo mínimo da mão esquerda, ergueu a montanha e abrigou a todos, durante sete dias e sete noites, salvando-os das chuvas.

Krishna ergue a montanha de Govardhana
Indra vendo que Khana-Deva era a corporificarão de Krishna, então ficou muito reverente. Tendo perdido todo o seu poder diante de Krishna, ele foi até Krishna pedir perdão pelo que havia feito. Mas Krishna não quis perdoá-lo, devido ao fato de que Indra havia feito mal para as vacas e os habitantes de Vrindavana. Krishna perdoa aqueles que fazem ofensa contra Ele, mas não contra as vacas e Seus devotos. Então, Surabhi Devi, a mãe Terra, veio pessoalmente pedir pela misericórdia de Krishna, para que perdoasse Indra. Diante do pedido de Devi, a Mãe Divina, a quem Sri Krishna sempre atende, concordou em perdoar o semideus, não sem antes dar uma lição de moral para o arrogante Indra. Em virtude da Sua atitude de proteger as vacas de Vrindava, e a todos, então Surabhi Devi deu o nome de Govinda (protetor das vacas) para Krishna, e Indra pode retornar ao seu local no céu e cuidar das chuvas. Além de ter recebido o nome Govinda, Krishna também concordou com Indra o fato deste gerar mais tarde junto com Kunti (tia de Krishna), o arqueiro Arjuna, que iria auxiliar os Pandavas na guerra do Mahabharata.

Antecedentes de Govardhana
Alguns podem pensar que Sri Krishna induziu as pessoas a adorarem uma pedra no lugar de uma pessoa, desrespeitando uma tradição. ¦a realidade, Salagram Sila é uma forma muito milenar de adorar a Deus na Índia, e recomendada nas Escrituras. Giri Govardhana hoje é uma colina de pedras já bem diminuída, mas no passado era grande e pesada. Quando a olhamos de cima, Ela tem o formato de um pavão, sendo que os seus olhos são o Radha Kunda e Syama Kunda. O Dan Ghati é o seu longo pescoço. Também se diz que o Mukharavinda é a sua boca, e o Pucha é suas costas e o rabo de penas. Eis porque se diz que  Govardhana tem um formato de pavão.

Duas histórias
A tradição védica diz que na Satya Yuga, a era que antecedeu a Kali Yuga, era em que hoje vivemos – e onde Krishna realizou seus passatempos – o sábio Pulastya Muni amaldiçoou Govardhana e o reduziu ao tamanho de um grão de mostarda. Certa feita, Pulastya Muni aproximou-se de Dronachala, o rei das montanhas, e pediu que lhe desse seu filho Govardhana para que ele se instruísse nos ensinamentos superiores. Mas Dronachala estava deprimido, e disse que não seria capaz de separar-se do seu filho. Contudo, não impediu que Govardhana fosse com o sábio, mas com a promessa de que onde quer que o sábio o colocasse, deveria ali permanecer.

Pulastya Muni foi em direção ao seu Ashrama com Govardhana. Durante o percurso, Muni teve que atender os “chamados da natureza”, e pediu que Govardhana aguardasse por ele. Quando retornou, não pode mais mover Govardhana (que atendera o que o seu pai pedira). Pulastya Muni ficou muito bravo, amaldiçoando Govardhana a ficar do tamanho de um grão de mostarda. Nos antigos tempos das Escrituras, se diz que Govardhana tinha 115 km de comprimento, 72 km de largura, e 29 km de altura. Hoje é um monte com apenas 24 metros de altura.

Hanuman carrega a montanha de Govardhana
Uma outra história de Govardhana remonta a Dwapara Yuga, os tempos do Ramayana, onde ocorreu a saga do Senhor Ramachandra. Neste Lila, se diz que Hanuman, o companheiro rei-macaco de Sri Rama, encarregou-se da tarefa de buscar distintas pedras, tendo em vista construir uma ponte para chegar a Lanka, onde Sita estava aprisionada no castelo do rei demônio Ravana. Hanuman estava trazendo Govardhana do Himalaia, tendo em vista atender a necessidade de salvar Lakshmana, o qual havia sido crivado por flechas envenenadas, e somente uma erva naquela montanha poderia curá-lo. Como Hahunam não conhecia a erva, trouxe logo toda a montanha. Diz-se que quando Hanuman passava por sobre Vraja (Vrindavana), Nala e Nila, pessoas encarregadas de construir uma ponte, disseram para Hanumam que a mesma já havia sido completada, e que não seria mais necessário levar Govardhana até lá, bem como trouxeram um conhecedor de ervas. Então Hanunam fora até Vraja Mandala e colocou Govardhana na região. Até hoje, Govardhana é adorada tanto pelos seguidores do Senhor Siva como do Senhor Rama (Vishnu). É dito que Rama, ao saber de Govardhana em Vraja, tendo sido deixada, lá por Hanuman, disse que no final de Dwapara Yuga Ele iria nascer como Sri Krishna, e então iria erguer Govardhana para proteger os habitantes e o gado, por sete dias e sete noites, como sabemos do Lila que comentamos acima.


Hari Om Tat Sat

video

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Hinduísmo é Dharma,

Hinduísmo é Dharma,
Diferentemente de uma fé ou religião estagnadas

Tradução, comentários e significados por
Swami Krishnapriyananda Saraswati
Prof. Olavo DeSimon
Sociedade Internacional Gita do Brasil
Gita Ashrama

Primavera 2017

Sábio instruindo sobre as Escrituras Védicas

Prólogo
Ao contrário de outras religiões, o Dharma hindu (equivocadamente chamado de “hinduísmo”), tem muitas especialidades, as quais não são conhecidas como “religião”. O correto é denominar o conjunto destas “especialidades” de Sanathana-Dharma (ordem eterna). Conforme as escrituras (como o que vemos no Bhagavad-gita), o dharma eterno não pode ser destruído pelo fogo, água, ar, ou armas, e está presente em todo o ser, seja vivo ou não-vivo. Entre outros tantos sentidos e significados, “dharma” remete-nos a “caminho de vida”, o qual está exemplificado em todos os Acharas, ou seja, costumes e rituais védicos conforme o dharma.

Se podemos falar numa “espiritualidade científica”, eis aí o Sanathana-dharma. Através de toda a literatura clássica da Índia Hindu, podemos ver que a ciência e a espiritualidade estão integradas, sendo mesmo inseparáveis uma da outra. Por exemplo, no Yajurveda, no Upanishad conhecido como “Ishavasya”, são dados exemplos de conhecimento científico (empírico formal), para resolver os problemas em nossa vida, e é feito uso do conhecimento espiritual, tendo em vista liberar do ciclo material, assim, alcançando a imortalidade, por meio das perspectivas filosóficas.
  
Do conceito “sanathana-dharma”
Jagannatha (no centro), Baaladeva (em cima), e Subhadra - trimurti védica.
Sanathana-dharma não é algo que possa ser definido facilmente, não pertencendo ou tampouco estando numa determinada doutrina dogmática estagnada, e sequer num livro ou escritura única em particular. Compreenda que, diversidade e diferença de opiniões ou expressões, são os exatos ornamentos refulgentes do Sanathana-dharma. Por conseguinte, podemos encontrar diferentes tipos de doutrinas no seu cerne, conforme alguns aspectos que comentamos abaixo:

a)       Advaita Vedanta: neste conceito, há total unidade entre tudo e todos. Qualquer entidade que é finita, temporal ou, então, que possa ser definida usando atributos (saguna), é tratada como irreal (maya), e o espírito (atma), é o pressuposto da única entidade real. O atma é o menos atributo, sendo infinito, por definição. De outra forma, tudo que é irreal, finito, temporário e ilusório, é maya;
b)      Dvaita Vedanta: nesta visão, a realidade é classificada sob três aspectos ou partes, cada uma sendo diferente da outra: entidades sensíveis; entidades insensíveis e deus, ou entidade suprema. Cada um destes aspectos é considerado real, enquanto que alguns podem ser temporários e outros eternos, mas mesmo assim, são reais, na visão dvaita;
c)       Vishishtadvaita Vedanta: a expressão que melhor caracteriza esta visão filosófica é dita: “Deus é o habitante do meu coração; eu adoro Saguna-Brahman (deus com atributos), que permeia a tudo como espirito. Brahman, embora independente e absoluto, é o todo (criação inclusive). Eu sou espirito/alma, cuja existência é dependente do espírito universal”.

Escolas conforme o humor da triguna da prakriti e antagonismos com a visão ocidental
Podemos enumerar três escolas fundamentais que seguem um ou outro modo filosófico apontado acima. Conforme as três divisões da natureza temos, Shivaismo, Shaktismo e Vaishnavismo. Há outros, mas aqui reduzimos para facilitar o estudo. Salientamos, contudo, que todos estes estão ligados uns aos outros, mas cada um tem uma filosofia independente e distinta.

Na ciência da atualidade, vemos uma estrutura semelhante. Qualquer um que tenha estudado ciências na escola compreende a comparação entre mecânica newtoniana, lagrangiana, hamiltoniana e quântica.
De modo semelhante, podemos ver as “camadas estruturais” semelhantes da percepção na cosmologia do Universo Brahmananda (universo de óvulos cósmicos); Universo Aristotélico, Universo Heliocêntrico de Copérnico, Universo Abramático, Universo Newtoniano, Universo Einsteiniano, Modelo Big Bang do Universo, Universo Oscilante, Universo Estadual Permanente, Universo Inflacionário (ou inflando, em expansão) Multiuniverso, e assim por diante.

Por isso, é possível afirmar que o que chamamos de “hinduísmo” não se trata de uma única fé. Trata-se de um conjunto universal de conhecimentos racionais e intuitivos, os quais não podem ser definidos singularmente, devendo ser vividos e experimentados. Eis que fica compreensível que os chamados, “mal” e o “erro”, não são definidos em termos maniqueístas, portanto, não há inferno, pois, afirmar este, significaria afirmar um local onde o Absoluto ou deus não é (portanto, O nega), bem como que há pecados superiores ao amor.

Escrituras sagradas
Veda-Vyasa, compilando os textos Acharas
Entre os nomes das principais escrituras do Sanathana-Dharma, destacam-se, os Vedas, Upanishads (textos comentados daqueles), Brahmanas, Puranas, Gitas, Bhagwats, Sutras, Shastras, os quais, em conjunto, elevam o vasto conceito, assim como pilares do conhecimento, onde cada um têm sua própria importância em seus setores. Alguns textos, falam sobre a ciência da criação, a biodiversidade; alguns dizem sobre filosofia de vida, outros, sobre arquitetura, engenharia, medicina, incluindo artes como cirurgia, yoga, meditação, ética, astronomia, astrologia, percepções futuras, psicologia, dança, música, artes, economia, história, e muitos outros assuntos. Esse conjunto de textos, escrituras, e assuntos, é chamado Sanathana-dharma, sendo que “dharma” tem um sentido direto de “virtude”, Ética e Moralidade, as quais apontam para Propriedades, Regulação, Devoção, Sigilo, Princípios Gerais de Justiça, Honestidade, Dever, Atribuições, Piedade, Sacralidade, mas mesmo assim, não se trata de religião.

Aspectos conclusivos
Devemos lembrar que em cada Achara (costume e ritual considerado védico), haverá um componente de espiritualidade nele. Sem espiritualidade, nada existe no Sanathana-dharma. Via de regra, é costume dar uma interpretação equivocada que este espiritualidade é religião. Salienta-se que a espiritualidade é diferente no Dharma védico, chamado “hindu”. Neste, a questão da religião não existe, uma vez que o Dharma não foi criado por um indivíduo, um profeta ou qualquer que seja encarnação. Eis que, a espiritualidade é uma parte de todo o costume hindu na vida normal de um hindu.
Acharas (os costumes védicos e rituais), dever ser seguidos com base nos méritos disponíveis, a partir da auto-experiência. Portanto, ao contrário das chamadas religiões organizadas, tendo estes um fundador, não é necessário seguir cegamente a um instrutor ou alguém que lhe imponha conselhos ou ideias sem reflexão e raciocínio. Aliás, este aspecto de alienação do indivíduo é típico de religiões, não cabendo no Sanathana-dharma. Todos os Acharas são indicados para a prosperidade dos seres humanos, devendo ser este o principal foro na sua prática, afastando-se rituais que buscam apenas alcançar felicidade puramente material, porque o conceito de liberação ou mukti está acima de qualquer coisa.


“Acharyah padam adatthe padam
Sishya swamedhaya padam a
Bramacharibhya sesham kala kramena ca”

Este verso contém o conselho dos smritis (textos comentados por um mestre), no qual está dito que uma pessoa só pode obter ¼ do conhecimento de um Acharya (mestre), outro ¼ analisando a si mesmo; outro ¼ discutindo um conceito com outros, e, por fim, o ¼ restante, deverá ser alcançado durante o processo da vida, por adição, eliminação, correção e modificação de um achara conhecido, e por novos acharas que são experimentados.

“Acharath labhathe ovayu
acharatah dhanamakshayam acharatah labhathe supraja
Acharo ahanthya lakshanam”

“Acharas são seguidos para a saúde fisiológica, psicológica e longa vida; Acharas são seguidas para a prosperidade e riqueza; Acharas são seguidas para uma família e sociedade fortes; seguir os Acharas alcança-se uma fina personalidade, visão dharmica (reta visão)”, assim diz o Dharmashastra.

Na Índia dos hindus, os Acharas (costumes védicos) são seguidos tendo em vista benefícios psicológicos, físicos, familiares, sociais, bem como benefícios baseados na integração Nacional, conforme mencionados acima.

Portanto, é dever de um Vaidhika-Dharmi (seguidores do Sanathana-dharma), compreender cientificamente, racionalmente e logicamente o significado de cada Achara, seguindo-o de forma sistemática, aprimorando a cada tempo, evoluindo para a liberação do ciclo do Samsara.

Hari om tat sat


Achara comunitário na Índia: Ganga-puja


video


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Kamakhya, uma forma feminina do divino

Kamakhya, uma forma feminina do divino
Mitologia indiana clássica

Swami Krishnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Gita Ashrama – outono 2017

Kamakhya yoni, deidade no interior do templo


O mítico feminino
Diferente das religiões abraâmicas, a filosofia do Tantra (teia; rede) tem no culto à divindade ou devoção à forma feminina de adoração ao divino, algo muito vivo, ativo, atuante e pungente. Sendo uma das mais antigas tradições religiosas existentes, o culto a Devi permanece tão ativo hoje quando no passado. Não sabemos quando foi que deus virou macho pela primeira vez, mas a história religiosa da humanidade nos mostra que todas as religiões do passado iniciarem como um culto ao feminino, principalmente pelo fato de que é a mulher quem gera, portanto, origina a vida, e o macho apenas controla. Assim, sabe-se porque Vishnu, por exemplo, é tido como o supremo macho; o controlador supremo. A visão e cósmico divina dos povos do passado era bem mais objetiva do que a mítico e poética que hoje temos da divindade. Achados arqueológicos no Indus Valley, mostram-nos claramente que o culto à divindade feminina era predominante, sendo o Shaktismo anterior aos faraós no Egito. Kamakhya é uma das tantas e inúmeras divindades femininas da Índia, onde Aditi, Durga, Uma, Saraswati, Kali, Lajja Gauri, entre milhares de outras formas da Shakti, são adoradas com a mesma fé e devoção às formas masculinas do Absoluto. É provável que o Shaktismo seja a manifestação religiosa mais antiga do mundo. Percebemos isso em pinturas rupestres no Vale do Indo, pertencente a época dos homens da cavernas.

Pintura rupestre no Vale do Indu,
retratando o culto a Devi
A adoração à Kamakhya na Índia é tão fervorosa ou mais quanto o culto à Virgem Maria no Ocidente, essa, por sua vez, também tendo vários nomes e vestes diferentes, dependendo da região que é adorada. Na Índia, o fervilhar da fé no aspecto feminino da divindade, é algo que pode facilmente chocar uma mente acostumada a pensar em deuses masculinos poderosos, mas um devoto de Devi não diferencia o divino, seja na forma masculina ou feminina. Talvez seja essa a razão porque os ocidentais têm a tola ideia de que na Índia há “milhões de deuses”, não sabendo ver na sua própria fé as inúmeras formas femininas da divindade, seja ela representada como mãe de deus, entre os católicos, ou como um Linga, entre os muçulmanos em Meca, ou então as mulheres que libertaram os judeus em vários momentos históricos.

Devi é uma das maiores manifestações da adoração da divindade no seu aspecto feminino, e o número de adoradores é gigantesco. É provável que tenha igual número de adoradores de Shiva, seguido de Ganesha, seguido de outras formas de adoração da divindade, porém em menor número, como Karthikeya, Vishnu e seus representantes como  Rama e Krishna,


Kamakhya a deusa que menstrua
Anualmente em Assam, estado localizado no nordeste da Índia, milhares de jovens mulheres realizam uma peregrinação ao templo dedicado a deusa Kamakhya. O objetivo principal, é quererem se tornar mães. No interior do templo, o objeto de adoração é uma yogi (vagina simbólica), a qual se refere à deusa em si mesma. Kamakhya é tida como um avatara da Shakti todo-poderosa, a qual menstrua.

O mito
A história de Kamakhya aparece principalmente nos Puranas, Shiva e Vishnu. É dito que Daksha, o patriarca filho de Brahma, realizou um sacrifício (yajña) para ter a força primordial ou Shakti como sua filha, tendo essa o nome original de Sati. Quando Sati alcançou a maioridade (pela tradição é quando ocorre a menarca), ela escolheu o Senhor Shiva como seu esposo. Mas seu pai, Daksha, detestava o estilo de vida, nada ortodoxo, de Shiva, o qual se caracterizava pelo pouco caso às convenções sociais, e respeito aos valores tradicionais. Também é dito que Daksha ficou furioso pelo fato de Shiva não ter feito reverências (curvando-se) diante dele, não dando atenção ao futuro sogro. Apesar da relutância de Daksha permitir que sua filha casasse com Shiva, ela insista em casar-se com ele, indo morar com Shiva mesmo contra a vontade de seu pai. Considerando essa rebeldia de Sati como uma grande ofensa, ele decidiu puni-la, bem como a Shiva.

Shiva carrega o corpo de Sati
Daksha organizou um enorme sacrifício (yajña), convidando todos os semideuses, bem como Brahma e Vishnu, mas não convidou Shiva e tampouco Sati. Mas Sati considerou que seu pai estava sendo negligente, porque exigia que Shiva respeitasse as tradições, mas agora, pelo fato de não convidar Shiva e nem ela, sua filha, ele estava sendo incoerente e negligente. Sati, então, insistiu que Shiva fosse até o altar do sacrifício, mas Shiva negou-se dizendo, “Não irei de modo algum; seu pai me insultou de propósito. Uma vez que você tem um dever para com o seu pai, eu não lhe pedirei que não vá, mas terá de ir sem mim”. Ficando muito sentida, Sati foi até o local do sacrifício.

Chegando no local onde acontecia o sacrifício, Sati não foi recebida, ficando ignorada no evento. Sendo a mulher que era (shakti significa poder feminino absoluto), ela decidiu admoestar o seu pai dizendo: “Eu prefiro morrer do que ter esse desonroso tratamento injusto e horrível, que está sendo dado ao meu marido”! Assim, estando resoluta em suas palavras, ela resolveu saltar dentro do fogo do sacrifício. Contudo, mesmo Agni, o semideus do fogo, não podia queimá-la. Então, ela evocou seu poder imensurável e entrou em autocombustão, mantendo-se na posição de lótus, incinerando-se a si mesma.

Shiva ficou muito triste e perturbado com isso. Dirigindo-se ao local do sacrifício, recolheu o corpo incinerado de Sati, e decidiu realizar a dança da destruição, Tandava. Temendo pelo fim do mundo, Vishu enviou a Sudarshana Chakra (um disco de destruição) que rasgou o corpo de Sati em 108 pedaços, os quais se esparramaram por sobre todo o continente indiano. Segundo a tradição, esses lugares são conhecidos como Shakti-pithas (locais de peregrinação).

O templo de Kamakhya
Templo de Kamakhya
Um daqueles locais, considerados Shakti-pithas, é o templo de Kamakhya,  o qual fica localizado no estão de Assam. É dito que a parte que caiu naquele local fora o ventre de Sati. Portanto, a mítica yoni está instalada no chamado Garbhagriha (casa do ventre), o local do templo. A divindade do tempo leva o nome de Kamakhya devido ao fato de que Kama, o deus do amor e da procriação, certa feita perdera a virilidade devido a uma maldição, e procurou o ventre de Sati para libertar-se. Desta forma, o nome do templo, “kamakhya” advém do deus Karma. Também é dito que o local era costume ser usado para Shiva e Sati para encontros amorosos.

Ambubachi Mela
Arredores do templo
Um festival em homenagem a Kamakhya, conhecido como Ameti ou festival tântrico da fertilidade, é realizado no mês de Ashaad (junho), em Assam, onde é dito que a deusa sangra, dando uma coloração avermelhada às águas do rio Brahmaputra. Nesta ocasião, o altar do templo permanece fechado, e toda a comunidade comemora a Shakti, a festividade de procriação feminina.

Na ocasião, há centenas de anos, um festival de cores, músicas, reunindo pessoas de todos os lugares da Índia e do mundo, torna-se um desfile de fé e renovação no poder feminino da Shakti.

Video de cenas pitorescas do festival Ameti

video


Para saber mais
- O Tempo de Kamakhya; site oficial do templo
- Ambubachi Mela: Wikipedia (inglês)




quarta-feira, 3 de maio de 2017

Um Momento de Gratidão - O Nascimento de Shanmukha

Um Momento de Gratidão - O Nascimento de Shanmukha

Swami Krsnapriyananda Saraswati - Olavo DeSimon

Mitologia indiana védica
Gita Ashrama - Outono, 2017


Murugan, com sua lança e transporte celeste (pavão real)

Preâmbulo
A mitologia indiana védica é riquíssima, e, provavelmente, suas narrativas influenciaram toda a Ásia, bem como o Ocidente, com a sua visão cosmogônica e teogônica. Contudo, os aspectos peculiares de cada lila (passatempo) que aparece nas narrativas da chamada “mitologia hindu” estão repletos de conteúdos morais, e como sabemos, são assuntos pertencentes aos mitos de todos os povos, além disso, os mitos indianos nos mostram a natureza divina e um princípio cósmico e universal permanente incoativo em tudo e em todos. Na mitologia indiana, é Impossível separarmos o cosmos, as estrelas, os planetas, os cometas, os meteoros, os nomes dos personagens e suas personalidades com eventos cósmicos e antropogênicos, e assim por diante. Notável é, também, a relação íntima entre o universo-macrocosmos com o universo-microcosmos, no que somos todos nós. A ideia de “teia” (Tantra), hoje difundida como “rede”, constitui-se a base fundamental do mito e do pensamento hindu. É por isso que a chamada “lei do karma” é tão surpreendentemente fecunda no campo tanto das coisas físicas como psíquicas. Mal interpretado no Ocidente, o princípio do karma defende que apenas objetivamente (na aparência temporária das coisas), é que temos nomes, formas, atribuições, e tudo aquilo que o mundo fenomênico nos mostra, mas, de fato, são modificações de uma mesma e singular substância primordial: o Absoluto.

Além dos aspectos mitológicos em si mesmos, presentes nas narrativas hindus, o leitor irá encontrar uma série de termos-palavras dos quais derivam muitos vocábulos usados no Português, e que também estão em outras línguas, as quais possuem “origem  hindu-europeia”, dando um nuance muito especial para o aspecto étimo-filológico - o sentido original de uma palavra - adicionando, assim, uma pitada da rica história da gênese e do sentido dos significados dos nomes contidos nas palavras. O primeiro exemplo é a própria palavra mito, a qual advém do Sânscrito, “medh” ou “midh”, tendo, entre outros, o significado de “entendimento”; “sabedoria”; “compreensão”, e, nos remete para narrativas de “formas e força extraordinárias”, as quais aparecem nas histórias através dos tempos. Gregos, Romanos, e outros povos do passado, herdaram, assim, a palavra, o termo e o significado original de mito. Conforme CIVITA (1973, p. 3), “Dentro da narrativa mítica esconde-se um aspecto, um núcleo, que encerra uma verdade... o mito relata uma ‘história verdadeira’, na medida em que toca profundamente o homem...”

Por outro lado, o leitor atento perceberá que há um conteúdo “esotérico” (interno; velado) e outro “exotérico” (externo, comum) nos mitos da Índia, e, quiçá, em toda a mitologia conhecida. É por isso que é sempre recomendado ler e reler as narrativas e estabelecer um elo entre a cosmogonia e a teogonia hindu. E a palavra-chave, aqui, é “despojamento”, desde que pelo viés particular o social que alguém está engajado, certamente, não será possível avançar-se na compreensão mitológica indiana. De algum modo muito peculiar, todos somos fruto das estrelas.

O que é notável nesta presente narrativa do aparecimento do chefe de todos os guerreiros celestes, Karthikeya, além de ser altamente imaginativa, é o modo como ele foi nutrido pelas estrelas, Krittikas, bem como esteve acolhido por Agni-deva, e, por fim, onde Śiva reconhece e agradece a cada um, dando epítomes como Shanmukha, Murugan, Skanda, Kumara, Vishakha, Subramaniyam, entre outros tantos, para o menino cuidado pelas estrelas. Pode ser que possamos implementar isso também em nossas vidas. Muitas vezes somos rápidos em esquecer daqueles que nos ajudaram ao longo da nossa existência terrena, mas olhando bem de perto, todos temos um pouco de um e arremedo de outro, tendo muitas faces, bocas e olhos, e pode ser que nem sequer nos demos conta disso.

O Nascimento de Shanmukha
O Senhor Shiva ficou imerso em profunda meditação, depois de perder sua esposa Sati[i]. Tirando proveito deste estado de Shiva, o demônio Tārakāsura ofereceu uma longa e dura penitência, de mil anos, ao Senhor Brahma, e, assim, obteve uma bênção: "Que minha morte venha apenas nas mãos de um menino que seja filho do Senhor Shiva".

As atrocidades de Tarakasura entre os deuses, sábios e devotos, se tornaram insuportáveis ​​depois disso. Os deuses perseguidos, se uniram e lançaram um grande plano. Eles incentivaram o casamento de  Shiva e Parvathi, ​​com a ajuda de Kama, o deus do amor.

No entanto, após o casamento, mesmo depois de várias centenas de anos, não havia nenhum sinal do casal sair de seu palácio em Kailasa. Os Deuses, agora desesperados, debateram seu próximo plano: "Se o Senhor Shiva e a Deusa Parvathi não tiverem um Filho em breve, então vamos perder o paraíso para este demônio Taraka. Vamos conversar com eles”.

Nandi, o assistente de Shiva, guardava a porta do palácio em Kailasa. Ele recusou a entrada para os visitantes. Então, eles planejaram, mais uva vez: "Vamos cantar alto, louvores a Shiva,  daqui. Ele, certamente, vai sair para nos receber. Ele é um Deus bondoso”. Como esperavam, Shiva, depois de ouvir as preces dos deuses e sábios, saiu e foi tomado de surpresa: "O que traz todos vocês para minha morada?", Perguntou Shiva.

Na reunião, agora animada momentaneamente, explicou-se a Shiva como estavam ansiosamente, esperando seu filho nascer. Shiva pensou por um momento e então disse: "Vou liberar essa energia do meu corpo agora. Vocês cuidam disso, e um menino nascerá dela."

A felicidade dos Deuses não conhecia limites. Mas quando eles perceberam que a energia emitida por Shiva era insuportavelmente quente, eles empurraram o deus do fogo, Agni, para a frente, dizendo: "Pegue a energia, Agni!" E ele o fez. Depois de um tempo, o próprio deus do fogo estava em chamas! "Eu tenho que tirar isso de mim. Este calor é mais quente do que qualquer coisa que eu senti até agora.” Assim, Agni transferiu a energia para os corpos de seis Krittikas (exceto Arundhati), as esposas de Saptarshis (sete sábios).

Krittikas (Plêiades ou M45)
As delicadas Krittikas começaram a queimar com o calor da luz branca que tinham recebido com entusiasmo de Agni. Elas rapidamente lançaram-na no Himalaya. Quando a neve começou a derreter, Himavantha fez flutuar a energia até o rio Ganga (Ganges). A deusa do rio, secando-se do calor, depositou suavemente a energia na grama exuberante de Shara, em sua margem de rio.

E, no minuto em que a energia tocou a grama, uma criança, que emanava uma luz brilhante ao redor dela, se formou. Quando os gritos do bebê chegaram às Krittikas, elas vieram correndo para alimentá-lo. Então elas iniciaram uma disputa: "Ele é meu bebê", disse uma. "Como assim? Eu o dei de mim também ", disse a seguinte. O bebê, então, magicamente, fez crescer seis cabeças para apaziguar cada uma de suas seis mães adotivas! O pequeno adorável cresceu logo, para ser um menino valente sob o amoroso cuidado das Krittikas.

Shiva e Parvati, com Karthikeya e Ganesha
Enquanto isso, o Senhor Shiva e Parvathi estavam em busca frenética de seu filho. Os homens de Shiva, Ganas, finalmente localizaram o garoto que brilhava com uma refulgência igual ao do Sol.
"Nós estaremos eternamente gratos a você por ter criado nosso precioso filho", Shiva e Parvathi agradeceram a Krittikas, que, embora muito tristes, enviaram seu filho para seus legítimos pais.

Shiva e Parvathi então declararam: "Este nosso filho foi criado por muitas pessoas de bom coração. Queremos agradecer a todos eles. Ele será chamado Kartikeya por ser nutrido por Krittikas. Ele também será chamado Agney por ter sido levado por Agni; Gangeya por estar no ventre de Ganga, e Saravana, por ser protegido pela grama Sara.

O jovem Kartikeya, foi, então, nomeado por Śiva como comandante-em-chefe do exército dos deuses, e assim lutou e matou o poderoso demônio Tarakasura, restaurando a paz em todo o universo.


Glossário Sânscrito
Himalaya: lit. sânsc.: “morada da neve eterna”; cadeia de montanhas do norte da Índia.
Himavantha: lendária floresta que rodeia a base do Monte Meru (monte místico, considerado centro do mundo), onde a cadeia do Himalaya é considerada a localização física atual. O seu nome está, também, associado a criaturas míticas como Naga (povo serpente), Kinnara (criaturas metade homem/cavalo/pássaro, sendo a provável origem da palavra “quimera”) e Garuda (o condutor de Vishnu). Na mitologia budista, a árvore Nariphon, florescia naquela região.
Nariphon: “pronuncia-se: “naripon” sânsc: nari=“nascida”; “phalak”= fruto;  também conhecida como “makkaliphona”; árvore na qual crescem frutos com formatos femininos, estando atados por suas cabeças (como maçãs). Na mitologia indiana, os Gandharvas (músicos guerreiros celestes), desfrutavam destas frutas com esse formato peculiar. Essa mitologia se espalhou para a Tailândia e entre os budistas.
Kṛttikās: também conhecidas como “kārtikās”, correspondendo as estrelas Plêiades, são chamadas de “esposas” dos sete sábios.
Saptarishis: lit. sânsc. “sete sábios”; estes sábios tem diferentes nomes em cada Manvantara ou era cósmica, segundo a mitologia do ciclo de criação  e destruição do universo ou ciclo de Brahma ou Manuvantara. Na atual era, os sete sábios são: Kashyapa, Atri, Vashista, Vishvamitra, Gautama Maharishi, Jamadagni e Bharadvaja. Também possuem correspondência com sete estrelas, as quais estão na constelação da Ursa Maior, então seus nomes são: Kratu, Pulaha, Pulastya, Atri, Angiras, Vashista, e Bhrigu. É dito que Vashista está acompanhado de sua esposa Arundhati (Alcor/80 da Ursa Majoris).
Shara: ou sânsc. śara, um tipo de gramínea medicinal, conforme a tradição do Ayurveda. É também referenciada como Inana ou Iśtar (da mitologia sumeriana). A expressão “savana”, bem como “caravana”, deriva-se deste tipo de grama.
Kailasa: conforme a mitologia hindu, trata-se da residência de Śiva, localizada no monte Kailāsaḥ ou Kailash (do sânsc. kelāsa= cristal), o pico da cadeia Kailash no Himalaya.
Shanmukha: do sânsc. “ṣaṇmukha”, tendo seis bocas ou faces.
Tārakāsura; do sânsc. “Meteoro”.

Referências bibliográficas
ZIMMER, Heirinch. Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia. 2ª impressão. São Paulo, Palas Athena, 1998.
___. Filosofias da Índia. 5ª reimpressão. São Paulo, Palas Athena, 2000.
CIVITA, Victor. Vol. 1, 1ª. Ed. Mitologia. São Paulo, Abril S.A, 1973.

Para saber mais
Wikipedia: Karthikeya 
The Hindu Universe: Karthikeya-Subramaniya






[i] Satī é também conhecida como Dākṣāyaṇī (filha do rei Dākṣā), sendo considerada a deusa da felicidade matrimonial e da longevidade na mitologia hindu. Ela foi a primeira esposa de Śiva, o qual sempre vivia em isolamento asceta, na participação criativa do mundo. O ato conhecido como “satī”, na qual a viúva se autoimolava na pira de cremação do marido, como prova final de lealdade e devoção a ele, deve-se ao fato de que Dākṣāyaṇī ter feito isso em honra ao seu marido, quando seu pai desprezou Śiva deixando-O fora de um grande sacrifício e mantando matá-lO, o que é uma tarefa impossível. Após isso, Parvathi casou-se com Śiva, sendo, na verdade, uma reencarnação de Satī.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Eu sou Hindu, e eu não sou um pecador

Eu sou Hindu, e eu não sou um pecador


Udaylal Pai  
Jornalista freelance , escritor e pesquisador

:-:
Tradução e adaptação por

Krsnapriyananda Swami - Olavo DeSimon


Prólogo
Este belo texto, resume a pragmática e a vivência filosófica do Sanatana Dharma, conhecido como "hinduísmo" no Ocidente. A vivência da cultura védica, bem como seus princípios norteadores espirituais remetem-nos a trilhar o caminho da liberação por livre iniciativa, e não por meio de uma imposição restritiva e a consequente punição por não seguir o que é ordenado. Diferente da forma puramente regulativa e restritiva da espiritualidade, a filosofia dos Vedas dá o total apoio a independência da pessoa, instruindo-a antes, sobre as inevitáveis reações das ações que alguém empreenda. Não se trata de uma ameaça punitiva, mas um abrir os olhos para que saibamos que ninguém é uma ilha no mundo, bem como no universo, de modo que não há como alguém atuar sem que haja reação em si mesmo e nos outros. Tendo a noção que só há um único e mesmo princípio em tudo e em todos, certamente a consciência universal é o norte para um hindu. Muito mais do que seguir algo por simples medo de punição ou por recompensa, um hindu busca liberar-se das amarras do "eu" e "meu", princípios egoístas que movem até mesmo religiões calcadas em busca de ganho material.
Udaylal Pai é um hindu prático, portanto, vive-o na intensidade da sua vida diária, não distinguindo ações divinas ou sacras nas atividades de todos. Por que isso? Simplesmente porque deus e a divindade está em tudo e em todos. A ignorância do divino é a causa do sofrimento. Assim, a consciência panenteísta é a principal diferença entre as religiões punitivas ocidentais e a consciência cósmica universal do Sanatana Dharma.

Krsnapriyananda Swami




Eu sou um hindu
O Sanatana Dharma ou “hinduísmo”, como é popularmente conhecido no Ocidente, não é uma religião prescritiva. Não lhe dá uma lista de “faça isso” não “faça isso”. De fato, o Sanatana Dharma permite muita liberdade de pensamento, na medida em que aceita, por exemplo, que se uma pessoa diz que não existe Deus, ela é também referida como Santa. De acordo com os princípios básicos do hinduísmo, o maior pecado é chamar uma pessoa de pecadora. Acreditamos que a força divina existe em todos os seres vivos e não-vivos ... assim, chamar uma pessoa de “pecador” é negar sua divindade.

Em 2006 abril, eu estava em San Jose, Califórnia, para participar de uma conferência. À margem de uma reunião, um colega jornalista, um afro-americano, me disse que somos todos pecadores.

Como pode ser?

"Eu não acho que sou um pecador ..." eu disse.
"Você está dizendo que é perfeito?", Ele ergueu os olhos.
"Sim, é claro, eu sou perfeito com todas as minhas imperfeições ..."
"Isso é ridículo. Ninguém é perfeito ... Para não ser um pecador significa que você nunca quebrou qualquer Lei de Deus? "
"Lei de Deus? O que é isso? Eu não sabia que Deus era um criador de leis "
"Sim - Deus faz leis. Você já mentiu, enganou ou roubou? "
"Eu não me lembro de trapacear ou roubar. Mas eu posso ter mentido. Não dizer a verdade é quase igual a mentir. Hmm ... pode ser ... Eu sou um ser humano comum - na minha infância eu poderia ter roubado doces também "
"Então, você é um pecador"
"Sério? Como pode ter tanta certeza de que eu sou um pecador? "
"As escrituras de Deus dizem assim"
Então - essa é a razão - Ele segue algumas crenças. - O que diz?
"Como um pecador, você está separado de Deus. Mas o Deus te ama o suficiente para querer que você esteja com ele. Portanto, a única maneira de ter seus pecados perdoados é colocar sua confiança em Deus e seguir o que Deus disse ... Caso contrário, você terá que enfrentá-lo por conta própria no Dia do Juízo ... Então, por que você não aceita a si mesmo como um pecador?
"Eu não vou por tais crenças. Eu sigo Sanatana Dharma, em que você não tem que acreditar em nenhuma crença".
"Você está criticando a nossa confiança em Deus como apenas um conjunto de crenças?"
- De jeito nenhum ... Quem sou eu para fazer isso? Eu não estou. Estou apenas dizendo que meus pontos de vista são diferentes ... este é um país democrático, certo? Você tem o direito de expressar sua opinião"
"Então sua religião não diz que você é um pecador?" Ele perguntou.
"Sanatana Dharma ou Hinduísmo não é uma religião prescritiva. Não lhe dá uma lista de faça isso ou não faça isso. Dá muita liberdade de pensamento, tanto que uma pessoa que disse que não há Deus é também referida como Santa ".
"Isso é bull 8 @ # &"
- Essa é a sua opinião. Porque, você é condicionado por suas crenças. Eu não acredito em crenças. Eu sou um buscador da verdade. Com uma mente condicionada como a sua, não se pode buscar a verdade ".
Seu rosto ficou vermelho. Ele ficou realmente muito irritado.
"Não me olhe com raiva. Por favor, não reaja antes de eu terminar. Eu não me sinto inseguro ou magoado se você falar alguma coisa ruim sobre minhas crenças, então por que você deve se machucar? "Eu perguntei a ele.
Isso é muito estranho. Alguns sistemas de crenças que têm o maior número de seguidores do mundo são mais inseguros e se sentem magoados, quando alguém questiona suas crenças ou superstições.
Perguntei-lhe: "Por que vocês se sentem inseguros e zangados ou se machucam quando alguém diz contra a sua fé? Por favor, dê liberdade aos outros para expressar suas opiniões ... "
- Não concordo com você. Você está errado, totalmente errado ", disse ele.
"Você está livre para discordar. Esta é a América, um país democrático ... Você não está me deixando completo ... "
"OK" ele estava esfriando.
"Veja meu amigo, o conceito de bom ou mau é ocidental. O mundo de ver a dualidade e os opostos polares em todos os lugares é semítico. Uma visão totalmente simplista do mundo.  Não é verdade?”
Brahmaa, Vishnu e Shiva, a Trimurti 
"É uma filosofia muito simplista em preto e branco - eu concordo que é muito fácil de entender no nível da mente e seguir também ... mas tudo não pode ser definido em preto e branco. Na verdade, 99% de tudo está no cinza ""Hmm ... eu não entendo. Venha ao ponto, não apenas blah-blah ... Você quer dizer que não há pecado em sua religião? "
"Sim e não ... Não há tal pecado, como por seu conceito, no hinduísmo. Este é apenas outro conceito ocidental que se infiltrou na Índia através dos missionários estrangeiros ... É um conceito estrangeiro trazido a nós por estrangeiros, e não tinha lugar no hinduísmo original "
A visão hindu do pecado não é a mesma que outras visões religiosas ... Por exemplo, os cristãos (particularmente católicos) acreditam que o pecado é uma ofensa contra Deus. De acordo com a teologia católica, um pecado mortal (um ato mau cometido com pleno conhecimento e reflexão significativa) rompe o relacionamento de uma pessoa com Deus e se ele/ela morrer não arrependido em um estado de pecado mortal, ele/ela vai para o inferno.
No hinduísmo, o termo pecado (pāpa em sânscrito) é freqüentemente usado para descrever ações que criam karma negativo, violando códigos morais e éticos. No entanto, é totalmente diferente de outras religiões como o judaísmo, o cristianismo e o islã, no sentido de que o pecado é contra a vontade de Deus - ou contra as leis de Deus.
Em outras palavras, o cristianismo não tem nenhuma teoria do karma, então eles acreditam no julgamento de Deus após a morte. Também todo ser humano é assumido como um pecador desde o nascimento e, portanto, deve temer a Deus, que por sua vez vai então amar a pessoa.  Alguns hindus podem dizer que o bem leva você mais perto de Deus, enquanto o mal leva você longe de Deus - mas não há tal menção em nossas escrituras antigas: mesmo bom karma não pode chegar a Deus ... a pessoa deve transcender ambos pāpa e punya para realizar o supremo ou cósmico….
"O hindu não é responsável perante um Deus pessoal. Ele não pode se arrepender do pecado, e não há perdão. Ele é responsável por suas ações por causa de uma lei inexorável do universo. "
"Oh, eu ouvi a palavra 'karma' - nós também usamos isso enquanto escrevemos notícias, embora eu não entenda completamente o significado. Então você está agora concordando que há karma ruim."
"Karma - é apenas karma, não é bom ou ruim. Os resultados dependem da ação e reação da pessoa, das situações, do espaço e do tempo ... aqui de novo, não podemos promovê-lo como simples preto e branco ou em plataforma 'sim ou não' ... "
"Mas você acredita que o karma cederá ao resultado ..."
"Oh, isso não significa que se você fizer o bem, o resultado será bom, e se você fizer algo ruim, o resultado será ruim. Essa também é uma maneira muito simplista de ver coisas complexas e relacionadas. Se isso é verdade, por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? "
"Oh Oh ... você está complicando intencionalmente as coisas, só para ganhar em discussão ..."
"Não. No momento, não estou discutindo com você. Estou tentando expressar o que eu tinha entendido. Eu não sou um autêntico especialista em hinduísmo. Mas, tanto quanto sei, não há expiação formal para o pecado em qualquer lugar nas escrituras hindus "
"Mesmo? Pode explicar mais?
- "Segundo meu conhecimento, no hinduísmo, o pecado não é uma ação. É a reação a uma ação. Significa meramente não julgar e condenar alguém sem uma apreciação plena dos fatos e circunstâncias. Significa não adotar uma atitude mental superior, virtuosa, "mais santa do que tu" ... "
"Assim não há nenhum bom e mau ... como as sociedades podem ou uma comunidade pode, sobreviver sem nenhum conceito moral do bom e do mau?"
- "A sociedade e os conceitos morais são assuntos diferentes. Agora, estamos falando sobre pecado. Nós, hindus, tanto quanto sei, consideramos os bons e maus atos como um retardo na consecução do objetivo final da eterna felicidade e paz. As escrituras védicas dizem que punya ou pāpa são produtos da mente e não possuem qualquer substância ... ".
"Então, como você pode alcançar a salvação?"
- "Isso é o que é. Para nós, não há pecado. Portanto, nenhuma salvação é necessária, apenas iluminação. Devemos simplesmente acordar para nossa divindade inata. Se eu sou parte de Deus, eu nunca posso ser realmente alienado de Deus pelo pecado ... Eu simplesmente não posso fazer nada contra a vontade cósmica, desde que eu estou ciente de que eu sou uma parte de tudo "
As escrituras hindus dizem que todo o universo, incluindo todo ser vivo, é Uno.

Fragmentos de textos védicos


1. aham brahmāsmi - "Eu sou Brahman" (Brhadaranyaka Upanishad 1.4.10 do Yajur Veda)
2. tat tvam asi - "Tu és Isso" (Chandogya Upanishad 6.8.7 do Sama Veda)
3. ayam ātmā brahma - "Este Ser (Atman) é Brahman" (Mandukya Upanishad 1.2 do Atharva Veda)
4. prajñānam brahma - "Consciência é Brahman" (Aitareya Upanishad 3.3 do Rig Veda)

Tudo, tudo, é Deus. Único cósmico. (Separação cria ego e medo - mas isso é outro assunto); e nós somos divinos; deuses (Deus não pessoal, mas realidade impessoal). Qualquer coisa feita para fins puramente egoístas ou para a gratificação do ego, tende a limitar a mente. E essas ações levam você longe do conhecimento do que ele é, finalmente, a compreensão de que você é uno com tudo.
"Eu sinto muito, mas não consigo explicar esses mantras sânscritos como (1) você já tem conceitos condicionados sobre DEUS e (2) eu não sou um bom orador"
- Quer dizer, seus textos sagrados não mencionam o pecado?
"Há dois níveis no hinduísmo - um é o nível mente-corpo - que é conhecido como nível de introdução ao hinduísmo. Tem rituais, fé, superstições, crenças etc. Para ensinar a tais hindus, temos os puranas ou histórias que dizem que há coisas boas e más. Existem deuses e asuras semelhantes aos seus deuses e demônios ... Mas aqui também um hindu tem liberdade para acreditar em qualquer sistema que ele queira seguir "
Sandipani instrui Krsna e Balaram
"Qual é o próximo nível ...?"
"O próximo nível é quando um hindu transcende e se torna um buscador de verdade ... ele vai além de puranas e começa a aprender escrituras védicas ... então ele entende e experimenta a consciência pura ... o eu superior ... nesse estágio, não há pecado ou o mal. Um buscador está ciente da consciência cósmica, então ele simplesmente não pode fazer nada contra o cósmico. Por isso não há pecado para um buscador de verdade "
"Ainda assim, para os hindus no ponto de vista da introdução, vocês têm pecados ..."
"Por favor, não complique com seus conceitos de pecados; pāpa não é a palavra apropriada para o pecado. Você pode dizer, talvez, ‘ações adharmicas (contrária ao dever)’. Isso é uma palavra diferente, e significado diferente também. Ainda assim, digamos que a ação adharmica pode ser traduzida como pecado "
"Aha! ... então você está voltando ao meu ponto. Agora, você explica o que são ações adharmicas? Existem mandamentos? É outra palavra para o pecado?"
"Não ... Como eu disse, não há pecadores, embora haja ações erradas. Somente pela ignorância, cometer várias ações erradas. Não há pecadores, embora haja ações erradas ... "
O Mahabharata, Santi Parva, Seção CLVIII diz: "Cobiça ou excesso desejoso das posses de  outra pessoa (quase um sinônimo de inveja) pode ser considerado como o mairo pāpa. É a partir desta fonte que o pāpa e a irreligiosidade fluem, juntamente com a grande miséria. Esta é a fonte de toda a astúcia e hipocrisia no mundo. É a cobiça que faz os homens pecarem. O orgulho, a malícia, a calúnia, a maldade e a incapacidade de ouvir o bem de outrem, são vícios que devem ser vistos nas pessoas com impureza, estando suas almas sob o domínio da cobiça. Saiba que aqueles que estão sempre sob a influência da cobiça são ímpios. "
"Então, seu Mahabharata diz que existem pecados - há boas e más ações. Então por que você não pode aceitá-lo? É semelhante à nossa fé ... "
"Nem um pouco ... tentando explorar outros ou lavando a mente dos outros também vêm sob o pecado ..." Eu disse, cutucando ele.
O Mahabharata, Santi Parva, Seção XV, diz: "Não há nenhum ato que seja inteiramente meritório, nem qualquer que seja totalmente perverso. Certo ou errado, em todos os atos, algo de ambos é visto ... "
"Diga com palavras simples, não complique as coisas"
"Não existe um direito e um erro prescritivos ... mas, para colocá-lo em palavras simples - no preto e branco para você - prejudicar os outros pode ser considerado como um pecado de acordo com o hinduísmo".
Krsna e Arjuna no campo de batalhas, no Mahabharata
(Slokaardhena Pravakshyaami yaduktham grantakotishu: Paropakaara: Punyaaya Paapaaya Parapeetanam = Significado desta subhashita em inglês: "O que foi dito em milhões de escrituras, vou dizer em apenas na metade de um sloka (verso)- ações que buscam o bem para outros é Punya, e ações que buscam Dificuldade para os outros, é Pāpa ".)
"E qualquer escritura oferece salvação para o ‘seu conceito’ (em citações) de pecado?" Ele bateu de volta para mim.
"Nenhum pecado ... assim nenhuma salvação. Eu disse, esclarecendo ... estar ciente sobre suas ações ... Se você está ciente, você não vai e não pode fazer qualquer pāpa em tudo ... "
- No entanto, no Bhagavad Gita, capítulo 9, versículos 30 e 31, diz: “Mesmo que a pessoa mais pecadora me adore com devoção, e a nenhum outro, ele deve ser considerado justo, pois ele tomou a resolução correta (porque ele fez a santa resolução para desistir dos maus caminhos de sua vida). Logo, ele se torna justo e atinge a paz eterna; Ó Arjuna, sabe que o meu devoto nunca será destruído!”.
"Sim - veja ... veja ... Isso é o que também dizemos - arrepender-se de Deus", ele aclamou.
"Mas há uma diferença séria novamente. Krishna e Arjuna são representações simbólicas. O significado do Gita sloka é: Ao abandonar os caminhos maus em sua vida externa e pela força de sua resolução de direito interno, ele se torna justo e atinge a paz eterna. Em por conseguinte, Krishna é a representação simbólica da consciência cósmica "
"Volte novamente,"
"O corpo-mente traz a ideia do pecado ... O nascimento do próprio pensamento é pecado ... mesmo a espiritualidade sem consciência não o ajudará ... algumas pessoas agem espiritualmente, mas, então, sua espiritualidade é uma coisa de nível de mente ... A mente não pode e não escapará do ego. Portanto, o primeiro e principal aspecto são pensamentos e ações puras - vem do estado de consciência. Se pensamentos e motivos são bons e sustentados pela verdade eterna, qualquer que seja a ação, não haveria pecado algum ... "
- Até a violência?
"Veja, se você olhar para as coisas com a mente condicionada, você pode ver muitos dos acertos e erros. Por exemplo, você pode ver todos os deuses hindus carregando armas com eles. E eles mataram .... Na verdade, os deuses hindus carregam armas para proteger a não-agressão. Para proteger dharma ... "
"Deixe-me dizer-lhe - você chamá-lo bom ou mau ou pecado ou adharma. Para mim é difícil de entender ... "
"Assim é Hinduísmo - difícil de entender, mesmo para seus próprios seguidores ..." Eu adicionei.
- Um verdadeiro seguidor do Sanatana Dharma não se envolverá no karma adharmico. Por quê? Não é devido ao temor de DEUS que um hindu nunca seja ensinado a temer a Deus. Não é por causa de uma proibição de entrada no céu. Mas por causa de seu amor a Brahman ou o Cosmos. Um hindu é responsável per se, pois, ele sabe que ele é parte integrante da natureza cósmica ... a qual é consciência ...
"Ok ... Mas você pessoalmente acredita em pecados? Seja honesto comigo ... não me dê essa consciência ou esclarecimento ou porcaria de Brahman e tal."
"Meu caro amigo, eu não sou uma pessoa iluminada. Eu ainda estou no Hinduísmo no patamar introdutório, embora eu esteja tentando ser um buscador. Eu ainda tenho o maldito problema com ego sutil (que vem em disfarce), então, eu não estou plenamente consciente. Eu acredito em algo bom e ruim. Segundo penso, alguns dos piores pecados no hinduísmo encontra-se naqueles que estão desejando coisas ruins para os outros, sem entender que eles são parte de todos nós. Eu também considero comer carne como pecado. Mas há hindus que comem carne. Eles não pensam isso como pecado. Isso significa que a definição de coisas ruins ou pecado é relativa - diferente para diferentes hindus ... Não há padronização do bem e do mal como as outras religiões "
"Ei, eu também sou vegetariano e também acredito na não-violência. Os cristãos também professam a não-violência, você sabe? "
"Isso é ótimo. Então, em suma, o pecado no hinduísmo = dar dor ou tortura ou até mesmo fazer alguém sentir-se mal, por sua mente, palavras ou por ações. (Mansa, vaachaa, karmana) ... "
"Então, você vai receber punição e ir para o inferno ... lol", ele riu.
"Não ... Não ... Não ... .de novo, nós não temos um castigo como o seu. Apesar de Garuda Purana falar sobre "inferno" e "céu", o assunto está completamente ausente nos textos mais antigos do hinduísmo. As escrituras autênticas não têm tal inferno e céu. Nós temos triloka, mas é um conceito diferente ... Todas as ações são governadas pela lei do Karma ... "
De repente, ele perguntou: "Você gosta de Jesus Cristo? ..."
"Claro que sim ... Creio que Cristo era um homem iluminado como Buda, Madhvacharya e Sankaracharya ... Isso não significa que eu tome tudo o que eles dizem como verdade. Eu sou um hindu por nascimento e por desejo ... Então eu tenho liberdade e escolha para acreditar no que eu quero ... "
"Estou feliz por você ter uma visão equilibrada. Eu também deveria ler estas coisas sobre o hinduísmo. Eu espero que você não vá pensar que somos fanáticos, como eu, que fiquei meio irritado ... "
"De modo nenhum…"


Nós nos tornamos bons amigos e ainda continuamos a amizade.

FONTES

- Site do autorLet's share and care...
- Livro do autor sobre o temaWhy Am I a Hindu? The Science of Sanatan Dharma