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segunda-feira, 18 de julho de 2016

O Sonho de Rāja Jānaka

O Sonho de Rāja Jānaka

Por
Swāmi Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
2006-2016





O Rei Jānaka concede sua filha Sita para Śrī Rāma

karmaṇaiva hi saṁshiddhim
āsthitā janakādayaḥ
loka-saṅgraham evāpi
sampraśyan kartum arhasi

“Certamente, pela ação correta ou Karmayoga o rei Jānaka, e outros, conseguiram a perfeição, agindo pelo exemplo; considera que devas atuar e cumprir”.

B.gita, 3.20


  1. Introdução
Qual foi a ação correta que o rei Jānaka realizou? Que experiência magnífica ele teve que o colocou diretamente com a consciência do Ser ou Ātma? Uma breve história sobre este rei e o que o fez mudar o enfoque sobre a realidade será comentado a seguir.
O rei Jānaka foi o pai de Sita, a esposa de Sri Rāma. Ele foi um rei exemplar, e tinha um profundo senso de liberação. A partir de um sonho que teve certa feita, ele deu início a uma profunda investigação do Brahman. A história que veremos a seguir tem em vista mostrar a irrealidade do mundo material, não enquanto expressão material, mas enquanto realidade transcendental. Para o leitor compreender o texto na sua profundidade filosófica deverá despojar-se das ideias dualistas “eu” e “meu”, uma vez que não é possível uma metafísica sem que haja o devido despojamento da dualidade ou do Dvāita.
A filosofia dos Vedas, e todos os textos derivados e comentados são Advāita, ou não-dualistas. A grande confusão nos dias de hoje é devida às más interpretações e solipsismos feitos por sobre a metafísica dos Vedas, e que no mais das vezes estão comprometidas com a visão de movimentos religiosos independentes, e que não possuem vocação filosófica, sendo puramente especulativas.
No Bhagavad-gītā, e numa enumerável seqüência de textos e comentários diversos da literatura védica, o rei Jānaka é citado como exemplo de retidão, esforço e empenho no caminho do Dharma. No verso 3.20 do Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa cita o rei Jānaka como sendo um grande exemplo de quem alcançou a liberação do Saṁsāra por meio da ação abnegada ou Karma-yoga. São as seguintes as palavras de Kṛṣṇa, dirigidas para Arjuna: “Certamente, pela ação correta ou Karmayoga o rei Jānaka, e outros, conseguiram a perfeição, agindo pelo exemplo; considera que devas atuar e cumprir”. Bgita, 3.20 Isso quer dizer que a realização do serviço abnegado é tão elevada quanto qualquer exercício de realização pelo Jñana.
Karma-yoga não é uma ação feita tendo em vista um resultado, mas uma ação pura e livre de busca de resultados. A ação deve ser exemplar, uma vez que na ação abnegada está a liberação da idéia de “eu” e “meu”. Deve-se saber diferenciar uma ação benevolente, que tem em vista agradar o próprio ego e receber fama e prestigio dos que olham daquela ação que é feita de forma absolutamente abnegada, sem ter em vista nenhum beneficio egoísta como fama, prestigio e poder. Kṛṣṇa salienta o tempo todo que alguém devidamente iniciado e reverente ao Guru (4.34), prestando serviço aos seus pés, é de fato adequado para liberar-se do mundo material.
Ensina-se mais pelo exemplo do que por teorias contidas em textos. Isso nos mostra que não é de agora a ocupação com o processo de educação onde o exemplo dos ācāryas, como verdadeiros modelos de exemplos, as pessoas procuram seguir. Kṛṣṇa, mais uma vez, reforça a idéia de que Arjuna deve lutar, porque seus atos não estão isolados de todo o contexto. O rei Jānaka foi instruído pelo sábio Aṣṭāvakra, numa obra intitulada “Aṣṭāvakra-gītā”, de como deve ser a ação de um renunciado. A ação correta é aquela que e feita sem ter em vista o fruto ou a expectativa do resultado, chamado pelo sábio de “picada da serpente negra da auto-opinião de “eu sou quem faz”. Os pares de opostos, do mundo material, são explicados ao rei naquela obra, tendo em vista alcançar a liberação do saṁsāra ou ciclo de nascimentos e mortes.

2. O Sonho do Rāja Jānaka
Swami Sivananda
O Rāja Jānaka governou o país de Videha. Certa feita, ele reclinou-se num sofá. Isso foi por volta do meio dia, no mês de junho. Ele deu uma soneca de alguns poucos segundos. Ele sonhou que tinha um rei rival com um grande exército e que tinha invadido o seu país, matado seus soldados e ministros. Ele saiu do seu palácio, estando descalço e sem roupas que o cobrissem.
Jānaka encontrou-se perambulando na floresta. Ele ficou com sede e com fome. Ele chegou numa pequena cidade onde pediu comida. Ninguém deu bola para o seu pedido. Então ele foi até um local onde algumas pessoas estavam dando comida para os mendigos. Cada mendigo tinha uma tigela de barro para receber arroz e água. Jānaka não tinha a tigela, então eles disseram que trouxesse uma. Então ele foi à procura de uma tigela. Ele pediu para outros mendigos para emprestar uma tigela para ele, mas nenhum deles quis emprestar a sua. Por fim, Jānaka encontrou um pedaço de uma tigela quebrada. Então ele correu com o pedaço, onde arroz e água estavam sendo distribuídos. Mas tudo já havia sido distribuído.
O Rāja Jānaka estava muito cansado devido a longa viagem, e com fome, sede e calor devido ao verão. Então ele se recostou próximo ao local onde a comida havia sido cozida. Ali, alguém se tomou de piedade por Jānaka, e deu a ele algum arroz e água, que havia ficado no fundo da panela. Jānaka pegou com imensa alegria e assim que ele iria colocar o alimento em seus lábios, dois enormes touros jogaram-se brigando por sobe ele. A sua tigela se quebrou. O Rāja acordou-se com grande medo.
Jānaka ficou tremendo violentamente. Ele ficou com um grande dilema, em saber qual dos dois estágios era real. Todo o tempo em que estivera sonhando, na miséria, com sede e fome, ele jamais pensara que era uma ilusão. Então a rainha perguntou para Jānaka, “Ó Senhor! O que o está afligindo?” Em poucas palavras Jānaka disse, “O que é real, ou que não é?”. A partir de então deixou todo o trabalho e ficou silencioso. Ele não falou nada mais do que as palavras acima.
Os ministros pensaram que Jānaka estava sofrendo de alguma doença. Então eles anunciaram que qualquer um que pudesse curar o rei seria ricamente recompensado, mas se falhassem na cura seriam feitos prisioneiros. Grandes médicos e especialistas tentaram a sorte, mas nenhum deles pode responder a pergunta do Rāja. Centenas de Brahmaṇas bem versados na ciência da cura de doenças foram postos na prisão. Entre os sábios, estava, também, o pai do grande sábio Aṣṭāvakra. Tendo apenas dez anos de idade, e ao ficar sabendo por sua mãe da situação do seu pai ter sido preso, por ter falhado na cura do Rāja, ele pediu para ver o rei Jānaka.  Chegando ao rei, ele perguntou se ele gostaria de escutar a solução da sua pergunta em breves e poucas palavras, como a questão estava sendo colocada, ou em detalhes devido a experiência do sonho. Jānaka não quis repetir o sonho, uma vez que considerava humilhante fazer isso diante de uma grande platéia. Então ele concordou em receber uma breve resposta.
Aṣṭāvakra, então, sussurrou no ouvido de Jānaka: “Nenhum nem outro é real”. Então Jānaka alegrou-se. Sua confusão foi removida. O Rāja Jānaka, então, perguntou para Aṣṭāvakra, “O que é real?”, e daí sucedeu-se um longo diálogo entre eles. Isso está bem documentado num livro chamado Aśtavakra-Gītā, o qual é altamente recomendado para os buscadores da Verdade.



3. O rei discípulo e a ilusão do mundo
Swami Kṛṣṇaprīyānanda
excertos
Śukadeva Goswami ensinou o Śrīmad Bhāgavatam para os reis sábios, como Parīkṣit maharāj e Jānaka Maharāj. Os textos dizem que certa feita Śukadeva iniciou um discurso atrasado, porque Jānaka não tinha chegado. Então os outros se ressentiram pelo sentimento de Śukadeva em relação ao rei Jānaka. Então, de modo equivocado, eles pensaram que Śukadeva estava fazendo aquilo devido a posição real de Jānaka, pensando que o seu Guru estava se deixando levar pelas coisas mundanas. Śukadeva ficou sabendo desta má interpretação, então ele pensou numa forma de dar uma lição aos discípulos orgulhosos.
Quando Jānaka chegou, Śukadeva falou por algum tempo, mas então ele fez um arranjo com seus poderes místicos de modo que os discípulos puderam ver num local distante, no horizonte, a cidade de Mithilā, a capital do império de Jānaka, e puderam ver que estava em chamas, e assim se desmanchando.
Os discípulos estavam escutando o Ātma-Bhoda, ou a lição de que apenas o Ātma é real e que tudo o mais é simples aparência, imposta pelo Ātma, devido a névoa da ilusão e ignorância. Ao ver a cena, cada um dos discípulos saiu correndo, deixando a aula do preceptor, temendo aproximar-se do fogo e que isso pudesse queimar suas roupas e livros. Mas Jānaka, cuja capital estava sendo reduzida à cinzas, ficou imóvel, ao saber de que o fogo era apenas aparente não era real.
Śukadeva, pessoalmente, pediu para Jānaka ir e avaliar os danos e tentar salvar o que não havia sido queimado pelo fogo. Mas Jānaka respondeu que seu tesouro era Jñāna (sabedoria), e que havia recebido do seu mestre, e que com isso havia se despreocupado do mundo objetivo, acessível pelos instrumentos do conhecimento externo.
Com isso, Śukadeva disse que o fogo era uma simulação, criada por ele para mostrar para os outros a distância entre o conhecimento erudito de Jānaka em contraste com o conhecimento superficial.

4. Relatividade do mundo
Certa feita o rei Jānaka se aproximou do sábio Yājñavalkya e perguntou para ele: “Ó sábio! Por favor, deixe-me saber sobre minha vida anterior”. O sábio respondeu: “O que passou, passou. Não há utilidade em relembrar isso. Você completou a sua jornada ao longo da estrada. Não se preocupe como foi que ela foi trilhada. Isso não irá ajudá-lo na sua jornada rumo a glória!”. Apesar de o sábio ter usado de muitos argumentos para dissuadir Jānaka Maharaj, da sua pergunta insistente, ele não conseguiu dissuadi-lo. Yājñavalkya, então, utilizou do seu poder de visão e disse para o rei, Jānaka, sua esposa na vida atual foi sua mãe na vida anterior”. Ao ouvir isso, Jānaka ficou chocado. Ele refletiu: “Que má pessoa tenho sido, em desfrutar de minha mãe anterior em minha esposa! Devo abandonar tal vida perversa”. A partir deste momento ele começou a tratar a sua rainha como sua mãe, e abandonou todos os apegos mundanos, buscando a realização espiritual.

5. Casamento para quê?
O rei Jānaka foi um buscador da verdade; da Verdade Suprema ou Brahmajñana. Ele buscava o conhecimento tendo em vista a autorealização, e não para alcançar conforto material. Certa feita, ele organizou uma assembléia de sábios. Nesta assembleia, Gargī Devī conduzia um debate com Yājñavalkya. O debate estava baseado nas Escrituras. Mas não chegava a uma conclusão. Então Gargī Munī colocou uma questão para Jānaka, dizendo: “Qual é a marca de um Sthitha Prajña?”, no que o rei respondeu, “Ele é o uno; quem realizou a unidade com o Absoluto”. Gargī disse, “Se você realizou o estado de Consciência, então você terá apenas a consciência da Unidade. Você não está neste estágio agora” Então o rei disse, “Eu desejo alcançar este estágio de consciência”. Gargī respondeu, “O rei! Eu tenho um desejo. Você poderá realizá-lo?”; “Certamente”, respondeu Jānaka. Então ela pediu para casar-se com ele. O rei respondeu, “Eu tenho apenas uma esposa, Sunetra (aquela que tem boa visão). Eu não desejo me casar com qualquer outra esposa”. Gargī disse, “Você e um grande Jñani. Você tem uma boa visão, e sua rainha é uma dama de boa visão também. Pode ser que eu peça para que o grande Yājñavalkya peça isso para você?”. O rei respondeu, “Eu darei para ele o que ele me pedir”. Indubitavelmente Yājñavalkya era um grande sábio, mas não tinha total controle dos sentidos. Yājñavalkya então pediu para o rei, “Dê-me Gargī em casamento. Celebre nossas núpcias”. Então, houve um grande alvoroço na sala. Os grandes sábios que estavam presentes na sala perguntaram, “Qual o significado do pedido de Yājñavalkya?” Gargī perguntou para Yājñavalkya, “Qual era o propósito de um casamento?”, Yājñavalkya respondeu: “Ter progênie”. Gargī disse, “Não! A esposa é a outra metade do marido ou Ardhangi. Isso significa que ela deverá buscar o Dharma junto com seu marido, como uma Dharmapatni (uma esposa correta). O casamento é pela segurança da continuidade do Dharma; não para um desfrute de prazeres mundanos. Por acaso está nosso imperador desfrutando dos prazeres carnais no palácio? O mesmo que experimentado pelos cães nas ruas? Será isso felicidade?”.

Hari Om Tat Sat

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não Há Tarot Védico

Não há Tarot Védico
Olavo DeSimon (Krsnapriyanananda Swami)


Eventualmente, perguntam-me sobre a possível existência de um “tarot védico”, quando, na realidade, não existe tal “dispositivo” adivinhatório na cultura védica. É certo que as pessoas tendem a interpretar as coisas pelo viés gravitacional da cultura que estão mergulhadas, mas para o bem da sabedoria, “védico” diz respeito aos Vedas: um conjunto de textos sobre hinos de louvor, sacrifício e cânticos rituais do antigo Irã (Arian), levados até a Índia por volta de 1.500 antes da era atual. Ainda que possam ter existido civilizações anteriores no norte da Índia, a hipótese da influência ariana é forte, principalmente quando lemos os textos de ambas as culturas e os comparamos, com a devida exegese. No mais, Vedas são textos destinados aos membros envolvidos na cultura do Sanatana Dharma, conforme o sistema de varnashrama, posição de atividade social como os Brahmanas, Kshátryas, e Vaishyas. Alguns aspectos são específicos aos Brahmanas, como rituais de sacrifício, outros aos Kshatryas, como a guerra e administração, e, também, aos Vaishyas, estes dedicados ao comércio. Fora disso, temos os chamados “escritos seculares”, que são textos advindos do folclore cultural indiano que, como sabemos, é um cadinho de múltiplas culturas e tradições diversas, como da Mongólia, da Arábia, da  Persa, bem como da cultura Ocidental, e assim por diante.

Na Índia, o que mais se aproxima do que conhecemos como “tarot”, uma prática divinatória surgida na Europa por volta dos séculos XV e XVI, apesar de não se utilizar de cartas, mas de dados (como o pachisi) , tem distintos nomes como:  Maha Lilah, Gyan Chapaud, Shaap Shree, Mohska-Patamu, entre outros, conforme a região do continente, e que, na verdade, são jogos de divertimento ou passatempos (lilah) que não seguem rituais védicos. Em resumo, no mais das vezes, há um tabuleiro com oito níveis de avanço no jogo, constituindo-se em média de 72 (setenta e duas) casas, denominadas “lokas” (mundos); entre essas casas, em alguns dos jogos, há escadas, também serpentes interferindo a caminhada do jogador; as casas dos devas (deuses), como Brahma, Vishnu e Shiva, são ditas que se encontram em um nível intermediário ao do guru. A meta final é alcançar a casa do Guru, ou mestre, conhecida como “garana”. Portanto, se há algum “tarot védico”, esse, sem dúvida, será uma adaptação do jogo de cartas europeu do final da Idade Média, e sem origem nos Vedas.

Contudo, o aspecto peculiar dos jogos de tabuleiro anteriormente mencionados, é a forma lúdica de ensinar os fundamentos da cultura do Sanatana Dharma, como Dharma (dever), Karma (trabalho: ação e reação), Kama (laser) e Moksha (liberação). Estes aspectos estão presentes e elucidados nos Upanishads, que são comentários dos Vedas, desde que estes textos estão numa linguagem mais simbólica do que real. Há muitas formas e variantes daqueles jogos, mas o pano de fundo é a moral e a ética contida na tradição indo-europeia.

Referências biblográficas
ELIADE, Mircea. O conhecimento sagrado de todas as eras. São Paulo, Mercuryo, 2004.
ELIADE, Mircea; COULIANO, Loan P. Dicionário das Religiões. São Paulo, Martins Fontes, 2003.
ZIMMER, Heirinch. Filosofias da Índia. São Paulo, Palas Athena, 2000.
___ Mitos e Símbolos na arte e civilização da Índia. 2ª reimp. São Paulo, Palas Athena, 1998

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Bioética e Sanatana Dharma

Bioética e Sanatana Dharma

 Swami Kṛṣṇapriyānanda Saraswati
Prof. Olavo DeSimon

SANĀTANA DHARMA BRASIL
Gītā Āśrama
2005 - 2013

Sri Ganesha



Bem-estar espiritual
Hinduísmo é uma vasta e profunda filosofia de vida, com um inumerável aglomerado de múltiplas "religiões". Os Hindus adoram a Realidade Suprema, e creem que todas as almas finalmente realizam a Verdade, para a qual deve-se aproximar através de uma grande variedade de nomes e formas (sendo que cada um adota a que lhe mais dizer respeito em sentimento ou Bhakti). O bem-estar espiritual advém de levar uma vida dedicada em servir, baseada no princípio da não-violência (uma herança do Jainismo), no amor, boa conduta, e no serviço abnegado, e assim será alcançada a Verdade Suprema de modo interior. Atingir-se o bem-estar espiritual varia de acordo com o temperamento individual, sendo que o Guru é quem indica qual o melhor processo para alguém progredir espiritualmente. A realização da Verdade Suprema pode ser realizada por intermédio da devoção ou Bhakti para um aspecto particular de Deus; auto-análise, serviço abnegado, e meditação.

Doenças, acidentes, ferimentos
No Hinduísmo há a teoria do Karma (lei de causa e efeito). Cada indivíduo credita a si o próprio destino, conforme pensamentos, palavras e obras. Doenças, acidentes, e ferimentos, são resultados do Karma que alguém criou, e é visto como uma forma de purificação. O Karma é visto como um acúmulo de reações adquiridas através de muitas vidas. Portanto, uma doença pode ser vista como resultado de uma ação na vida anterior, ou na vida pregressa.

Nascimento
Para os Hindus, o nascimento é importante a partir do que diz o horóscopo ou Jyotish. Tradicionalmente, os bebês nascem em casa, feitos por um Kaviraj (parteiro ou parteira). O marido não assiste ao parto, porque é considerado mal Karma. A criança é encaminhada para ser amamentada logo que nasce. Não há nenhum ritual de circuncisão. Tradicionalmente, a criança recebe o nome no décimo dia do nascimento, fator que leva em conta suas estrelas de nascimento, e configurações do seu mapa astral. Este cerimônia chama-se de Namakara (cerimônia do nome), e então ela é considerada ingressa no mundo material.

Aborto e controle de gravidez
Boa parte dos Hindus não aceita o aborto, principalmente como método anticoncepcional. Contudo, gravidez que é resultado de estupro, tenha uma deformidade grave, ou que não é desejada por razoes do casal, o aborto é protegido por leis milenares.
O controle de gravidez é uma prática milenar na Índia, e é praticado, tanto de forma natural (período fértil) como artificial (com o uso de produtos e remédios).

Dieta e regulações
O vegetarianismo é recomendado pelas escrituras Hindus, mas cada um poderá escolher livremente a sua dieta, porque cada um é responsável pelo seu próprio Karma. Na Índia, lacto-vegetarianismo é adotado pela vasta maioria das pessoas. Peixe e frango são consumidos por alguns, mas jamais carne de vaca ou boi, que é considerado um sacrilégio. Alimentos picantes são comuns, principalmente no sul da Índia. É comum ingerir iogurte e doces com a comida. O sal é usado com moderação. O Ghee, ou manteiga clarificada, é usado no lugar de óleo nos alimentos. Tanto o café como os chás são utilizados. O mais comum é o Chaya, uma mistura de chá da Índia, com especiarias e leite. É comum comer-se usando a mão direita, sem talheres. A mãe esquerda é utilizada para limpeza (os Hindus não usam papel higiênico, preferindo tomar banho depois de usar o sanitário).

Decisões bioética (vontade de viver; diretrizes, etc).
A tradição Hindu não aprova meramente o matar alguém, mesmo o suicídio sem motivo ou por causas fúteis, mas prolongar a vida de alguém, de forma artificial, é algo de cunho individual. No mais das vezes, os Hindus preferem seguir o curso natural da vida; isso quer dizer que uma vida não deve ser mantida por meios artificiais, principalmente se há comprovação de falência de algum órgão que não e possível a pessoa ter uma vida normal dali para diante. Morte cerebral é considerado que a alma abandonou o corpo.
Manutenção da vida e o transplante de órgãos (receber e doar) é algo particular de cada um. No geral, é vista uma relação de parentesco com a casta ou ordem religiosa, nas quais são feitas doações ou não, de acordo com a vontade e consentimento individuais.

Visitas em hospitais
Em geral, os Hindus são ligados uns aos outros de forma familiar e próximos. O paciente é quem aprova ou não a visita dos pais, parentes próximos, etc. No mais, para uma decisão médica, os parentes devem ser requisitados, inclusive se alguém deve ou não ser operado, etc. Um paciente Hindu sempre está em conexão com um templo Hindu ou Ashrama, então o paciente poderá solicitar um sacerdote ou Brahmana ou a seu Guru para visitá-lo, o que não deverá ser impedido.

Fala e conversações e hábitos
Os Hindus falam bem a língua do lugar onde vivem, mas é comum se comunicaram com outros dialetos, sendo que o Hindi é amplamente empregado.
Na cultura Hindu, é comum as pessoas retirarem os sapatos antes de entrar em casa ou aposento. O médico deverá saber respeitar isso antes de entrar na casa e aceitar o pedido de retirar os sapatos, sob grave ofensa. Não é permitido entrar de sapatos nos locais de adoração.
Não será de estranhar que os pacientes e visitantes retirem seus sapatos na porta de entrada do quarto do hospital quando forem visitar alguém doente.
Se o paciente que for visitar o paciente que é mais novo, este deverá ser instruído, caso não possa, a não se levantar ou fazer esforços desnecessários para levantar-se, porque isso é considerado sinal de educação. O respeito pelos mais velhos é uma marca registrada dos Hindus, junto com um forte laço familiar.

Devoção pessoal e objetos religiosos
Um Hindu poderá levar com ele, para o quarto do hospital, uma pequena imagem ou quadrinho com a sua Deidade de adoração. A prática religiosa Hindu inclui meditação, oração com um Mala (rosário de 108 contas). Um Mantra, ou vibração sonora que se refere a um nome ou atividade de uma forma de Deus, é entoado com este rosário. Em geral, a pessoa de direciona para o Norte ou Leste para fazer sua prática.

Dias sagrados
A grande maioria dos dias sagrados são observados de acordo com o aspecto particular da Divindade, a qual a família Hindu pertence. No mais das vezes, são comemorados o Sivaratri (dia do Senhor Siva), que ocorre usualmente na lua nova de fevereiro. Krishna Janmashtami, comemora o aparecimento do Senhor Krishna, fato que ocorre geralmente em Agosto, na lua minguante. Um devoto da Mãe Divina (Kali, Devi, etc), celebra o Navaratri, que são nove dias de adoração (este período de nove dias pode ocorrer em um mês diferente, dependendo da região da Índia que uma pessoa é). Resumidamente, estas datas acima são as observadas pela grande maioria no calendário Hindu.

Morte, vida depois da morte, luto
O Hindus preferem morrer nas suas  próprias casas do que num hospital. Portanto, deve-se evitar que ela ocorra num hospital. O paciente moribundo deverá ter seu desejo respeitado de permanecer com seus parentes íntimos, ou com seu sacerdote ou Guru, se possível. O sacerdote Brahmana deverá encaminhar os ritos funerários adequados para cada caso.

Tanto o enterro como a cremação são utilizados pelos Hindus, dependendo do local, idade, e tradição da ordem que está seguindo, e das orientações dadas pelo Guru. Os Hindus crêem que a alma reencarna sempre, até que se extinga o Karma completamente, atingindo a liberação.

É dito que a lamentação pela morte torna mais difícil a alma partir do corpo e abandonar o plano terrestre. O ideal para o Hindu é lembrar-se da partida do corpo com pensamentos de felicidade, uma vez que alma recebe estas vibrações. Evidentemente que o lamento pela perda de alguém é algo inevitável, mas o apego exagerado causa mais dor e sofrimento para todos.


Hari Om Tat Sat

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Chinnamasta

Chinamasta
Swami Krishnapriyananda Saraswati
prof. Olavo DeSimon

Sanatana Dharma Brasil
Porto Alegre,
2005-2012




Conta o mito que, certa feita, Srimati Parvati Devi foi banhar-Se no rio Madakini, com duas de Suas servas, Jaya e Vijaya. Após ter-Se banhado, a bela cor da Deusa tornou-se enegrecida, devido estar sexualmente excitada. Depois de algum tempo, Suas duas atendentes pediram-nA: “Dê-nos algo para comer, nós estamos com fome”. Parvati respondeu, “Eu lhes darei comida, mas, por favor, esperem”. Depois de um tempo, elas novamente pediram para Ela. Ela respondeu, “Por favor, esperem, Eu estou pensando em algo importante”. Esperando brevemente, elas imploraram: “Você é a mãe do universo; uma criança pede tudo para a Sua mãe; a mãe dá às crianças não apenas alimento, mas também roupas para cobrir seus corpos. Então é por isso que estamos pedindo alimento a Ti. Você é conhecida por Sua misericórdia; por favor, nos dê comida”. Ouvindo isso, Parvati disse-lhes que daria algo para comer tão logo alcançassem a casa. Mas novamente as duas servas pediram para Ela: “Nós estamos dominadas pela fome, ó Mãe do Universo; dê-nos alimentos, assim nós ficaremos satisfeitas, ó Misericordiosa, plena concededora de todos os desejos”.

Tendo escutado este pedido sincero, Parvati, cheia de misericórdia, sorriu, e então cortou a Sua própria cabeça. Tão logo Ela cortou a Sua cabeça, Ela a colocou sob a Sua mão esquerda. Três correntes de sangue emergiram do Seu tronco; as correntes do lado direito e esquerdo jorraram dentro das bocas das servas, e a do centro, para dentro de Sua própria boca. Depois de ter realizado isso, todas ficaram satisfeitas, e depois retornaram para a casa. Com isso, Parvati ficou conhecida como Chinnamasta

A representação
No imaginário visual, Chinnamasta é mostrada estando em cópula, na forma do casal Kamadeva e Rati, estando Rati por cima. Eles estão por sobre um lótus.

Há duas representações diferentes sobre a iconografia de Chinnamasta. Há o significado simbólico do controle do desejo sexual, e há outro que simboliza a incorporação da energia sexual da deusa. A interpretação mais comum é a de que Ela foi vencida pelo amor, representado na união de Kamadeva e Rati, sendo nomeado de desejo sexual e energia. Em todos os casos, significa autocontrole, como sendo a marca registrada de um Yogi.

Há uma interpretação, um pouco diferente, que diz que a presença do casal em cópula trata-se de um símbolo da Deusa, sendo carregada pela energia sexual do casal. Assim como um assento de lótus é tido como conferindo a Deidade que está por sobre ele, qualidades auspiciosas e pureza, Kamadeva e Rati transmitem para Deus, que está por sobre eles, o poder da energia gerada pelo amor de suas paixões. Jorrando acima, através do Seu corpo, esta energia flui para fora do Seu torso, para os pés dos Seus devotos, e também reabastece-A. é importante salientar que a atividade do casal não é oposto a Deus, mas uma parte integral do ritmo do fluxo de energia, que constrói o ícone de Chinnamasta.

Composição
A imagem de Chinnamasta é uma composição, que transporta para a realidade como um amalgama do sexo, morte, criação, destruição e regeneração. Impressiona-nos o fato de que a vida, sexo, e morte são partes intrínsecas de uma cena única, que faz o universo manifestar-se. O completo contraste no cenário iconográgico, a horripilante decapitação, o casal em cópula, o ato de as servas beberem o sangue fresco, estão arranjados de um modo delicado, num padrão harmonioso. Isso sacode o contemplador internamente, despertando as verdades da vida na morte, alimentada pela morte, a necessidade da morte, e que o destino final do sexo é perpetuar a vida, a qual por seu turno decai com e morre, para dar mais vida. A forma como está arranjado o ícone, a flor de lótus e o casal no coito, surge como um poderoso canal da força da vida dentro da Deusa. O casal desfruta do sexo como uma necessidade da Deusa; eles se espelham n´Ela com energia. No topo, como uma fonte transbordante, Seu sangue brota de Seu pescoço cortado, fazendo a força da vida deixa-lA, mas jorrando dentro das bocas de Suas devotas (bem como dentro de Sua própria boca), para nutri-las e mantê-las. O ciclo é rigorosamente retratado: vida, no casal em cópula; morte, na decapitação da Deusa (que não morre, porque a alma nunca morre); e a nutrição, no fato de as Yoginis beberem o Seu sangue.

Trascendental
Quem se atreva a superar a morte e alcançar a imortalidade? No Tantra, o sexo pode ser encarado como um processo de mera reprodução, então os praticantes são Pasus ou animais do rebanho, ou são Devas, que realizam o coito sagrado, Maithuna, tendo em vista a realização do Supremo, na forma de Devi. O Senhor Krishna, quem é Kali encarnado na Kali-yuga (por isso era de Kali, porque começa com a intervenção da Deusa), disse no Bhagavad-gita (7.11) que Ele é quem desfruta de tudo, e que Ele é o amor dos amantes e o próprio prazer sexual. Quem compreende isso, com certeza, não vê no sexo algo imundo ou impuro, mas um fator necessário para a realização do Supremo. Em última análise, é Devi quem desfruta, e o ciclo infindável de nascimentos e morte tem sentido na dimensão do amor cósmico e divino. Casos todos se dessem conta, e então reduzissem ao fato de que a finalidade da vida é, no final das contas, a morte do corpo, então, com certeza, sem a força da paixão do amor não haveria nenhum motivo para a reprodução, por que quem quereria ver a morte dos quais gerou?

Kundalini
O significado esotérico desta bela imagem é de que na coluna vertebral há dois canais laterais e um central. O canal central é chamado de Brahma-nadi, ou canal de nutrição central. Ida e Pingala são os canais laterais, um de cada lado da coluna, que serpenteiam o Brahma-nadi. Ida corre pela esquerda, e Pingala pela direita. Ida inicia no testículo direito no homem, e termina na narina esquerda; Pingala inicia no testículo esquerdo do homem, e termina na narina direita. Na mulher as polaridades são invertidas. Na base da coluna vertebral está repousando Kundalini, a energia ou poder serpentino que é desperto pela Sakti. Quando Sakti e Siva se unem, Kundalini sibila e desperta, subindo pela coluna vertebral do casal, e jorrando no alto da cabeça, iluminando o casal com a sabedoria do amor divino.

Enquanto Kundalini permanece na base da coluna Ela fica adormecida. Tal como uma princesa adormecida, Ela aguarda pelo beijo puro do amor para despertar e acordar do seu sono e inércia. Somente há liberação, com amor por Deus (ou Deusa), e somente há amor por Deus com o despertar de Kundalini, e somente há o despertar da Kundalini com o amor da Deusa.

Na história há a insistência das servas em serem alimentadas a qualquer custo. Os ensinamentos védicos dizem que somente quando as línguas estão saciadas todos os demais sentidos estão saciados. Somente quando Ida e Pingala estão saciados, bem com Brahmanadi, então tudo estará saciado. No corpo humano há duas línguas, que em sânscrito tem o nome de Jiva (e que por sinal é uma forma de se dirigir para a alma). Estas duas línguas são os genitais e a própria língua que está na boca. Coincidência ou não, embriologicamente as duas línguas têm a mesma origem embrionária, e são feitas de material biológico idêntico. Que maravilha é a natureza, tão perfeita nos mínimos detalhes, quem se atreva a modificar isso, a moral dos homens? 

hari om!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Ufos - do estranhismo moral ao estranhismo tecnológico.


Ufos
do estranhismo moral ao estranhismo tecnológico

Swami Krishnapriyananda Saraswati
(Olavo DeSimon)


Vimana - uma representação numa pintura indiana antiga


Escrevo isso por ter tido uma experiência muito pessoal com o que hoje chamam “ufo”. Portanto, estou plenamente a vontade de dizer o que escrevo a seguir, bem como para desafiar quem não teve a experiência que tive e dizer-me o que realmente foi. Observando a grande maioria dos ‘comentadores’ sobre ufos, disponíveis em revistas, blogs, etc., vejo tratar-se de pura especulação em moldes de idiossincrasias e solipsismos. De concreto, não há nada aproveitável e razoável em quase sua totalidade. É pouco provável que algum daqueles “comentaristas” teve alguma experiência pessoal com algo real naquela natureza. Quem realmente viveu uma experiência do tipo ‘ufo’ é provável que apenas relate o que viu ou o que sentiu (sendo tão particular como uma experiência particular permite), mas não ficará misturando com crenças, ideologias religiosas ou políticas sob a pena de estar falando apenas do que sabe e não do que não sabe, colorindo o matiz do desconhecido com suas tintas de crenças pessoais. Perlaborações posteriores naqueles fenômenos demonstram imaturidade intelectual, do que aconteceu na área “ufo”; são tão fantasiosas como os contos de fadas. É intrigante o fato de um “eu acho então”, riqueza peculiar do especulador “estranho tecnológico e moral”, ficar avolumando páginas e páginas de pura especulação solipsista, e nunca focar o cerne do que pretende longe do que crê. Quem viveu sabe: uma experiência ‘ufo’ é única e praticamente inefável. Simplesmente não sabemos do que se trata, e não saber é algo humano também. Do mesmo modo como um cientista observa, analisa e relata o que está empirizando, distanciando-se das suas convicções particulares - as quais, no mais das vezes, no leigo ou na mente não treinada para a investigação, nascem da simples apreensão e na conversão para aquilo ao qual conhecem e acreditam – a experiência e consequente análise posterior de um fenômeno ‘ufo’ particular deve ser devidamente ponderada. Parafraseando Heidegger, "do que não se pode falar é melhor calar"!

Na grande maioria das vezes, quando vemos opiniões não experenciadas sobre o fenômeno “ufo” (estas parecem ser tão variáveis quando entes observadores existam), vemos pura especulação; pura elucubração que tentam, de modo forçado, querer encaixar com o que não se explica em termos de tecnologia atual em nossa cultura, com suas crenças, ideologias, religiões, etc., que são conceitos mais ou menos estéticos morais pessoais. É algo como querer colocar uma peça de quebra-cabeças onde o espaço é redondo, forçando-se uma peça quadrada ou uma leitura utilizando-se os “óculos colorido” o qual temos como real. Me recordo de uma experiência de uma senhora que resolveu “conhecer a Índia”. Ao ver na rua um homem com uma mesa, tendo algumas moedas sobre ela, imediatamente retirou algumas de sua bolsa e colocou-as por sobre a mesa do homem. Vendo-o irritado, ela perguntou para alguém que já era mais experiente, por que o homem estava reagindo daquela maneira? Então soube que o mesmo estava doando as moedas para quem escutasse alguns versos das Escrituras Sagradas, e não estava pedindo esmolas. Assim, vê-se de tudo o que se quer ver com o óculos da nossa moral, mas é claro que um cientista racional sério não irá participar destes encontros marcados com ideologias pré-definidas. Mas um cérebro que não foi ensinado a pensar, e que está acostumando apenas seguir o rastro do que aprendeu como verdade, calcando-se num esteticismo moral particular, seguirá um caminho o qual lhe é confortável, mas não será necessariamente verdadeiro. Quando alguém no campo da ciência procura por algo, no mais das vezes, sequer sabe o que procura. Mas o acaso de algo encontrado sempre será para quem o procura, ainda que não saiba o que procura. Se um cientista buscasse apenas o que é esteticamente moral naquele momento, é provável que não saísse das suas crenças pessoais.

Temos o exemplo bem claro de Kepler, que percebendo o modelo das orbitas elípticas dos planetas, formulado por Copérnico, aquele dizia tratar-se de apenas um artifício deste, tendo em vista a formulação de uma hipótese. Kepler, assim como Aristóteles e Ptolomeu, estava tão convencido da sua ideia preconcebida da órbita circular dos planetas, que não conseguia ver de modo diferente. Mas Kepler via que o modelo geocêntrico, assim como Copérnico, era deficitário. Mas Kepler via a ideia de Copérnico como uma “estranheza moral”, simplesmente porque, para antigos pensadores, a elipse era “um círculo imperfeito”, e isso era esteticamente incorreto. Sim, de modo ingênuo, o belo e o bem andam atrelados em pensadores poéticos, e deformam o conhecimento da realidade.

Por sua vez, uma ciência puramente utilitária, que vê motivo e ‘utilidade’ em tudo, é certo tratar-se de um outro modelo de pensamento ideológico, e não necessariamente tratar-se de ciência. Por outro lado, em contrapartida ao modelo estético, os paradigmas utilitários, que se mostraram tão ineficientes quanto suas propostas de validade, também se apresentam vazios diante de explicar o que não conhecemos. Tentar forçar o que conhecemos para definir o que não conhecemos é uma tolice que não irá encaixar cubos em triângulos. É claro que as chamadas “leis da Física” se aplicam também ao que ainda não conhecemos, considerando-se o devido “campo de gravitação” da experiência acumulada. Mas também pode ser que em circunstâncias extraordinárias tenhamos coisas extraordinárias. Alguém, então, poderá pensar num “que fazer” diante daquilo que estamos mudos e sem explicações distanciadas de ideologias. A resposta é bem simples e bem objetiva: coletar o máximo de dados possíveis, procurando um afastamento ideológico; organizar e observar novamente. Como diz Mario Bunge, o que diferencia ideologia de ciência é o “juízo de valor” que se calca em algo como critério de validade. Será pouco provável que alcancemos uma compreensão do que não conhecemos se o ponto de partida for um juízo de valor, o motor fundamental das ideologias, tentando encaixar peças distintas em espaços diferentes. Contudo, os fenômenos “ufo” também podem carregar outro componente, além da tecnologia empregada. Trata-se dos “estranhos morais” que a articulou, engenhou e empreendeu. Vemos a fragilidade em nossas vidas de entender os diferentes nuances do comportamento moral de outras culturas, aqui mesmo na Terra. Pode ser que as “cabanas de amor” das adolescentes Kreung, do Camboja, as quais os pais das jovens constroem para que possam “descobrir o amor”, tendo experiências com jovens adolescentes, cause algum dano na moralidade objetiva da maior parte do mundo. Mas nosso “julgamento” desta moralidade apenas demonstra nossa moral aos “estranhos morais”. Do mesmo modo, os “estranhos tecnológicos” estão sujeitos aos nossos “estranhismos ideológicos”.

Concluindo, não se nega que haja fenômenos aos quais ainda não conhecemos. Por exemplo, será que o mais intrigante deles, a vida, não é também merecedora de análise? Será que a visão ingênua religiosa, ou seja, um impedimento moral ao estranho moral do que não conhecemos deve silenciar-se diante da realidade do que é a vida objetivamente falando? Será que não podemos ter um jardim com flores sem que alguém venha colocar duendes nele? Posso meramente contemplar a beleza de um arco-íris sem a necessidade poética de um ‘pote de ouro’ no seu ‘final’? De fato, atualmente, uma observação despojada do esteticismo moral parece estar distante de um fenômeno tão intrigante quando o ‘ufo’, mas o que deve ser ponderado é o quanto estamos inferindo de nossas convicções no que não conhecemos e o quanto disso colocamos como verdade. Sinceramente, admitir que não sabemos alguma coisa é também algo muito humano, bem como a busca para resolver o problema do desconhecido é muito, mas muito humano.  


Conhecendo um pouco mais:
Uma nova História do Tempo . Shephen Hawking, 2005
A Magia da Realidade - Richard Dawkins, 2009.
Epistemologia . Mario Bunge

domingo, 17 de junho de 2012

Pega-ladrão Real


Pega-ladrão Real

Krishnapriyananda Swami
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
1997-2006




Conta a lenda, que numa pequena antiga cidade da Índia, chamada Saraswati, as pessoas se reuniram, num dia muito quente, para falar sobre um estranho, que havia chegado à cidade. Ele caminhava com muitas dificuldades, devido aos pés feridos devido a caminhada longa que fizera. Ele era um Brahmana, ou seja, um homem que devota a sua vida para pregar, e que tinha prometido dar tudo para agradar a Deus, no qual ele acreditava, e não possuía nenhum conforto, tampouco riqueza e boa alimentação.

O Brahmana não carregava nada com ele, a não ser um pedaço de pau para apoio, e uma tigela, na qual ele recebia doações, daqueles que acreditavam assim ajudá-lo, e tinham a esperança de receber uma graça de Deus. Ele andava nu, exceto por uma peça de roupa sobre os quadris. Tinha um longo cabelo entrelaçado. Ele fazia a sua caminhada muito lentamente, e dolorosamente em meio a multidão; alcançou um canto escuro, e ali ele sentou-se exaurido, segurando a sua tigela para receber a ajuda das pessoas. Em breve, a sua tigela encher-se-ia de doações das pessoas, com todos os tipos de coisas, mas ele deixou bem claro que não aceitaria nada para comer a não ser arroz descascado, e nada para beber além de água pura. No entanto, ele estava querendo dinheiro, então as pessoas trouxeram para ele uma boa quantidade de peças de preta e ouro. Quem não possuía dinheiro para dar de esmolas para ele, doaram jóias e outras coisas que poderiam ser vendidas por dinheiro.

Chegou o tempo em que o Brahmana ficou muito conhecido em Saraswati. Sua fama, sem dúvida, se espalhou para além da cidade, e as pessoas vinham até a ele para consultar todos os tipos de coisas, e receber conselhos de um bom homem sábio. Todos desejavam pagar de alguma forma pelos conselhos do sábio, e muitos o ajudam de forma abundante, de tal modo que ele ficou muito rico. Ele poderia fazer muitas boas coisas com todo o dinheiro para ajudar as pessoas pobres e sofredoras, mas infelizmente ele jamais pensou em fazer isso. Em vez disso, ele pegava o dinheiro para seu desfrute. Na noite, depois que todos que tinham vindo vê-lo e tinham ido dormir, e vendo que não havia ninguém, ele costumava entrar na floresta, onde havia uma árvore com um profundo buraco próximo à raiz, que ele costumava cobrir com lama, e onde ele punha todo o seu dinheiro e jóias.

Na Índia, todos costumam ir à sesta, num sono do meio dia, devido ao grande calor, e por isso é difícil manter-se bem nas tarefas nesta hora. Então, apesar de ser plena luz do dia, as ruas ficam desertas, exceto para os cães que ficam rondando, procurando alguma coisa para comer. Então agora o Brahmana adorava seu dinheiro e suas coisas muito, e frequentemente costumava não fazer a sesta, indo para a floresta desfrutar de olhar para suas coisas. Ele costumava ir até o buraco na árvore, se curvava, pegava as moedas e deixava escorrer entre os dedos; olhava o brilho das jóias, contemplando a refulgência. Ele ficava muito feliz quando estava sozinho admirando a sua riqueza, de tal modo que costumava chorar quando tinha que voltar para seu canto escuro. De fato, ele era um egoísta miserável, em vez de um homem santo, que as pessoas de Saraswati pensavam que era. Na hora da sesta, ele sempre voltava ao local debaixo da árvore, segurando sua tigela e bengala, numa aparência de pobre, e ninguém tinha a mínima idéia da verdade.

Por muitos meses o Brahmana levou esta vida dupla; até que um dia, quando ia para o seu local secreto, ele viu que alguém esteve lá antes dele. Ansiosamente ele se curvou, temendo que acontecesse o que aconteceu. Todo o seu cuidado de esconder o buraco tinha se ido; estava completamente vazio. Ele não pode acreditar no que seus olhos viam. Ele os esfregava, pensando que alguma coisa tinha acontecido com eles. Então ele apalpou aqui e ali o buraco, tendo a esperança de que havia um engano. Quando por fim se viu obrigado em aceitar a terrível verdade, uma vez que não havia nenhum sinal de dinheiro ou jóias, ele ficou muito mal com a sua miséria. Ele começou a correr de árvore em árvore, olhando por entre suas raízes, e quando viu que não havia nada, ele retornou para o buraco que guardava as coisas, olhando mais uma vez. Então ele verteu lágrimas arrancando seus cabelos, sapateando; implorou ruidosamente para todos os deuses que acreditava, fazendo todos os tipos de promessa, as quais cumpriria apenas se eles trouxessem de volta o seu tesouro. Não obteve nenhuma resposta, então teve a curiosidade de saber quem havia feito tal coisa terrível. Deveria ser alguém de Saraswati; ele lembrou-se que que muitos haviam olhado sua tigela cobiçando-a, ao verem o dinheiro e as pedras preciosas. “Que terrível; como as pessoas são malvadas”, ele disse para si mesmo. “Eu os odeio. Deveria bater neles pelo que me fizeram”. E enquanto pensava, ficava cada vez mais irado, até se cansar, rendendo-se para sua fúria.

Depois de ter perambulado na floresta por um longo tempo, o Brahmana retornou para a sua casa em Saraswati, onde as pessoas lhe tinham concedido, estando contentes e orgulhosos por terem tal homem sagrado, como eles pensavam que era, vivendo sob o seus tetos. Ele tinha certeza que eles não tinham nada a ver com a perda do seu tesouro, porque tinham dado a ele muits provas das suas bondades e honestidade. Então ele derramou suas mágoas para eles, e fizeram tudo o que puderam para confortá-lo, e que em breve teria muitas jóias e dinheiro. Todavia, eles mostraram para ele o que pensavam sobre o fato, e que aquilo fora um meio de mostrar que a riqueza não deveria ser escondida, mas usada para ajudar os pobres e sofredores. Isso aumentou a sua ira. Por fim, ele perdeu o autocontrole, e gritou: “Não há mais nenhum valor para eu viver nem mais um minuto. Eu irei para a margem de um rio sagrado, em peregrinação, e ali jejuarei até a morte”.

As notícias das perdas do Brahmana se espalharam por toda a Saraswati rapidamente; e assim como ocorre frequentemente, cada um contava a história de um modo ligeiramente diferente, de modo que ficou muito difícil saber o que realmente havia acontecido. Houve uma grande aflição na cidade, porque as pessoas pensaram que o Brahmana queria ir embora, mas eles não queriam que isso ocorre. Eles tinham o orgulho de ter um homem santo, como pensavam, e que estava vivendo entre eles, e ficaram envergonhados em ver que havia sido roubado quando estava entre eles. Quando ouviram de que o Brahmana planejava jejuar até a morte, ficaram terrivelmente chocados, e se determinaram a fazer tudo o que pudessem para evitar isso. Um após outro, os pais de família de Saraswati vieram para vê-lo, implorando para não se apressar, garantindo que o seu tesouro seria reencontrado. Também disseram que fariam de tudo para trazê-lo de volta para ele. Alguns entre eles pensaram que tinha sido muito errado fazer tal confusão sobre isso, e assim o culparam pela sua miséria. Disseram que seria uma tolice muito grande, e que não deveria pensar em morrer, e um velho sábio, especialmente; então deram longos discursos para ele sobre o mal de retirar a vida, a qual tinha sido dada a ele por Deus, tendo em vista prepará-lo para um outro mundo. “Ponha esta idéia de jejuar até morte de lado em sua cabeça”, eles diziam, “... enquanto iremos procurar o seu tesouro que perdeu. Da próxima vez que tiver dinheiro e jóias, tenha num lugar bem seguro, em vez de ficar acumulando”.

Apesar de tudo que disseram para ele, o Brahmana estava determinado a morrer. Ele foi ao local de peregrinação que havia escolhido, não dizendo para ninguém aonde iria, seguindo firmemente. Num primeiro momento, alguns o seguiram, mas aos poucos foram deixando e ele ficou sozinho. Mas não pode deixar de ver um homem se aproximando dele, na direção em que estava indo. Era muito alto, elegante, aparência digna, uma pessoa que ninguém deixaria de admirar, ainda que fosse uma pessoa comum. Mas ele era o rei de toda aquela região, e cujo nome era Prasnajit; e a uma pequena distância atrás dele havia certo número de atendentes, esperando para obedecer as suas ordens. Todos, inclusive os Brahmanas, gostavam do rei, porque ele sempre tentava ajudar a todos. ele tinha ouvido sobre a perda do dinheiro daquele Brahmana, e tinha ficado abalado com o fato de ter ocorrido nas suas terras. Ele também escutara que o Brahmana pretendia matar-se, e isso o tinha tocado mais do que tudo, porque isso seria uma coisa muito ruim.

O rei colocou-se exatamente no caminho do Brahmana, de tal modo que não seria possível passar sem falar e vê-lo. O infeliz homem ficou parado, olhando para baixo, e com um olhar muito miserável. Sem esperar um momento, o rei Prashnaji disse para o Brahmana, “não se aborreça mais. Eu irei encontrar o tesouro para o senhor, e o trarei de volta; ou se eu falar nisso então pagarei o valor que quiser do meu próprio bolso; não posso pensar matando-se. Agora me diga, cuidadosamente, aonde escondeu o ouro e as jóias, e o local exato, para ter certeza dele?”

O Brahmana ficou alegre em escutar isso do rei, uma vez que todos conheciam que o rei cumpria a sua palavra, e que, mesmo no caso do tesouro não ser encontrado, ele teria todo o dinheiro de volta dado pelo rei. Então ele disse exatamente onde ele havia depositado, oferecendo-se de ir até lá. O rei concordou com ele; o Brahmana foi imediatamente até o grande buraco na árvore da floresta, e os seus servos o seguiram um pouco mais atrás.

Após o rei ter visto o buraco totalmente vazio, e saber exatamente o local, e ver a estrada próxima para a cidade, ele retornou para seu palácio. Antes, ele dissera para o Brahmana retornar para a sua casa onde vivia, e esperar lá até que recebesse uma mensagem dele. Então o rei pediu para um dos seus servos para que fosse até um rico mercante em Saraswati, para que fizesse uma boa comida para o Brahmana, tendo em vista suprir o homem santo com tudo o que ele necessitasse. Muito satisfeito, que apesar de tudo não precisaria morrer, o Brahmana seguiu de bom grado, e nos próximos dias ele foi cuidado pelo mercante, que o supriu com alimentos em abundância.

Tão logo Prasnajit retornou ao seu palácio, ele fingiu que havia adoecido repentinamente. Simulou que a sua cabeça estava doendo muito, e que não sabia qual o problema que tinha. Ele enviou uma ordem para toda a região e arredores da cidade, dizendo que todos os médicos de cidade viessem ao palácio para vê-lo. Então todos os médicos se apressaram em obedecer, cada um deles tendo a esperança de que se curassem o rei seriam grandemente recompensados. Havia tantos que a sala de recepção estava cheia, e se olhavam furiosamente uns para os outros, de modo que os servos mantinham o cuidado para que não brigassem. Cada um a seu tempo foi a sala privativa do rei, mas se desapontava em saber que não poderia ajudar o rei, porque não sabia o que precisava. O rei, em vez de perguntar sobre a sua própria doença, perguntava a cada um dos médicos quem dos seus pacientes na cidade estava doente, e que remédio havia dado para eles? Sem dúvida, a pergunta do rei era cuidadosamente respondida; mas o rei não dizia nada mais, apenas acenando a sua mão, dando sinal de que a entrevista havia terminado. Então os servos levavam o médico visitante fora. Por fim, se aproximou o último dos médicos, que disse algo o qual fez o rei mantê-lo mais longe do que os outros. Este médico era muito famoso por um remédio que havia salvado a vida do rei muitas vezes. Ele disse ao rei que um mercante chamado Matri-Datta estava muito doente, sofrendo muito, mas que tinha a esperança de curá-lo dando a ele um suco de uma determinada planta chama Nagaballa.

Assim que o rei escutou o médico terminar de falar, que havia ordenado Matri-Dattha tomar o suco da planta, ele gritou: “Não precisa mais nenhum médico vir me ver!” E após ter se despedido do último médico, deu ordem que queria que Matri-Datta viesse até o palácio. Doente e sofrendo como estava, Mattri-Dattha não teve coragem de desobedecer as ordens do rei. Tão logo ele apareceu, Prasnajit perguntou como estava, dizendo sentir muito o fato de ter que deixar a sua casa, estando doente, ma so motivo pelo qual desejava vê-lo era de grande importância. Então, ele acrescentou: “Quando seu médico lhe ordenou para tomar o suco da planta Nagaballa, quem foi procurar isso para você?” Mattri respondeu imediatamente, “Foi meu servo, ó rei; procurou na floresta, e assim que a encontrou entregou-a a mim”.

“Então volte e envie seu servo para mim imediatamente”, ele pediu; e assim o mercante saiu apressado, aflito pelo fato de o rei querer ver seu servo, e que não caísse uma desgraça sobre ele. Assim que Mattri-Datta disse para o seu servo de que deveria ir ao palácio do rei, ele ficou tremendo muito, e implorando ao seu mestre para não ir. Isso fez com que Mattri-Datta ficar certo de que ele havia feito alguma coisa errada, e que estava com medo de ser descoberto. “Vá imediatamente”, ele disse, “... e qualquer coisa que você fizer fale a verdade para o rei. O que será de você de ofender o rei”. E de novo o servo implorou para Mattri não insistir, mas quando viu que não seria bom, então pediu para que fosse junto com ele ao palácio, então defendê-lo diante de Prasnajit. Então o mercante pensou que alguma coisa séria e errada havia acontecido, consentindo em ir com o seu servo ao palácio; tendo certa curiosidade e certo temor por si próprio. Quando os dois chegaram ao palácio, os atendentes do rei conduziram o servo do mercante na presença do rei, mas não levaram o mercante com eles.

Entraram nos aposentos do rei e o viram sentado em seu trono, então o servo do mercante curvou-se diante do rei chorando e implorando: “Misericórdia! Misericórdia!”. Ele tinha razão de estar temendo, e o rei disse em voz alta para ele: “onde está o outro e as jóias que você pegou no buraco nas raízes da árvore, quando você foi buscar a erva Nagaballa para seu mestre?” O servo, que na realidade tinha pegado o dinheiro e as jóias, ficou tão terrificado pelo fato de o rei ter descoberto a verdade, que não teve palavra para dizer, ficando apenas deitado no chão, tremendo todo. Prasnajit também ficou em silêncio, e os atendentes aguardavam as ordens detrás do trono, observando, fascinados com o que estava acontecendo.

Quando o silêncio tinha durado cerca de 10 minutos, o ladrão ergueu a sua cabeça do solo e olhou para o rei, que não disse uma palavra. Alguma coisa em sua face fez o maldoso servo ter a esperança de que não seria punido com a morte, apesar do grande erro que havia cometido. O rei olhou muito severo para aquele servo do mercante, mas não se enfureceu contra ele. Então o servo levantou-se, e ponto suas mãos juntas, dizendo, trêmulo, as seguintes palavras: “Eu devolverei o tesouro; eu devolverei o tesouro”. “Vá, então”, disse o rei, “... e traga-o até aqui”. Dizendo isso, havia uma expressão magnífica nos seus olhos, que fez o ladrão envergonhar-se do que havia feito mais do que se o rei mandasse puni-lo ou cortar a sua cabeça.

Tão logo o rei disse, “Vá imediatamente!”, o servo apressou a sua caminhada, ansioso para devolver o que havia roubado; então alcançou o local onde escondera. Ele colocara em outro buraco, dentro da densa floresta; levando um longo tempo para levar para o palácio, uma vez que era muito pesado. Ele tinha a esperança de que o rei iria enviar alguns guardas, para que não fugisse, e então pudessem ajudar a carregar o ouro e as jóias, mas ninguém o seguira. Foi um árduo trabalho ter que carregar tudo aquilo, muito pesado. Por fim, já perto do início da noite, ele alcançou os portões do palácio. Os soldados o deixaram passar sem uma palavra, e tão logo alcançou a sala do rei, este o recebeu. Prasnajit estava sentado no seu trono, e os atendentes estavam atrás dele, quando o ladrão cansado, com dificuldades em ficar de pe, mais uma vez prostrou-se diante do rei. Uma expectativa de uns três minutos fazia com que o coração do servo, que havia pego o tesouro do Brahmana, batesse apressado. Parecia uma eternidade o tempo que aguardava o rei falar. Então, finalmente, o rei disse: “Vá para casa agora, e não furte mais”.

Muito agradecido, o homem obedeceu; era difícil acreditar que estava livre, e que pudesse ir, e que não havia sido punido de uma forma terrível. Jamais, pelo resto de sua vida, ele pegou qualquer coisa que não lhe pertencia, e nunca se esquecera de dizer para crianças e amigos que o rei havia lhe perdoado.

O Brahmana, que havia passado o tempo, aguardando em orações, que o tesouro fosse devolvido para ele, e de tal forma estava determinado a jejuar até a morte caso não fosse encontrado, ficou alegre ao saber de que o tesouro havia sido encontrado. Ele se apressou até o palácio, e foi diante do rei, que disse para ele: “Aqui está o seu tesouro. Pegue-o e faça um uso melhor dele do que antes. Se você o perder de novo, não tentarei recuperá-lo”.

O Brahmana, satisfeito por ter conseguido seu dinheiro e jóias de volta, não gostou do fato de o rei ter dito para que fizesse um melhor uso do tesouro. Além do mais, ele gostaria que o ladrão fosse punido, e começou a falar sobre isso, em vez de prometer para o rei e seguir o conselho recebido. O rei olhou fixo para o Brahmana, do mesmo modo como havia olhado o ladrão, e disse: “O assunto está encerrado aqui, então nada mais tenho a fazer sobre isso; vá em paz”.

O Brahmana, que estava acostumado a ser honrado por todos, desde o rei em seu trono até o mendigo mais pobre na rua, ficou atônito com o modo pelo qual o rei fez um sinal para seus atendentes levarem o saco com as jóias, e o dinheiro, para a entrada do palácio, e o deixar ali; ninguém ficou para ajudar o Brahmana.

Todos gostariam se saber o que aconteceu com aquele Brahmana depois disso, mas ninguém sabe o porquê de não se ouvir nada mais sobre ele depois deste acontecimento.

Nota:
Locais de Peregrinação
Os locais de peregrinação na Índia estão geralmente conectados com algum grande evento religioso ou religião. Nestes locais vão aqueles que desejam ganhar algum favor especial de Deus, e fazem orações. A palavra “peregrinação” significa “perambular”, mas com o passar do tempo ela significa qualquer viagem de uma distância a outra. Na Índia, a cidade de Benares (Varanasi) é um local muito famoso de peregrinação, porque está nas margens do Rio Ganga (Ganges), rio que os Hindus amam e adoram como sagrado, crendo firmemente que as suas águas lavam seus pecados. Centenas de milhares de Hindus vao até Varanasi todos os anos para se banhar no Ganges, bem como se sabe que muitos vão para lá para morrer, sendo que seus corpos são queimados nas margens. Este é um costume dos Hindus, e as cinzas dos que são cremados são jogadas nas correntezas do rio.

Hari Om Tat Sat