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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Barbarik, o mais poderoso guerreiro conhecido

Barbarik, o mais poderoso guerreiro conhecido

Histórias do Mahabharata
tradução e adaptação de 

Swami Krsnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Gita Ashrama – outono de 2017

Barbarika doa sua cabeça para Krishna
fonte: Wikipedia



Exórdio
“Está escrito”.
Nenhuma sentença é tão verdadeira como essa: “Está escrito!”. Na Filosofia da Linguagem, há uma ocupação com o sentido de uma expressão, mas na visão étimo-filológica, há uma ocupação com o sentido e origem de uma palavra, a qual nos revela o quanto uma palavra é importante. Algo diferente do que conhecemos como “etimologia”. Alguém pode achar que essa colocação é poética, mas o leitor saberá perfeitamente compreender que uma palavra pode causar mais danos que um soco. Por que será? Ora, se há uma perfeita definição de ser humano essa é, sem dúvida, a sua capacidade de fala, e a capacidade de expor a consciência através dela. Fala é “exteligência”, ou seja, ao contrário da “inteligência”, que significa “colocar para dentro”; a fala é o ato “exteligente” de manifestar o pensamento e a consciência de alguém. A escrita por fim, o seu corolário humano.

Seguindo com os textos épicos indianos, o texto a seguir nos apresenta a verdadeira origem étimo-filológica da palavra “bárbaro”, e suas palavras derivadas. Não causa espanto naquele filólogo e linguista que estuda as raízes das línguas “hindu-europeias”, mas nos deslumbra a importância da limitação ideológica, que no mais das vezes, tenta levar as palavras para os conceitos limitados de uma visão comprometida com juízos de valor egoicista. Felizmente, o estudo e despojamento ideológico de uma investigação limpa, e despojada de segunda intenções, nos mostra que temos muito, mas muito mesmo, para aprendermos com as antigas culturas que deram início à nossa. Mitos, crenças, palavras, hábitos e costumes que possuímos e temos, provavelmente, têm uma origem num passado distante que sequer sabemos de onde vêm. Mas as palavras nos dão as pistas.

Ahilawati abençoa as armas
recebidas de Shiva
Barbarik
Barbarik era neto de Bhima, e filho de Ghatotkacha. Tendo aprendido a arte da guerra com sua mãe, Ahilawati ou Maurvi (lê-se mauruí) uma poderosa rakshasa. Desta forma, Barbarik tornou-se um dos guerreiros mais corajosos de seu tempo. Contente com seus talentos e austeridades, o Senhor Shiva concedeu-lhe três flechas especiais, e um arco especial de Agni, o deus do fogo.

Diz-se que Barbarik era tão poderoso que a guerra do Mahabharata poderia terminar em 1 minuto, se só ele fosse lutar contra ela.

A história é assim:
No início da grande guerra (Mahabharata), o Senhor Krishna perguntou a todos quanto tempo levaria para terminar a batalha, se eles lutassem sozinhos contra o inimigo.
Bhisma disse que levaria 20 dias; Dronacharya disse 25 dias; Karna pediu 24 dias e Arjuna afirmou que levaria 28 dias para terminar a batalha.

Ansioso por assistir à guerra, Barbarik perguntou a sua mãe se ele poderia ir ao campo de batalha. Sua mãe concordou, mas perguntou a ele de que lado ele escolheria, se ele lutasse na batalha. Barbarik prometeu a sua mãe que ele iria se juntar ao lado que era mais fraco. Dizendo isto, ele viajou para visitar o campo de batalha.

Ouvindo o interesse de Barbarik pela guerra, Krishna decidiu testar sua força, e apareceu diante dele disfarçado de brâmane. Krishna lhe fez a mesma pergunta: se Barbarik lutasse sozinho na batalha contra o inimigo, quantos dias levaria para terminar a guerra.

A resposta de Barbarik foi, de 1 minuto!

Shiva medita, enquanto Krsna o saúda.
Surpreendido com a resposta, especialmente quando Barbarik tinha apenas três flechas e um arco na mão, Krishna questionou sua resposta. Barbaric explicou o poder de suas armas:

· A primeira seta indicaria todos os objetos que Barbarik queria destruir.
· A segunda seta indicaria todos os objetos que Barbarik queria salvar.
· A terceira seta irá destruir todos os objetos marcados pela primeira seta OU destruir todos os objetos não marcados pela segunda seta.

E no final disto, todas as setas retornariam a aljava. Krishna, ansioso para testar isso, pediu a Barbarik que amarrasse todas as folhas da árvore em que estava. Quando Barbarik começou a meditar para realizar a tarefa, Krishna tirou uma folha da árvore e colocou-a debaixo do pé, sem o conhecimento de Barbarik. Quando Barbarik soltou a primeira flecha, a flecha marcou todas as folhas da árvore, e começou a girar em torno dos pés do Senhor Krishna.

Krishna perguntou a Barbarik por que a flecha estava fazendo isso? E Barbarik respondeu-lhe que deveria ter uma folha sob seus pés, e pediu que Krishna levantasse sua perna. Assim que Krishna ergueu a perna, a flecha também marcou a folha restante.

Este incidente preocupou o Senhor Krishna sobre o poder fenomenal de Barbarik com as flechas, sendo verdadeiramente infalíveis. Krishna também percebeu que no campo de batalha real, uma vez que queria isolar alguém (por exemplo, os 5 Pandavas) do ataque de Barbarik, então percebeu que não seria capaz de fazê-lo, já que mesmo sem o conhecimento de Barbarik, a seta iria adiante e destruiria o alvo, se Barbarik assim o pretendesse.

Krishna perguntou a Barbarik, de que lado ele estava planejando lutar na guerra? Barbarik respondeu que, uma vez que o Exército Kaurava era maior do que o Exército dos  Pandavas, e por causa desta condição, ele havia concordado com sua mãe que lutaria por estes. Mas o senhor Krishna explicou o paradoxo da condição, uma vez que tinha concordado com sua mãe, uma vez que ele era o maior guerreiro no campo de batalha, assim, o lado que se juntaria faria o outro lado mais fraco. Então, eventualmente, ele iria acabar oscilando entre os dois lados e destruir todos, exceto ele mesmo.
Assim, Krishna informou Barbarik a real consequência da palavra que ele tinha dado a sua mãe. Krishna (ainda disfarçado como um brâmane) pediu a cabeça de Barbarik em caridade, para evitar seu envolvimento na guerra. Depois disso, Krishna explicou que era necessário sacrificar a cabeça do maior Kshatriya, para adorar o campo de batalha, e que ele considerava Barbarik como o maior Kshatriya daquele tempo.

Antes de dar a cabeça, Barbarik expressou seu desejo de ver a batalha de perto, a que Krishna concordou, colocando a cabeça de Barbarik sobre a montanha que dominava o campo de batalha. No final da guerra, os Pandavas discutiam entre si qual era a maior contribuição para sua vitória. Krishna sugeriu que a cabeça de Barbarik deveria ser autorizada a julgar isso, uma vez que assistira à guerra inteira.

A cabeça de Barbarik disse-lhes de que somente Krishna era o responsável pela vitória na guerra; foram os conselhos de Krishna, sua estratégia e sua presença, elementos cruciais na vitória dos Pandavas.

Fontes: Quora
Wikipedia: Barbarika

https://en.wikipedia.org/wiki/Barbarika

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conexão da realeza da Coréia com Ayodhya

Conexão da realeza da Coréia com Ayodhya
Tradução e adaptação de
Swami Krsnapriyananda Saraswati – Olavo DeSimon
Porto Alegre, outono 2017



Prólogo

“Na era dourada da Ásia,
A Coréia foi um dos seus porta-lâmpadas
E a lâmpada está à espera de ser
Acesa, mais uma vez, para a
Iluminação do Leste”.

Rabindranath Tagore

As histórias dos tempos védicos tornam-se, a cada dia, reais e irrefutáveis. Textos épicos como o Ramayana e o Mahabharata dão pistas históricas fidedignas, e ponto de serem comprovadas por arqueólogos da atualidade. Conta-se no Ramayana, que no final da guerra, o povo rakshasa, aliados de Ravana, o tirano governante da época, fizeram um pacto clamando por misericórdia. Sri Rama, então, concedera-lhes as terras ao norte e nordeste da Índia, com a promessa que jamais voltariam a meter-se em guerras com o povo ariano, sob pena de serem destruídos sem piedade, e que fossem guardiões dos princípios religiosos védicos, os quais emergirão no final da Kali-yuga (atual era em que vivemos). Sim, está tudo nos textos antigos, e o conteúdo é tão real que poderíamos dizer que falam de tempos atuais. Quem viver verá; não são simples profecias, mas a história da humanidade, a qual nós ainda apenas temos algum esboço, está contada nos textos védicos.
O que é falado a seguir (de modo muito sumário), reúne as histórias do Ramayana e a realidade do mundo atual. São cientistas e pesquisadores de renome, mergulhados por incansáveis décadas de estudos, experimentos e trabalho de campo. O leitor está convidado a seguir com a pesquisa. Afinal, todos somos herdeiros dos tempos védicos.

Simbologia védica
O símbolo com peixes gêmeos, que hoje sinaliza o estado de Uttar Pradesh, é encontrado geralmente em antigos edifícios de Ayodhya, constituindo-se numa pista a mais na grande à ligação, e à rota empreendida, na realeza de Kaya (Kara-Gaya) a Coreia, e, também, o Japão.
No Atharva Veda, a chamada Ayodhya, é dita como sendo, "uma cidade construída por devas,  tão próspera como o paraíso em si".
Ligações entre a Índia e a Coréia não estão apenas nas modernas relações comerciais atuais, com nomes de empresas como LG, Hyundai e Samsung, fazendo suas presenças sentidas na Índia. Em 48 antes da era atual, a rainha Suro ou a princesa Heo Hwang-ok, é dito ter feito uma viagem ao lugar de nascimento do senhor Rama para a Coreia pelo mar, carregando uma pedra que acalmou as águas.
A pedra que foi levada pela então princesa, não é encontrada em qualquer lugar na Coréia, sendo agora parte arqueológica da evidência crucial de que a princesa pertenceu à cidade de Ayodhya, na Índia. "Esta pedra é encontrada apenas na Índia, prova de que foi trazida à Coreia", disse Song Weon Young, arqueólogo da cidade de Kimhae, cidade próxima à grande cidade industrial de Pusan.
As pessoas de Kimhae ficaram tão fascinadas por essas ligações, que eles começaram a investigar sobre o fato, há vários anos. Elas, também, encontraram um símbolo do reino Kaya, com dois peixes face a face, semelhante ao da família real de Mishra, em Ayodhya.
E na principal cidade budista de Kimhae, a questão de Ayodhya tornar-se agora o epicentro de uma divisão religiosa, está sendo perturbador: "Estou ciente do problema e sinto pena que Ayodhya seja uma cidade tão volátil", disse um residente de Kimhae.

Ligações dinásticas
Dizem que a princesa deu à luz 10 crianças, que marcaram o início da poderosa dinastia de Kimhae Kims. Kim Dae Jung, um ex-presidente, também pertence ao mesmo nome de família. Mas mesmo no centro dessas ligações, está um forte sentimento de troca comercial entre a Coréia e a Índia.
A pedra (de Ayodhya) representa a herança cultural de Kaya que não permaneceu em um só lugar, e ela indica que a troca comercial sempre ocorreu, desde que a rainha veio da Índia para a Coréia.
Milhares de milhas distantes de Ayodhya, a pedra é um pequeno pedaço de história. As pessoas na cidade parecem estar muito orgulhosas de suas ligações com a Índia, especialmente porque a rainha Suro deu origem à dinastia Kim, um poderoso nome de família no país.
No Indian Express, do dia 21 de janeiro de 2010, correu a seguinte história:
Professor Emérito da Universidade de Hanyang, e arqueólogo nacional da Coréia, o Prof. Byung Mo Kim compartilhou uma "conexão genética" com Ayodhya.:"Compartilho meus genes com a família real de Ayodhya. Viajantes de ambos os países não apenas mercadorias comercializadas, mas também genes. E eu sou da dinastia Kara, cuja primeira mulher foi a princesa de Ayodhya, que se casou com o primeiro rei Kara. Seus irmãos passaram a se tornar os Reis de Ayodhya e, é assim, que eu estou geneticamente conectado à cidade santa", disse o professor Kim.
O arqueólogo, cujo trabalho sobre a princesa de Ayodhya casar com o príncipe da dinastia Kara, da Coréia, no século IV antes da era atual, recebeu um reconhecimento generalizado, e está em sua quinta visita à cidade santa indiana, em busca de mais evidências para seu estudo. Em uma visita de três dias ao estado, ele não só visitou Ayodhya, mas também fez uma apresentação de slides sobre evidências históricas dos laços culturais entre Ayodhya e a Coréia, ao ser convidado pelo governo de Ayodhya Shodh Sansthan. "A rainha da maior dinastia da Coréia Hoh era a filha de Ayodhya e, dessa forma, Ayodhya é como nossa cidade-mãe. A princesa Ho viajou pela rota do mar e casou o rei Kim Suro da dinastia de Kara. Ele foi o primeiro rei, e todo o clã Kara, que compreende cerca de dois terços da população da Coréia, são seus descendentes ", disse o professor Kim.

As evidências antropológicas e arqueológicas
O símbolo dos peixes gêmeos, que é o símbolo do estado de Uttar Pradesh, e é encontrado em quase todos os edifícios antigos de Ayodhya, é a maior pista para a ligação e o percurso empreendido pela Princesa Hoh, diz o professor:  Tenho evidências pictóricas. O símbolo de peixe gêmeo é originalmente dos estados do Mediterrâneo, e viajou para esta parte do mundo, e se estabeleceu em torno de Lucknow. Mas o símbolo do peixe gêmeo também pode ser visto em edifícios antigos no Nepal, Paquistão, China e Japão,  e no portão do túmulo real do rei Suro em Kimhae, cidade na Coréia ", disse o professor Kim.
Mas, não é esta conexão por si só que trouxe o arqueólogo à Índia. Ele também busca uma ligação cultural entre Ayodhya em Uttar Pradesh, e Kimhae, cidade na Coréia. "Durante os últimos 40 anos, eu tenho traçado a rota tomada pela princesa entre Ayodhya e a cidade de Kimhae, e depois de cinco visitas, tenho todas as evidências para conectar culturalmente as duas cidades."
Quase seis anos atrás, o governo coreano tinha declarado Ayodhya como a cidade irmã da Coréia, e um monumento na memória da Princesa Hoh também foi estabelecido na cidade. "O clã Kara é a maior comunidade da Coréia, e gostamos de visitar o lugar de nossa rainha mãe. Através dessas visitas, estamos tentando conversar com o governo do Uttar Pradesh, para abrir suas portas para o fortalecimento das relações culturais entre os dois países", disse Kim.
Ayodhya Shodh Sansthan, diretor Y P Singh, disse que o departamento de cultura do Estado está fazendo todos os esforços para ajudar os coreanos encontrar os seus elos em falta. "Através dessas interações, fomos capazes de encontrar novas facetas de Ayodhya e agora além de ser o lugar de nascimento do Senho Rama, a cidade tem outro significado anexado", disse Singh.

O símbolo budista dos peixes
Os pares de Shachihoko, gárgula-como a carpa, aparecem frequentemente em extremidades opostas do cume de um telhado de um castelo, para simbolizar a diligência e o êxtase. Há também uma associação da fertilidade com este par, desde que um peixe é macho, e o outro, fêmea.
No Japão, o peixe significa bem-estar, felicidade e liberdade. É um dos oito símbolos auspiciosos usados ​​no budismo importado da China. O peixe simboliza viver num estado de destemor, sem perigo de se afogar no oceano dos sofrimentos e migrar de um lugar para outro de forma livre e espontânea.

Sabendo mais (italiano): Haneulcorea
Tagore e a Coréia: Tagore and Korea (pdf) por Kim Yang-shik


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O continente perdido de Kumari Kandam

O continente perdido de Kumari Kandam
“O lugar de onde quase todos viemos”

Krsnapriyananda Swami - Olavo DeSimon
Verão 2017



Vez ou outra aparecem notícias da descoberta de um continente perdido sob o Oceano. Recentemente, um grupo de pesquisadores australianos e neozelandeses trouxeram-nos a notícia de um continente submerso, um oitavo, conforme eles referem, denominando-o de Zelândia. Esse gigantesco continente ligaria a Austrália à Nova Zelândia, porém está todo embaixo do mar.
Por outro lado, a maioria das pessoas têm familiaridade com a história de Atlântida, a lendária cidade descrita pelo antigo filósofo grego, Platão. Apesar disso, nos dias de hoje, as opiniões se dividem se aquela história sobre o continente perdido deve ser entendida literalmente ou como meramente um conto moral. Mais ao Leste, no subcontinente da Índia, existe um conto semelhante, apesar de ser, provavelmente, menos conhecido em comparação ao de Atlântida. Este continente perdido na Índia conecta-se, frequentemente, com a lenda de Kumari Kandam, sendo contada na linguagem Tamil.
O termo “lemúria”, tem suas origens a partir da última parte do século XIX. O geólogo inglês, Philip Sclater, ficou intrigado com a presença de fósseis de lêmures em Madagascar e na Índia, mas não na África continental e nem no Oriente Médio. Desta forma, no seu artigo de 1864, intitulado “Os Mamíferos de Madagascar”, Sclater propôs que Madagascar e a Índia faziam parte de um continente maior, e chamando-a de Lemúria a essa terra que havia desaparecido. A teoria de Sclater foi aceita pela comunidade científica daquele período, com a explanação de que os lêmures poderiam ter emigrado de Madagascar à Índia ou vice-versa, em épocas antigas. Com o surgimento dos conceitos atuais de “deriva continental e tectônica de placas”, no entanto, a proposição de Sclater, de um continente submerso, não era mais sustentável. No entanto, a ideia de um continente perdido se recusou a morrer, e alguns ainda acreditam que Lemúria era um continente real que existia no passado.
Trecho em Sânscrito do Skanda Purana
Entre os que acreditam no antigo continente estão os residentes Tamil. O termo, “Kumari Kandam”, apareceu pela primeira vez no século XV, na versão Tamil do Skanda Purana, chamada “Kanda Purana”. Contudo, as histórias sobre uma terra antiga, de uma terra submersa pelo Oceano Índico, foram gravadas em muitas obras literárias anteriores em Tamil. De acordo com as histórias, havia uma porção de terra que fora governada pelos reis Pandiyan e foi engolida pelo mar. Quando as narrativas sobre a Lemúria chegaram na Índia colonial, o país estava passando por um período em que o folclore estava começando a permear o conhecimento histórico com os fatos. Como resultado, Lemuria foi rapidamente equiparada a Kumari Kandam.
Pelo povo Tamil, a lenda de Kumari Kandam não é considerada apenas uma história, mas parece estar carregada de sentimentos nacionalistas. Alegou-se que os reis Pandiyan, de Kumari Kandam, eram os governantes de todo o continente indiano, e que a civilização de Tamil é a civilização mais velha no mundo. Quando Kumari Kandam foi submerso, seu povo se espalhou pelo mundo e fundou várias civilizações, daí a alegação de que o continente perdido também foi o berço da civilização humana.
Então, quanta verdade há na história de Kumari Kandam? De acordo com pesquisadores do Instituto Nacional de Oceanografia da Índia, o nível do mar foi menor em 100 m há cerca de 14.500 anos, e em 60 m há cerca de 10 mil anos. Assim, é perfeitamente possível que existisse uma vez uma ponte terrestre que ligasse a ilha de Sri Lanka à Índia continental. Como a taxa de aquecimento global aumentou entre 12.000 e 10.000 anos atrás, o aumento do nível do mar resultou em inundações periódicas. Isso teria submergido assentamentos pré-históricos que estavam localizados em torno das áreas costeiras baixas da Índia e do Sri Lanka. Histórias desses eventos catastróficos podem ter sido transmitidas oralmente de uma geração para outra e, finalmente, escrito como a história de Kumari Kandam.
Ponte de Rama.
Uma das evidências usadas para sustentar a existência de Kumari Kandam é a Ponte de Rama (também chamada Ponte de Adão), uma cadeia de pedra calcária, composta de areia, limo e pequenos seixos, localizada no Estreito de Palk, estendendo-se 18 milhas da Índia continental até o Sri Lanka. Esta faixa de terra foi uma vez considerada uma formação natural, no entanto, outros argumentam que as imagens tiradas por um satélite da NASA retratam que esta formação de terra trata-se de uma longa ponte quebrada, agora abaixo da superfície do Oceano.
A existência de uma ponte nesta posição é suportada, igualmente, por uma outra legenda antiga. O Ramayana conta a história de Sita, a esposa de Rama, sendo mantida em cativeiro na ilha de Lanka. Rama encomendou um enorme projeto de construção para construir uma ponte para transportar seu exército de Vanara (homens macacos) através do oceano para Lanka.

Tal como acontece com a maioria dos chamados mitos, parece provável que exista, pelo menos, alguma verdade nas antigas lendas dos Tamil de Kumari Kandam, mas há ainda o quanto se está por determinar.

Fontes

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O que é hinduísmo



O que é Hinduísmo

SATGURU SIVAYA SUBRAMUNIYASWAMI

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA

Tradução, adaptação e comentários por 

SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI
Prof. Olavo DeSimon



"... as três crenças centrais para todos os hindus são o Karma, a Reencarnação, e a crença numa divindade todo-interpenetrante, formando o essencial da religião quotidiana, explicando nossa existência passada, guiando nossa vida presente, e determinando nossa futura união com Deus".

1. O que é o Hinduismo?
O hinduísmo é a religião mais antiga ainda existente, e o sistema cultural da Índia, seguida hoje por cerca de 2,5 bilhões de pessoas, principalmente na Índia, ainda que com grandes populações em outros países. Também chamada de Sanatana Dharma, a religião dos Vedas, o Hinduísmo açambarca um amplo espectro de filosofias que variam desde o pluralismo teísta até o monismo absoluto. Há uma família de miríades de fés, com quatro denominações principais: Saivismo, Vaishnavismo, Sahaktismo e Smartismo. Cada um destes quatro possuem crenças divergentes, o que faz cada um possuir uma religião completa e independente. Ainda assim, compartem uma vasta herança de cultura e crenças: o karma, o dharma, a reencarnação, a divindade onimpregnante, a adoração no templo, os sacramentos, a pluralidade de deidades, os muitos yogas, a tradição Guru-siksha, e uma dependência dos Vedas como autoridades escriturais. Do rico solo da Índia, faz muito tempo, brotaram outras tradições. Entre estas estão o Jainismo, o Budismo, e o Sikhismo, que rechaçaram os Vedas, e, portanto, emergiram como religiões completamente distintas, dissociadas do hinduísmo, ainda que compartilhem muitas intuições filosóficas e valores culturais com sua fé mãe. Não distinto das demais religiões do mundo, o Hinduísmo não possui uma chefatura central. Com exceção do Catolicismo, muitos Cristãos, judeus, muçulmanos, nem os budistas, a possuem também. Há muitos representantes e são secretários de várias denominações. O hinduísmo, neste sentido, não é diferente no mundo de hoje. Ele teve muitos fundadores no passado, e o terá no futuro de suas seitas, de sua linhagem de ensinamentos, cada um encabeçado por um "pontífice". Pois se admite que há alguns seres espirituais (Acharyas) ao redor dos quais todos se congregam para iluminação e consolo, e que hão renunciado ao sectarismo, linhagem e formalidades, pelo Ser e toda a sua grandeza que contém. Os críticos costumam chamar o hinduísmo de uma religião não organizada. De certo modo, eles têm razão.

2. - Hinduísmo é legítimo
O cristianismo e o Islamismo governaram a Índia, a pátria central do hinduísmo, por 1.200 anos, desgastando enormemente Sua perpetuação. Mesmo assim sobreviveu. No mundo de hoje, pode-se dizer que o Hinduísmo é uma religião desorganizada, mas está melhorando diariamente. Há templos e organizações ativas ao redor do mundo. Qualquer que sejam as suas falhas, se mantêm vivos os fogos do Sadhana e da renúncia, de uma vida espiritual. Nenhuma outra fé há feito isto com tal amplitude. O hinduísmo possui cerca de um milhão de Swamis, Gurus, e Sadhus, que trabalham de modo incansável, dentro e sobre si mesmos, e então, quando estão prontos, servem aos outros conduzindo-os da obscuridade à luz; da morte para a imortalidade.

3. O que faz alguém um hindu?
Durga-devi
Em nossa discussão sobre a conversão hindu surge claramente a questão de como o hinduísmo tem visto isto historicamente. Segundo, o que é, e exatamente, o que faz uma pessoa hindu? Nos aproximaremos primeiro desta última questão. Para aquele que nasceu hindu, a questão de entrar no hinduísmo pode lhe parecer desnecessária, porém, por definição, o hinduísmo é um caminho de vida, uma cultura, tanto religiosa como secular. O hindu não costuma pensar que a sua religião é um sistema claramente definido, distinto e diferente dos outros sistemas, por isso, se ocupa na sua vida de modo natural. Sua religião açambarca tudo na vida. Em parte, esta visão, pura e simplesmente, prove o relativo afastamento que as comunidades hindus desfrutaram por séculos, com pequenas interações de fés estrangeiras, para iluminar a unicidade do hinduísmo. Algo mais que isto, se há feito com a qualidade todo abrasadora do hinduísmo que aceita as muitas variações de crenças e práticas dentro de si mesma. Porém, esta visão ignora as verdadeiras distinções entre estes caminhos de vida e aqueles caminhos de outras grandes religiões do mundo. Isto não nega que o hinduísmo é, ademais, uma religião mundial distinta. Aqueles que seguem este caminho de vida são hindus. Isto é similar à história do Mahabharata, onde o grande rei Yudhistira foi interrogado: “- O que é que faz alguém um brahmin, nascimento, instrução ou a conduta?”, o qual respondeu, “- É a conduta que faz alguém um brahmin”. Similarmente, o hindu moderno pode bem declarar a sua conduta baseada nas crenças no Dharma, Karma, e reencarnação, as quais une os hindus. Além do mais, poderíamos refletir: não será um grande devoto aquele que está cheio de amor e fé no seu coração pelo seu Ishta-devata, e que vive o Dharma hindu melhor que seu agnóstico vizinho hindu, ainda que o primeiro tenha nascido na Indonésia ou na América do Norte, e o segundo em Andra Pradesh? Sri K. Navaratnam de Sri Lanka, devoto de Paramaguru Siva Yogaswami, por mais de 40 anos, em seu livro Estudos no Hinduísmo, cita o livro de Introdução ao Estudo das Escrituras Hindus: “Os hindus são aqueles que aderem a tradição hindu, de tal modo que eles estão devidamente qualificados para tal realidade efetivamente, e não simplesmente numa forma ilusória e exterior; os não hindus, pelo contrário, são aqueles que por razão for, não participam da tradição em questão”. Sri Krishna Navaratnam enumera uma série de crenças básicas sustentadas pelos hindus:

4. Crenças Hindus

  • 1. Uma crença na existência de Deus;
  • 2. Uma crença numa alma separada do corpo;
  • 3. Um crença no princípio finito, conhecido como Avidya ou Maya;
  • 4. Uma crença no princípio da matéria - Prakriti ou Maya;
  • 5. Uma crença na teoria do Karma e a reencarnação;
  • 6. Uma crença na guia indispensável de um guru para guiar o aspirante espiritual até a direção da realização de Deus;
  • 7. Uma crença em Moksha, a liberação como meta da existência humana.
  • 8. Uma crença na indispensável necessidade de adoração no templo, na vida religiosa;
  • 9. Uma crença em formas graduadas de práticas religiosas, tanto internas como externas, até que se realize Deus;
  • 10. Uma crença no Ahimsa, como o mais precioso Dharma ou virtude;
  • 11. Uma crença na pureza mental e física, como fatores indispensáveis para o progresso.

Sri Sri Sri Jayendra Sarasvati, 69º Shankaracarya de Kamakoti Pitam, define num de seus escritos as características básicas do Hinduísmo, tal como segue:

5. Sinais da fé

  • 1. O conceito da adoração do ídolo, e da adoração de Deus tanto em sua forma Nirguna como Saguna (com ou sem forma, respectivamente);
  • 2. O uso de marcas sagradas na testa;
  • 3. A crença na teoria dos nascimentos passados e futuros, de acordo com a teoria do Karma;
  • 4. A cremação do homem comum e o enterro do Grande Homem.

6. Fé Hindu
Menina indiana é vestida como o Senhor Krishna quando criança.
Um artigo no Hindu Vishva (Janeiro/Fevereiro, 1986), cita-se várias definições comuns, incluindo a que segue: “Aquele que possui um fé perfeita na lei do Karma, a lei da reencarnação, o Avatara, a adoração ancestral, o Varnashramadharma, os Vedas e a existência de Deus, que pratica as instruções dadas nos Vedas com fé e sinceridade, que executa Snana, Sraddha, Pritri-tarpana, e o Pancha Mahayajñas, que segue o Varnashram-dharmas, que adora os Avataras e estuda os Vedas, é um hindu”. A definição oficial de hindu, do Vishva Hindu Parishad, presente no Memorandum da Associação, regras e regulamentos (1996) é: “Hindu significa uma pessoa que crê, segue ou respeita os eternos valores da vida, éticos e espirituais, que hão surgido em Bharat Índia -, e inclui qualquer pessoa que se chama a si mesma de hindu”. Nas definições dadas acima, e em outras, as três crenças centrais para todos os hindus são o Karma, a Reencarnação, e a crença numa divindade todo-interpenetrante, formando o essencial da religião quotidiana, explicando nossa existência passada, guiando nossa vida presente, e determinando nossa futura união com Deus. Isto está manifesto em que, pela difusão de tais crenças hoje, um grande número de não hindus, previamente qualificados, se declaram a si mesmos hindus, porque muitos creem no Karma, Dharma, e Reencarnação, e se esforçam para ver Deus em todos os lados, possuem algum conceito de Maya, reconhecem a alguém como seu guru, respeitam a adoração do templo, e creem na evolução da alma. Muitas destas crenças são heréticas na maioria das outras religiões, especialmente para as religiões cristãs e judias, e aqueles que creem no Karma e a reencarnação, e na união com a Divindade desenvolveram-se mais além dos limites da religião ocidental.


Om tat sat

No que creem a maioria dos hindus



SATGURU SIVAYA SUBRAMUNIYASWAMI

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA

Tradução, adaptação e comentários por 

SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI

Prof. Olavo DeSimon





As nove crenças do Hinduísmo


  • 1. Os Hindus creem na divindade dos Vedas, as mais antigas Escrituras do mundo, e veneram aos Ágamas, como igualmente livros desvelados. Estes hinos primordiais são a palavra de Deus, e o fundamento do Sanatana-dharma, a religião eterna, que não possui princípio e nem fim;
  • 2. Os Hindus creem num único, onipenetrante, Ser Supremo, que é tanto transcendente como imanente; criador e Realidade Imanifestada;
  • 3. Os Hindus creem que o universo passa por ciclos sem fim, de criação, preservação e dissolução;
  • 4. Os Hindus creem no Karma, na lei de causa e efeito, pela qual cada indivíduo cria o seu próprio destino, segundo seus pensamentos, palavras e ações;
  • 5. Os Hindus creem que a alma reencarna, evolucionando através de muitos nascimentos, até que todos os Karmas tenham sido resolvidos; e em Moksha, conhecimento espiritual e liberação do ciclo de nascimentos e mortes, que é alcançada na liberação do Karma. Nenhuma alma será eternamente privada deste ciclo;
  • 6. Os Hindus creem na existência de seres divinos em mundo invisíveis aos olhos comuns, e que a adoração no templo, rituais, e sacramentos, assim como a devoção pessoal, cria uma união com estes Devas ou “deuses”;
  • 7. O Hindus creem que um Mestre espiritual, ou Satguru, é essencial para conhecer o Absoluto Transcendente, tanto como o é a disciplina pessoal, a boa conduta, a purificação, a peregrinação, a indagação do Ser Supremo, e a meditação;
  • 8. Os Hindus creem que toda a vida é sagrada, e deve ser amada e reverenciada, e por isso praticam o Ahimsa ou não violência, sendo vegetarianos, no mais das vezes, e,
  • 9. Os Hindus creem no que não há uma religião em particular que ensine o único caminho de salvação a custa de todos os outros, senão que todos os caminhos religiosos genuínos são facetas do Amor Puro, e Luz de Deus, merecendo todas a tolerância e compreensão. 

As cinco obrigações de todos os Hindus






  • 1. Adoração – Upasana: aos jovens hindus é ensinado a adoração diária na família: rituais, disciplinas, cantos, Yoga e estudos religiosos. Eles aprendem a ficar a salva do mundo moderno (consumista), através da devoção na própria casa e no templo, a usar as vestes tradicionais e devocionais, dando a luz do amor pela Deidade, e preparando a mente em serena meditação;
  • 2. Dias sagrados – Utsava: aos jovens hindus se ensina a participar de festivais hindus nos dias sagrados, tanto na casa como no templo. Eles aprendem a ficar felizes através da doce comunhão com Deus em tais celebrações auspiciosas. Utsava inclui o jejum, atender o templo, nas segundas ou nas sextas-feiras, e em outros dias sagrados;
  • 3. Vida Virtuosa – Dharma: aos jovens hindus é ensinado a viver uma vida de dever e boa conduta. Eles aprendem a ser não-egoístas, e a pensarem nos outros em primeiro; ser respeitosos com os pais, os mais velhos, para com os Swamis, seguindo a lei divina, especialmente respeitando o Ahimsa; não causando danos a nenhum ser, seja mental, emocional ou fisicamente. Assim eles resolvem o problema dos seus Karmas;
  • 4. Peregrinação – Tirthayatra: os jovens são ensinados do valor da peregrinação, e são levados pelo menos uma vez por ano ao Darshana de pessoas santas, templos e lugares, próximos e longe de suas casas. Eles aprendem a ser desprendidos dos assuntos mundanos, e fazer de Deus, os semideuses, e os Gurus, foco de vida singular durante esta jornada;
  • 5. Ritos de passagem – Samskaras: os jovens são ensinados a observar os sacramentos que marcam e santificam as passagens através a vida. Eles aprendem a ser tradicionalistas, e a celebrar os ritos de nascimento, entrega de nomes, raspagem da cabeça, primeira alimentação, perfuração das orelhas, primeira aprendizagem, chegada da idade, matrimônio e morte.


Características inalienáveis de um Hindu 






O Hinduísmo é uma religião de características iniciáticas. Portanto, para que alguém ingresse formalmente nele deverá ser iniciado por um Guru ou mestre espiritual. Não existe uma outra maneira. Todo aquele que pretende ingressar no Hinduísmo deverá submeter-se aos processos de iniciação em cerimônias realizadas por Brahmanas qualificados. De outro modo, não terá nenhuma validade e não será considerado Hindu.


  • 1. TODO o Hindu praticante deverá ter um nome espiritual, recebido numa cerimônia védica chamada Namakarana-Samskara (e não se trata de uma translineação do nome de registro civil para os caracteres em sânscrito, ou tradução para o sânscrito; bem como autointitulado pela própria pessoa);
  • 2. TODO o Hindu deverá estar engajado numa corrente de pensamento, ordem, seita, etc., segundo, os princípios Sivaístas, Vaishnavas, Shaktistas, Deviístas, etc.
  • 3. TODO o Hindu deverá ter um mestre espiritual ou Guru ou preceptor ao qual é fiel e fidedigno servidor;
  • 4. TODO o Hindu deverá seguir os princípios do Ahimsa, o não-violência, bem como do Satya ou veracidade, além do Yama e Niyama, de modo que NUNCA irá se apropriar do que não lhe é devido (isso inclui o nome espiritual, bem como os bens materiais e de direito - como direitos autorais, etc.).
  • 5. TODO o Hindu está vinculado a uma Deidade; deve freqüentar o templo, e levar o Dakshina para Ela, e assim manter o templo funcionando. Deverá prestar serviço ao templo, a Deidade e ao Guru, e se reunir com os devotos para trocar experiências, congregacionar o canto dos Santos Nomes em Satsang;
  • 6. TODO o Hindu respeita as seitas e religiões dos outros, e não tem vergonha de dizer que está vinculado a um templo e Deidade, e que serve seu Guru com amor e devoção. Portanto, ele deverá ter um Guru vivo ou Swami Ritvik, ainda que Siksha, para lhe dar as devidas instruções e iniciações dentro do Parampara.
  • 7. NINGUÉM PODE SER HINDU, apenas por ler livros sobre este assunto; ter afinidade e gosto pessoal pela filosofia, sem ter se convertido através da rendição ao mestre espiritual, e ter realizado Agni Homa ou cerimônia de fogo para a consagração. Para tanto, deverá usar a marca auspiciosa do mestre espiritual, cantar o Mantra que Ele indicar, e agir em conformidade com os deveres prescritos segundo a ordem do mestre espiritual.

Como vimos acima, ninguém pode se autointitular hindu pelo simples fato de ter nascido na Índia ou num país que tenha uma grande população de Hindus. Mais do que isto, para que alguém possa ser um Hindu deverá seguir os princípios reguladores, segundo a ordem que se filiou no momento do Namakarana. SEMPRE um Hindu deverá ajudar o templo e a seu Guru. Ele SEMPRE terá um nome devocional que designa a sua família espiritual em que está engajado. Não há como ser Hindu por livros, leituras e invenções pessoais. Tem que existir irrestrito respeito aos Vedas e as injunções védicas, de forma incondicional. Quem disser que é possível ser Hindu apenas por adotar esta filosofia, porque gostou, estará mentindo, portanto, desrespeitando um dos grandes princípios do Sanatana-dharma que são basicamente Ahimsa e Satya, ou veracidade acima de tudo, sem agressão.



Recebendo um chamado






Pode ser que alguém, não nascido na fé, se aproxime da filosofia do Sanatana-dharma por intermédio de leituras, ou de algum outro meio, e, assim, sentir uma vocação para seguir o caminho e ingressar no rebanho dos Hindus. Contudo, no mais das vezes, a fantasia é prevalecente na mente de quem não tem uma vivência prática de algo. O mesmo acontece com a prática do Hinduísmo. Portanto, o pretendente deverá ter um período de provação da sua nova vocação, ou continuidade da mesma. Este período pode levar 2 ou 5 anos, de acordo com a indicação do Swami ou Guru da missão. Após o período de provação, então a pessoa poderá ou não ser iniciada, tendo o apoio do corpo dos devotos e o sacerdote Brahmana da missão. A pessoa que deseja ingressar na fé Hindu deverá seguir os princípios apontados pelo Guru Diksha ou Siksha, e não desviar um só dia. Deverá, também, prestar serviços ao templo e ao Guru, quando este pedir. Sempre há muitas atividades para ser feitas num Ashrama, de modo que basta aproximar-se da pessoa encarregada de secretariar as atividades do mesmo e logo engajar-se no Seva. Este serviço, realizado de forma abnegada e gratuita, tem por finalidade desenvolver as qualidades do modo da bondade ou Sattva, e colocar o devoto no caminho da perfeição espiritual.


om tat sat

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dez equívocos comuns sobre o Hinduísmo

Dez equívocos comuns sobre o Hinduísmo

Texto adaptado por

Krsnapriyananda Swami
Prof. Olavo DeSimon



Com cerca de 14% da população mundial (± um bilhão de pessoas), o chamado Hinduísmo, é a terceira maior religião do planeta. Além do mais, é dita como a religião mais antiga existente. Historiadores levantam a hipótese de que, o que chamamos “Hinduísmo” hoje, pode ter existido desde dez mil (10.000) anos atrás. Apesar disso, o Ocidente tem um conceito equivocado sobre as pessoas que seguem esta religião, bem como da própria religião em si.

1º. O termo “Hindu”
Os termos Hindu e Hinduísmo são anacrônicos, e não se referem aos textos antigos da religião. O termo refere-se às pessoas da região do rio Indo, na Índia. “Hindu”, e “Hinduísmo”, provavelmente originou-se do povo Persa, que invadiram o subcontinente indiano, e que podem ter referido ao termo, porque as pessoas do vale do rio usavam a palavra “Hindu”, que significa “rio”. Mas o nome real para Hinduísmo é Sanātana-dharma (ordem ou dever eterno), o qual é desconhecido pela maioria dos ocidentais. Os seguidores do Sanātana-dharma são chamados dharmis, o qual significa “seguidores do Dharma”. O uso das palavras “Hindu” e “Hinduísmo” foram empregados inicialmente pelos ocidentais, e apesar de muitos indianos da atualidade adotarem os termos. Outras tradições do “dharma” são o Jainismo, Budismo e Sikhismo.

2º. Todos os Hindus são vegetarianos
É verdade que muitos Hindus praticam o vegetarianismo, mas isso não é o caso para a grande maioria dos seguidores. Alguns Hindus creem que todos os animais são seres sensíveis, então eles não comem carnes. Mas para muitos outros, comem praticamente de tudo. Estima-se entre 30 e 35% dos Hindus como vegetarianos, devido ao princípio da não-agressão – ahimsa. A minoria dos Hindus vegetarianos – 300 milhões – ao redor do mundo, seguem aquele princípio como fundamental.
A grande maioria dos líderes espirituais do Hinduísmo são vegetarianos, enquanto a grande maioria dos seguidores não o é. Basicamente, o princípio do ahimsa (trazido originalmente do Jainismo), apregoa o chamado “karma negativo”, para quem abate animais e consome esses produtos. Mas nem todos os Hindus seguem essa regra, assim como nem todos os judeus seguem o kosher.

3º o Hinduísmo é uma religião organizada
As razões que tornam uma religião organizada são diversas, mas, na maioria das vezes, o conceito parece estar envolto no com o religioso e a política num determinado tempo e população. Sabemos que o Cristianismo se espalhou através dos romanos, principalmente dos bizantinos, assim como o Islamismo espalhou-se através de campanhas de muçulmanos na Ásia e Europa. Mas o Hinduísmo organizado não se espalhou pelo mundo de forma sistemática.
Na realidade, não há um líder Hindu religioso único ou particular na fé que seja superior a um outro. O sistema Hindu é diferente, e jamais alimentou qualquer tipo de “império”. Deste modo, os aspectos religiosos do Hinduísmo evoluíram para um rol de ensinamentos e princípios orientadores, sem a influência política vista nas outras religiões, chamadas por isso, organizadas, e de cunho majoritário. Não há proselitismo no Hinduísmo, como também não há um fundador nem tampouco uma data específica de sua origem. Sabe-se que uma síntese dos ensinamentos Hindus nos mostra que foram agrupados por volta dos anos 500-300 antes da nossa era, e ao longo dos anos, várias formas Hindus fundiram-se nas práticas mais ou menos comuns que vemos nos dias de hoje.
4º o Hinduísmo possui um sistema discriminatório de castas
Devido ao fato de o Hinduísmo estar relacionado a Índia, é comum o conceito equivocado de que a religião em si segue um sistema de castas. Por exemplo, os assim chamados “intocáveis”, na sociedade indiana, está fora do que é relatado na cultura védica, sendo contrário os princípios do Hinduísmo.
O sistema indiano assinala a pessoa pelo nascimento, mas não com a atividade ou personalidade encontrados no sistema original. Enquanto isso, o termo “varna”, ordem social, constitui-se num mosaico de deveres morais, relacionados às características pessoais de alguém, independente do seu nascimento, e vinculados as atividades.
Apesar de que, com tempo, os dois sistemas terem se tornado interligados ou misturados, o Hinduísmo não segue este princípio fora da Índia. Originalmente, o sistema varna está dividido nas atividades: dos Brahmanas, sacerdotes e professores; dos Kshatriyas, governantes e guerreiros; dos Vaishyas, fazendeiros e comerciantes, e, dos Shudras, trabalhadores diversos. De algum modo, o sistema védico é observado no Ocidente independente do Hinduísmo, mas sem a devida caracterização. No sistema cultural indiano, os Dalits são chamados sem castas ou intocáveis.

5º os Hindus adoram ídolos
A grande maioria das pessoas acredita que os Hindus adoram ídolos. Isso se deve ao fato de que os seguidores das grandes religiões do Ocidente, Islamismo, e Cristianismo, ambos proibidores da chamada “idolatria”, veem como um aspecto antirreligioso. No entanto, os Hindus não consideram isso uma “adoração de ídolos”, mas veem Deus em tudo e em todos.
Todos os objetos são uma “arca”, uma incorporação viva de Deus, de modo que a vida é vista como derramada dentro de cada imagem ou “ídolo”, que talvez algum Hindu reverencie. Os Hindus chamam esta prática de “murti-puja” (reverência à imagem), e refere-se à crença de que toda a criação é uma forma de Deus, e Sua forma está em tudo.
Os Hindus não vêm essa adoração como sendo uma forma de adoração de imagem, mas como uma representação de Deus em tudo. Isso conflita diretamente com a tradição abraāmica, de adoração a ídolos, conforme os Dez Mandamentos. Essa separação é dificultosa para os ocidentais, então acusam os Hindus de idólatras.

6º os seguidores Hindus adoram vacas
Os Hindus não adoram vacas. Esse equívoco comum deve-se a maneira como os Hindus tratam as vacas, um animal que “dá mais do que tira”, sendo simbólico para todos os outros animais, no que representa a vida e sua manutenção. Comendo apenas grão, grama e água, a vaca fornece leite, manteiga, iogurte, queijo, e fertilizantes, etc., desta forma, nos dá muito mais do que tira.
As vacas também são respeitadas por sua natureza gentil, sendo vista com características maternas. Devido ao modo como os Hindus veneram as vacas, e na sociedade indiana, isso parece aos estrangeiros como sendo adoração. Mas os Hindus não veem isso como adoração, mas como respeito aos animais em geral.

7º Mulheres com Bindi (símbolo na testa) são casadas.
Um bindi (u botão vermelho na testa), é usado por milhares de mulheres, casadas e solteiras, ao redor do mundo, especialmente na Índia. Bindis constituem-se em regra espiritual na cultura Hindu, apesar de estar diminuindo nos tempos atuais.
Tradicionalmente, uma mulher colocava um ponto vermelho na testa, feito com um pó especial, na região entre as duas sobrancelhas, significando casamento, como sinal de amor e prosperidade. O local refere-se ao chamado “terceiro olho”, o qual assinala a perda do egoísmo “ahamkara”. Nos tempos atuais, para a grande maioria, perdeu-se aquele significado, e assim as mulheres usam a cor do bindi que escolherem, sem ter relação com o casamento.
Na tradição, um bindi preto significava a perda do marido quando utilizado por uma viúva. Os homens usam um tipo de bindi chamado de “tilak”, o qual consiste numa série de linhas colocadas na testa, e, as vezes, um ponto. Várias cores denotas diferentes linhagens, escolas, mas a principal tradição da cultura do uso de tilak é conhecida apenas por estudiosos renomados da cultura indiana.

8º O Hinduísmo é tão antigo quanto o Judaísmo
Sabemos que muitas tradições e religiões culturais brotaram no subcontinente indiano durante milhares de anos, antes de finalmente unir-se para formas o Hinduísmo moderno, por volta do ano 1800 de nossa era atual. É um equívoco comum achar que o Hinduísmo tenha começado por volta da época do Judaísmo, a primeira religião abraāmica que deu início ao Cristianismo e Islamismo.
Enquanto o Judaísmo é uma antiga fé que tenha se originado por volta do ano 1500 antes da era atual, antigas formas de Hinduísmo surgiram no período pré-histórico, datando de milhares de anos antes. Mas devido ao fato de o Judaísmo ter começado entre práticas combinadas de várias tribos por volta de 4000 antes da nossa era, erroneamente crê-se que tenha sido a religião mais antiga.

9º a Bíblia Hindu é o Bhagavad-gita
O Bhagavad-gita é o texto Hindu mais conhecido no mundo Ocidental, mas não é a Bíblia Hindu. O Bhagavad-gita ensina muitos dos principais princípios do Hinduísmo, narrados através de um diálogo entre o príncipe Pandava, Arjuna e Krishna.
Os livros sagrados estão divididos em “Sruti”, o que foi ouvido ou escutado, e “Smriti”, o que foi lembrado ou recordado. Os textos Sruti são considerados como de inspiração divina, enquanto que os Smriti são derivados das interpretações dadas por grandes sábios.
O Bhagavad-gita é considerado por muitos como sendo uma alegoria para os princípios éticos e morais para uma pessoa, sendo então usado como um guia. Mohandas Gandhi cita o Gita como um “dicionário espiritual”, e usou os ensinamentos da escritura para ajuda-lo durante o movimento de independência da Índia.

10º o Hinduísmo é Politeísta com 330 milhões de deuses
Por definição, monoteísmo é a crença de que há apenas um Deus, enquanto que o politeísmo crê em muitos deuses. Aceita-se o Judaísmo como sendo a primeira religião monoteístas, comparando-a com o Panteão greco-romano, povos os quais eram politeístas, onde tinha um deus para o amor, outro para a guerra, etc.
O Hinduísmo é comumente ensinado como sendo politeísta, e como possuindo 330 milhões de deuses, mas isso não é uma descrição precisa da religião. O conceito de Deus no Hinduísmo é complexo, e pode ser diferente para cada pessoa, mas sempre gira ao redor de um Deus único ou Espírito Supremo.
As diferentes práticas Hindus seguem várias formas ou representações de Deus, mas cada representação – deva – é em si uma representação de Deus. Os Hindus creem que Deus sendo o Supremo, não pode ser plenamente entendido, assim, as representações terrenas, Shiva, Vishnu, etc., são meros aspectos simbólicos de Deus, porque Este não pode ser entendido.
Cada Hindu é capaz de decidir qual a representação de Deus eles preferem em qualquer tempo, e diferentes culturas, ao longo dos milênios têm produzido milhões de representações distintas. Isso porque Deus é Uno e está em tudo e em todos.









segunda-feira, 18 de julho de 2016

O Sonho de Rāja Jānaka

O Sonho de Rāja Jānaka

Por
Swāmi Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
2006-2016





O Rei Jānaka concede sua filha Sita para Śrī Rāma

karmaṇaiva hi saṁshiddhim
āsthitā janakādayaḥ
loka-saṅgraham evāpi
sampraśyan kartum arhasi

“Certamente, pela ação correta ou Karmayoga o rei Jānaka, e outros, conseguiram a perfeição, agindo pelo exemplo; considera que devas atuar e cumprir”.

B.gita, 3.20


  1. Introdução
Qual foi a ação correta que o rei Jānaka realizou? Que experiência magnífica ele teve que o colocou diretamente com a consciência do Ser ou Ātma? Uma breve história sobre este rei e o que o fez mudar o enfoque sobre a realidade será comentado a seguir.
O rei Jānaka foi o pai de Sita, a esposa de Sri Rāma. Ele foi um rei exemplar, e tinha um profundo senso de liberação. A partir de um sonho que teve certa feita, ele deu início a uma profunda investigação do Brahman. A história que veremos a seguir tem em vista mostrar a irrealidade do mundo material, não enquanto expressão material, mas enquanto realidade transcendental. Para o leitor compreender o texto na sua profundidade filosófica deverá despojar-se das ideias dualistas “eu” e “meu”, uma vez que não é possível uma metafísica sem que haja o devido despojamento da dualidade ou do Dvāita.
A filosofia dos Vedas, e todos os textos derivados e comentados são Advāita, ou não-dualistas. A grande confusão nos dias de hoje é devida às más interpretações e solipsismos feitos por sobre a metafísica dos Vedas, e que no mais das vezes estão comprometidas com a visão de movimentos religiosos independentes, e que não possuem vocação filosófica, sendo puramente especulativas.
No Bhagavad-gītā, e numa enumerável seqüência de textos e comentários diversos da literatura védica, o rei Jānaka é citado como exemplo de retidão, esforço e empenho no caminho do Dharma. No verso 3.20 do Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa cita o rei Jānaka como sendo um grande exemplo de quem alcançou a liberação do Saṁsāra por meio da ação abnegada ou Karma-yoga. São as seguintes as palavras de Kṛṣṇa, dirigidas para Arjuna: “Certamente, pela ação correta ou Karmayoga o rei Jānaka, e outros, conseguiram a perfeição, agindo pelo exemplo; considera que devas atuar e cumprir”. Bgita, 3.20 Isso quer dizer que a realização do serviço abnegado é tão elevada quanto qualquer exercício de realização pelo Jñana.
Karma-yoga não é uma ação feita tendo em vista um resultado, mas uma ação pura e livre de busca de resultados. A ação deve ser exemplar, uma vez que na ação abnegada está a liberação da idéia de “eu” e “meu”. Deve-se saber diferenciar uma ação benevolente, que tem em vista agradar o próprio ego e receber fama e prestigio dos que olham daquela ação que é feita de forma absolutamente abnegada, sem ter em vista nenhum beneficio egoísta como fama, prestigio e poder. Kṛṣṇa salienta o tempo todo que alguém devidamente iniciado e reverente ao Guru (4.34), prestando serviço aos seus pés, é de fato adequado para liberar-se do mundo material.
Ensina-se mais pelo exemplo do que por teorias contidas em textos. Isso nos mostra que não é de agora a ocupação com o processo de educação onde o exemplo dos ācāryas, como verdadeiros modelos de exemplos, as pessoas procuram seguir. Kṛṣṇa, mais uma vez, reforça a idéia de que Arjuna deve lutar, porque seus atos não estão isolados de todo o contexto. O rei Jānaka foi instruído pelo sábio Aṣṭāvakra, numa obra intitulada “Aṣṭāvakra-gītā”, de como deve ser a ação de um renunciado. A ação correta é aquela que e feita sem ter em vista o fruto ou a expectativa do resultado, chamado pelo sábio de “picada da serpente negra da auto-opinião de “eu sou quem faz”. Os pares de opostos, do mundo material, são explicados ao rei naquela obra, tendo em vista alcançar a liberação do saṁsāra ou ciclo de nascimentos e mortes.

2. O Sonho do Rāja Jānaka
Swami Sivananda
O Rāja Jānaka governou o país de Videha. Certa feita, ele reclinou-se num sofá. Isso foi por volta do meio dia, no mês de junho. Ele deu uma soneca de alguns poucos segundos. Ele sonhou que tinha um rei rival com um grande exército e que tinha invadido o seu país, matado seus soldados e ministros. Ele saiu do seu palácio, estando descalço e sem roupas que o cobrissem.
Jānaka encontrou-se perambulando na floresta. Ele ficou com sede e com fome. Ele chegou numa pequena cidade onde pediu comida. Ninguém deu bola para o seu pedido. Então ele foi até um local onde algumas pessoas estavam dando comida para os mendigos. Cada mendigo tinha uma tigela de barro para receber arroz e água. Jānaka não tinha a tigela, então eles disseram que trouxesse uma. Então ele foi à procura de uma tigela. Ele pediu para outros mendigos para emprestar uma tigela para ele, mas nenhum deles quis emprestar a sua. Por fim, Jānaka encontrou um pedaço de uma tigela quebrada. Então ele correu com o pedaço, onde arroz e água estavam sendo distribuídos. Mas tudo já havia sido distribuído.
O Rāja Jānaka estava muito cansado devido a longa viagem, e com fome, sede e calor devido ao verão. Então ele se recostou próximo ao local onde a comida havia sido cozida. Ali, alguém se tomou de piedade por Jānaka, e deu a ele algum arroz e água, que havia ficado no fundo da panela. Jānaka pegou com imensa alegria e assim que ele iria colocar o alimento em seus lábios, dois enormes touros jogaram-se brigando por sobe ele. A sua tigela se quebrou. O Rāja acordou-se com grande medo.
Jānaka ficou tremendo violentamente. Ele ficou com um grande dilema, em saber qual dos dois estágios era real. Todo o tempo em que estivera sonhando, na miséria, com sede e fome, ele jamais pensara que era uma ilusão. Então a rainha perguntou para Jānaka, “Ó Senhor! O que o está afligindo?” Em poucas palavras Jānaka disse, “O que é real, ou que não é?”. A partir de então deixou todo o trabalho e ficou silencioso. Ele não falou nada mais do que as palavras acima.
Os ministros pensaram que Jānaka estava sofrendo de alguma doença. Então eles anunciaram que qualquer um que pudesse curar o rei seria ricamente recompensado, mas se falhassem na cura seriam feitos prisioneiros. Grandes médicos e especialistas tentaram a sorte, mas nenhum deles pode responder a pergunta do Rāja. Centenas de Brahmaṇas bem versados na ciência da cura de doenças foram postos na prisão. Entre os sábios, estava, também, o pai do grande sábio Aṣṭāvakra. Tendo apenas dez anos de idade, e ao ficar sabendo por sua mãe da situação do seu pai ter sido preso, por ter falhado na cura do Rāja, ele pediu para ver o rei Jānaka.  Chegando ao rei, ele perguntou se ele gostaria de escutar a solução da sua pergunta em breves e poucas palavras, como a questão estava sendo colocada, ou em detalhes devido a experiência do sonho. Jānaka não quis repetir o sonho, uma vez que considerava humilhante fazer isso diante de uma grande platéia. Então ele concordou em receber uma breve resposta.
Aṣṭāvakra, então, sussurrou no ouvido de Jānaka: “Nenhum nem outro é real”. Então Jānaka alegrou-se. Sua confusão foi removida. O Rāja Jānaka, então, perguntou para Aṣṭāvakra, “O que é real?”, e daí sucedeu-se um longo diálogo entre eles. Isso está bem documentado num livro chamado Aśtavakra-Gītā, o qual é altamente recomendado para os buscadores da Verdade.



3. O rei discípulo e a ilusão do mundo
Swami Kṛṣṇaprīyānanda
excertos
Śukadeva Goswami ensinou o Śrīmad Bhāgavatam para os reis sábios, como Parīkṣit maharāj e Jānaka Maharāj. Os textos dizem que certa feita Śukadeva iniciou um discurso atrasado, porque Jānaka não tinha chegado. Então os outros se ressentiram pelo sentimento de Śukadeva em relação ao rei Jānaka. Então, de modo equivocado, eles pensaram que Śukadeva estava fazendo aquilo devido a posição real de Jānaka, pensando que o seu Guru estava se deixando levar pelas coisas mundanas. Śukadeva ficou sabendo desta má interpretação, então ele pensou numa forma de dar uma lição aos discípulos orgulhosos.
Quando Jānaka chegou, Śukadeva falou por algum tempo, mas então ele fez um arranjo com seus poderes místicos de modo que os discípulos puderam ver num local distante, no horizonte, a cidade de Mithilā, a capital do império de Jānaka, e puderam ver que estava em chamas, e assim se desmanchando.
Os discípulos estavam escutando o Ātma-Bhoda, ou a lição de que apenas o Ātma é real e que tudo o mais é simples aparência, imposta pelo Ātma, devido a névoa da ilusão e ignorância. Ao ver a cena, cada um dos discípulos saiu correndo, deixando a aula do preceptor, temendo aproximar-se do fogo e que isso pudesse queimar suas roupas e livros. Mas Jānaka, cuja capital estava sendo reduzida à cinzas, ficou imóvel, ao saber de que o fogo era apenas aparente não era real.
Śukadeva, pessoalmente, pediu para Jānaka ir e avaliar os danos e tentar salvar o que não havia sido queimado pelo fogo. Mas Jānaka respondeu que seu tesouro era Jñāna (sabedoria), e que havia recebido do seu mestre, e que com isso havia se despreocupado do mundo objetivo, acessível pelos instrumentos do conhecimento externo.
Com isso, Śukadeva disse que o fogo era uma simulação, criada por ele para mostrar para os outros a distância entre o conhecimento erudito de Jānaka em contraste com o conhecimento superficial.

4. Relatividade do mundo
Certa feita o rei Jānaka se aproximou do sábio Yājñavalkya e perguntou para ele: “Ó sábio! Por favor, deixe-me saber sobre minha vida anterior”. O sábio respondeu: “O que passou, passou. Não há utilidade em relembrar isso. Você completou a sua jornada ao longo da estrada. Não se preocupe como foi que ela foi trilhada. Isso não irá ajudá-lo na sua jornada rumo a glória!”. Apesar de o sábio ter usado de muitos argumentos para dissuadir Jānaka Maharaj, da sua pergunta insistente, ele não conseguiu dissuadi-lo. Yājñavalkya, então, utilizou do seu poder de visão e disse para o rei, Jānaka, sua esposa na vida atual foi sua mãe na vida anterior”. Ao ouvir isso, Jānaka ficou chocado. Ele refletiu: “Que má pessoa tenho sido, em desfrutar de minha mãe anterior em minha esposa! Devo abandonar tal vida perversa”. A partir deste momento ele começou a tratar a sua rainha como sua mãe, e abandonou todos os apegos mundanos, buscando a realização espiritual.

5. Casamento para quê?
O rei Jānaka foi um buscador da verdade; da Verdade Suprema ou Brahmajñana. Ele buscava o conhecimento tendo em vista a autorealização, e não para alcançar conforto material. Certa feita, ele organizou uma assembléia de sábios. Nesta assembleia, Gargī Devī conduzia um debate com Yājñavalkya. O debate estava baseado nas Escrituras. Mas não chegava a uma conclusão. Então Gargī Munī colocou uma questão para Jānaka, dizendo: “Qual é a marca de um Sthitha Prajña?”, no que o rei respondeu, “Ele é o uno; quem realizou a unidade com o Absoluto”. Gargī disse, “Se você realizou o estado de Consciência, então você terá apenas a consciência da Unidade. Você não está neste estágio agora” Então o rei disse, “Eu desejo alcançar este estágio de consciência”. Gargī respondeu, “O rei! Eu tenho um desejo. Você poderá realizá-lo?”; “Certamente”, respondeu Jānaka. Então ela pediu para casar-se com ele. O rei respondeu, “Eu tenho apenas uma esposa, Sunetra (aquela que tem boa visão). Eu não desejo me casar com qualquer outra esposa”. Gargī disse, “Você e um grande Jñani. Você tem uma boa visão, e sua rainha é uma dama de boa visão também. Pode ser que eu peça para que o grande Yājñavalkya peça isso para você?”. O rei respondeu, “Eu darei para ele o que ele me pedir”. Indubitavelmente Yājñavalkya era um grande sábio, mas não tinha total controle dos sentidos. Yājñavalkya então pediu para o rei, “Dê-me Gargī em casamento. Celebre nossas núpcias”. Então, houve um grande alvoroço na sala. Os grandes sábios que estavam presentes na sala perguntaram, “Qual o significado do pedido de Yājñavalkya?” Gargī perguntou para Yājñavalkya, “Qual era o propósito de um casamento?”, Yājñavalkya respondeu: “Ter progênie”. Gargī disse, “Não! A esposa é a outra metade do marido ou Ardhangi. Isso significa que ela deverá buscar o Dharma junto com seu marido, como uma Dharmapatni (uma esposa correta). O casamento é pela segurança da continuidade do Dharma; não para um desfrute de prazeres mundanos. Por acaso está nosso imperador desfrutando dos prazeres carnais no palácio? O mesmo que experimentado pelos cães nas ruas? Será isso felicidade?”.

Hari Om Tat Sat