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quinta-feira, 22 de março de 2012

Conhecimento Secreto dos Vedas

 
Swami Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA

Porto Alegre, RS - Brasil
 2006-2012



 Sumário
- Reverências
1. Mente que mente
2. Liberdade demoníaca de criar
3. Linguagem
4. A experiência do Guru
5. A maior tolice do ignorante é achar que sabe
6. É necessário filosofia
7. A cultura nos envolve
8. Que conhecimento é esse

Minhas humildes reverências para:

- Sri Vyasadeva, que graciosamente compilou os Vedas para uma linguagem compreensível humana, bem como realizou o amor divino as transcrever o Bhagavata Purāna.

- Sri Adi Sankaracharya, Siva em pessoa, o maior dos Vaishnavas, que por Sua graça, sabedoria, amor pelos ignorantes, resgatou o conhecimento dos Vedas, velado pelo materialistas e ateus;

- Swami Sivananda, por sua imensa sabedoria, compaixão e misericórdia para com as almas caídas na ignorância;

- Sri Ramananda Prasad, que com sua simplicidade, objetividade, paciência e perseverança, sabe tão bem transmitir o conhecimento dos Vedas.

1. Mente que mente
A mente ocidental é por demais fantasiosa. No Ocidente, livros que falam de enigmas de ficção vendem como água em dias de calor. Olhem, por exemplo, as “festas” populares como o Natal, Páscoa, etc., principalmente na sociedade burguesa ocidental, onde o consumo está acima até mesmo da razão e da Verdade. Quem está preocupado com o real significado daquelas “festas”? Portanto, não é de estranhar, de nenhum modo, que a mente fértil, consumista, fantasiosa, infantil dos especuladores pequeno-burgueses ocidentais, crie algo para poder vender e lucrar. É apenas mais uma maneira lucrativa de uma mente que mente... Então, se inventa histórias de que há algum conhecimento secreto no Santana-dharma, e que somente alguns receberam tal conhecimento, etc. Mas de fato, o que existe é a ignorância da Filosofia como um todo, sem dizer dos seus aspectos particulares. Isso quer dizer que as bases teórico-filosóficas como Ética, Eidética, Noética, e Lógica, são desconsideradas pelos apressados burgueses ocidentais, que de modo humorístico dizem “conhecer um conhecimento secreto”.

2. Liberdade demoníaca de criar
Se olharmos com atenção a história da sociedade burguesa ocidental, veremos que as pessoas trilham uma idéia chamada, erroneamente, de “liberdade”. No entanto, trata-se de uma falsa liberdade, uma vez que notamos uma submissão ao capital, bem como um tipo de meio de vida. Sri Adi Sankaracharya, nascido por volta do ano 800, portanto, em plena vigência de idéias comerciais judaico-cristãs que influenciaram o mundo todo, fez uma referência muito especial a estes especuladores de plantão, os quais existem até mesmo na terra do Sanatana-dharma. Ele recitou:

jatilo mundi luñchitakeshah
kasabambarabahukrita-vesah
pashyannapi ca na pashyati mudhah
udaranimittam bahukrita-vesah

A tradução deste verso do Moha-Mudgarah, conhecido no Ocidente como “Bhaja-govinda”, diz o seguinte: “Há muitos que vão com os cabelos enrolados; muitos que têm a barba e o cabelo raspados; muitos cujos cabelos são arrancados fora; alguns se vestem com açafrão, ainda há outros de várias cores: ‘Todos por um meio de vida!’ Ainda que a verdade seja revelada diante deles, sempre haverá os que não a vejam”.

As razões que sustentam os enganadores de plantão são simples de entender, tratam-se da fantasia, da querela inútil, a busca pelo dinheiro. Também, o que está por detrás destes enganadores de plantão é a busca de fama, de prestígio, de poder e posição, fazendo as pessoas tolas seus reféns igualmente ignorantes. Sri Krishna nos esclarece no Bhagavad-gita que “Orgulho, arrogância, convencimento, ira, aspereza, bem como a ignorância... são qualidades demoníacas” (Bgita, 16.4). Podemos dizer, com toda a certeza, que aqueles que garantem a existência de algum “conhecimento secreto”, e que somente eles poderão dá-lo mediante algum pagamento, são embusteiros, enganadores, ignorantes. Eles se ilustram no falso prestígio. Enchem-se de nomes e títulos suntuosos. Pretendem com isso conseguir ilustrar por fora o que não possuem por dentro. São tolos que tratam o impermanente como se permanente fosse. Diz Krishna: “Refugiando-se na insaciável luxúria, no orgulho e no falso prestígio, absortos e convencidos pelo ilusório, esquivam-se do que é – realmente – divino, tomando coisas impermanentes como se fossem verdade, vicejando o que é impuro” (Bgita, 16.5).

3. Linguagem
Mas o que há na verdade, no Sanatana-dharma, é um conjunto de ensinamentos amplos e complexos, cujo entendimento está subjugado ao conhecimento da Sua linguagem. Pensamos que isso não deva surpreender ninguém. Do mesmo modo como alguém sem estudar os preceitos básicos da Física irá ficar sem entender o que falam os físicos, ou quem nunca estudou Lógica nada compreenderá de enunciados lógicos, de forma semelhante, a filosofia do Santana-dharma precisa da orientação de alguém que a tenha estudado e realizado o Seu conteúdo. Isso é uma questão de realização da linguagem e conhecimento védico.

O Senhor Krishna diz para Arjuna no Bhagavad-gita, 4.34, que devemos nos aproximar de alguém que tenha adquirido o conhecimento da Verdade (do Santana-dharma), tendo em vista aprendê-lOe por fim realiza-lO. Diz o verso: “Este correto conhecimento (do Satana-dharma) se aprende perguntando aos que O conhecem, prestando-lhes serviço; inicias-te neste Conhecimento, com os que O possuem, conhecem e viram a Verdade”. O adágio: “possuem, conhecem e viram a Verdade”, é sugestivo, porque aponta com clareza que a Verdade está aí, mas são poucos que conseguem vê-lA, realizá-lA, principalmente devido ao fato de não terem o necessário “domínio da linguagem” para entender-se o significado dos Seus enunciados.

4. A experiência do Guru
Sri Dattatreya Guru
Nós poderemos citar centenas de enunciados, centenas de idéias, dos mais variados ramos do conhecimento humano, e, com certeza, a grande maioria das pessoas não conseguirá entender o que está sendo falado. A razão é simples, ele está oculto pelo fato de não se ter o domínio ou o conhecimento da linguagem que está sendo falada. Há tantos fatores envolvendo um conhecimento, que as Escrituras defendem o fato da importância do preceptor espiritual ou Guru para enunciá-lAs corretamente. Swami Sivananda nos adverte, e de certo modo nos consola, ao falar do Guru quando diz: “Uma pessoa pode aprender apenas de uma pessoa e, por conseguinte, Deus ensina apenas através de um corpo humano. No seu Guru você tem o seu ideal humano de perfeição. Ele é o padrão interno o qual você deseja para moldar a si mesmo. Sua mente será prazerosamente convencida de tal grande alma, combinando com adoração e reverência”. Swami Sivananda, também, escreve que: “Apenas um homem que, de fato, foi para Badrinath (uma região da Índia), está apto para dizer a você o caminho para aquela região. No caso do caminho espiritual, é mais difícil encontrar sozinho. A mente irá enganar você freqüentemente. O Guru estará apto para remover as armadilhas, e os obstáculos, e conduzir você ao longo do caminho correto. Ele dirá a você: ‘Este caminho leva você para Moksha (liberação); este outro, para o cativeiro’. Sem a Sua guia, talvez, você queira ir para Bradrinath, mas encontrará a você mesmo em Delhi!” Quem antes percorreu o caminho, aprendeu a Sua linguagem, pode, então, ensinar para os que estão vindo. Mas não há, definitivamente, nada “secreto” nisso, muito antes pelo contrário, uma vez que não poderia ser diferente numa filosofia que diz, com todas as letras, que apenas o conhecimento pode livrar alguém do Samsara. E, evidentemente, que o Supremo não iria ensinar as pessoas que o conhecimento liberta, e depois privá-las de terem acesso a Ele. Isso seria algo como uma “ditadura da Verdade”, tornando todos escravos do desejo de alguém, quando, na realidade, o Samsara é resultado da própria ação e vontade da pessoa.

5. A maior tolice do ignorante é achar que sabe
Sri Krishna diz no Bhagavad-gita, 16.23 que, “Qualquer pessoa que não siga as regulações das escrituras sagradas, e que não abandone a luxúria, e os caprichos (mundanos), não alcança as perfeições e nem a felicidade transcendental Suprema”. Portanto, somente através da realização “... das escrituras dos Shastras, a pessoa determina o que são atividades ilegais e quais seus deveres. Conhecendo os Shastras, e suas regulações, diz-se, que a ação é meritória neste mundo”. Sinceramente falando, as pessoas que em nome do Yoga ou do Sanatana-dharma dizem “conhecer um conhecimento secreto”, nada mais estão fazendo do que adjudicando conceitos Ocidentais num conhecimento diferente, por desconhecerem e nem mesmo terem realizado Viveka; não passam de um bando de ignorantes que nem mesmo sabem que ignoram. O Senhor Krishna diz, no Bhagavad-gita, 4.35, que: “Tendo-o conhecido (adquirido por um mestre), nunca [mais], e de novo, terás ilusão, assim avançarás, ó filho de Pandu! Tu verás a todas as entidades vivas no Ser Supremo e em Mim atuando”. Com certeza, o entendimento transcendental trazido no Bhagavad-gita é de que Krishna é a personificação do Dharma, Verdade ou Justiça. Krishna, ainda, salienta que com o “barco do conhecimento”, nos libertamos do oceano das misérias existenciais (Bgita, 4.36). Aqui não há nenhum “conhecimento secreto”, mas um desafio ao ignorante que acha que sabe, identificado com seu próprio corpo físico e relações adjuntas.
É um fato que somente o conhecimento ou Jñana pode liberar alguém. Os Vedas são unânimes em afirmar que a ignorância escraviza - isso é o Samsara - e que somente o conhecimento ou Jñana liberta. “Assim como o fogo queima a lenha e a transforma em cinzas, ó Arjuna, o fogo do conhecimento - jñāna- de forma similar, transforma em cinzas o resultado da ação” (Bgita. 4.37).

Todas as letras nos versos acima nos deixam bem claro que o verdadeiro conhecimento liberta, e que devemos nos aproximar de alguém que realizou a Verdade tendo em vista, também, alcançá-lA. Conhecimento não se trata de um acumular de conteúdos, mas de uma realização interior. Para atender aos diferentes tipos de graus de entendimento (devido a grande variedade de inteligências) das pessoas, há diferentes “níveis” de textos para elas. Então, compreendemos que há os escritos elevados, de difícil compreensão como os Upanishads; há os escritos intermediários como os épicos, Ramayana, Mahabharata, e o Bhagavad-gita (por estar no Mahabharata), e os chamados “escritos populares”, como os Puranas, onde são descritos passatempos ou Lilas do Senhor na forma de histórias, com grande cunho moral. Mas apesar destes textos ser ditos “populares”, grande parte do Ocidente não Os entende, haja vista o fato de que se trata de um conhecimento cultural milenar, quase atávico, que subjaz na profundeza dos Seus ensinamentos, e a cultura na qual estão mergulhados, sublinha Suas validades.

6. É necessário filosofia
O conhecimento da filosofia do Sanatana-dharma requer, evidentemente, conhecimento de Filosofia, e, além do mais, a sua vivência prática. De que adianta tantas teorias, crenças em “conhecimentos secretos”, se não há uma vivência prática? Nem mesmo materialistas como Karl Marx admitiam uma filosofia sem um viés prático. E pensar numa filosofia religiosa sem uma práxis é também um absurdo. Outro fato que devemos salientar aqui é o que diz respeito à forma de mostrarmos algo. Dependendo da forma que adotarmos na expressão de um fato, este poderá ter um significado diferente. Para ilustrar, colocaremos a seguir um fato antropológico irrefutável, acompanhem com atenção:

Iremos, a seguir, descrever os costumes de uma tribo denominada de Onacirema:

“O ponto focal do santuário é uma arca, ou caixa, embutida na parede. Nessa arca são guardados os muitos talismãs e poções mágicas sem as quais nenhum nativo acredita poder viver... O talismã não é utilizado depois que serve às suas finalidades, mas é colocado numa caixa a isso destinada, no próprio santuário. Como esse material mágico destina-se especificamente a certos males, e as enfermidades do povo, reais ou imaginárias, são muitas, e aquela caixa está quase sempre totalmente cheia. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas se esquecem de suas finalidades e temem usá-los novamente. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a esse ponto, só poderemos admitir que a idéia de conservar o material mágico antigo está na suposição de que a sua presença na caixa de talismãs servira, de algum modo, para proteger o adorador”. *

Poderemos, uma vez lido o texto acima, fazer as seguintes perguntas:

1. Você aprova ou não os Onacirema? Por que?
2. Suas práticas têm sentido para você?
3. Já ouviu falar de algum outro grupo que tenha práticas semelhantes?
4. Alguém sabe quem realmente são os Onacirema?

Feito estas perguntas, podemos dizer que “onacirema” na realidade se trata da palavra “americano” escrita ao contrário. A descrição do texto acima, trata-se de uma caixa de remédios, típica dos americanos (muitas vezes em seus banheiros). Podemos ver, com clareza, que a diferença da linguagem em apresentar um fato dá um colorido diferente a ele. Uma vez que o assunto é desvelado pelo professor ou Guru, ele se torna claro e objetivo. Portanto, que conhecimento secreto há ali?

7. A cultura nos envolve
Um fato notável é que cada um de nós está mergulhado na sua cultura. A religião, a filosofia, e tudo que envolve as pessoas, não poderiam ser diferentes. A cultura age mesmo de forma inconsciente; por isso dizemos que é muito atrativo aos olhos dos consumidores ocidentais, ter a possibilidade de aventurarem-se num “conhecimento secreto”, pagando módicas prestações para quem ministra um curso ou forma uma “escola esotérica”, etc. Graças aos ensinamentos das Escrituras, e da orientação de um filósofo prático como um Guru é que podemos compreender o significado dos enunciados. Mas a questão de como se forma o conhecimento é muito complexa. Também, a forma como alguém se aproxima d´Ele, e o que faz alguém se interessar por Ele é complexa. Há muitas teorias, muitas idéias. Contudo, segundo o Sanatana-dharma, o que faz alguém se aproximar do Conhecimento da Verdade Suprema é a sua experiência anterior, adquirida na convivência prática, numa vida passada (ou mesmo na sua vida de agora). No Bgita, 6.44, temos: “Pela prática de yoga na vida anterior, e sob influência dela, com certeza se é atraído segura e automaticamente pelo yoga, inquirindo sobre Ele e pelos princípios ritualísticos brahminicos transcendentais”. Goethe, inspirado nos Upanisads, já referenciava as Escrituras ao dizer “Ninguém ama o que não conhece!”, portanto, ninguém pode gostar daquilo que não realizou, e não poderá realizar sem antes conhecê-lo. É por isso que as palavras e jargões “secreto”, “esotério”, etc., atraem tanto o burguês liberal, desejoso de adquirir o conhecimento por intermédio da sua visão fantasiosa da realidade, basta comprar! Também, é por isso que prosperam os grupos que oferecem a preços convidativos o “conhecimento secreto”, porque é algo que ninguém pode realizar sem de fato conhecer.... ironias a parte, somente podem conhecer aqueles que podem pagar. Que triste o destino de tais criaturas!

8. Que conhecimento é esse
Mas nós percebemos que há um grande interesse por especulação de todo o tipo. Basta olharmos a grande quantidade de revistas que andam circulando pelas grandes cidades. Há, por exemplo, revistas que falam de saúde onde uma afirma exatamente o oposto da outra. Como alguém poderá realizar a Verdade Suprema se seus paradigmas são mudados da manhã para a noite? Sabemos que os patifes de plantão são oportunistas para oferecerem seus produtos para uma platéia de ignorantes, ávida por “novidades” por especulação do “eu acho que sim” eu “acho que não”. Esta platéia jamais tem condições de dizer “penso que sim” “penso que não”, porque, para eles, pensar é algo insalubre. Está além das suas capacidades. Afinal, há alguém que é dono da Verdade, e ela pode ser “comprada a prestações”. Sem antes salientar, que é necessário ter pago uma taxa para alcançar a “iniciação secreta”, iniciação esta que envolve um Mantra supra secreto e que não poderá ser dito para ninguém... Ora ora, que tolice. Mesmo no Novo Testamento, como em Mateus 10.24-28, está dito com toda a clareza: “24 Não é o discípulo mais do que o seu mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. 25 Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Baal Zaeb ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos? 26 Portanto, não os temais; porque nada há encoberto que não haja de ser descoberto, nem oculto que não haja de ser conhecido. 27 O que vos digo às escuras, dizei-o às claras; e o que escutais ao ouvido, dos eirados pregai-o. 28 E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”.

Vejam a clareza do Evangelho! A mesma está nos textos védicos. Somente os que querem tirar o dinheiro dos iludidos agem de forma a difundir um pressuposto “conhecimento secreto”, e do qual somente eles podem transmitir. Também, observem o fato de termos colocado a palavra “Baal Zaeb”, porque se trata do semideus da fertilidade Fenícia. Baal Zaeb é quem dá as chuvas, a saúde, a colheita farta, o estar-bem e o bem-estar. Razões políticas e ideológicas da invasão dos Hebreus transformaram Baal Zaeb no malfadado “belzebu”, lançado que se fosse o mal personificado. Ora, a história é sempre contada pelos vencedores! Tola ignorância achar que pode interpretar os versos do Evangelho, escritos acima, com outro sentido. Como podem entender os versos do Evangelho se não conhecem a Sua história? Bem, tolamente poderão pensar alguns que aqui se trata de um “conhecimento secreto”, que está oculto nestes versos de Mateus. Mas nada está além da comparação de que todos somos almas espirituais, eternos, sempre existentes; que nunca pode ser morta; que estar numa posição inferior ou superior é mera ilusão, e assim por diante. Este conhecimento é mesmo dos Upanishads. Trata-se da essência dos Vedas. Mas entender o significado contido dos versos não é algo secreto ou oculto, é uma questão de linguagem, de aprendizado. Trata-se de uma questão de Viveka, ou discernimento, advindo através de Jñana ou conhecimento realizado, vivenciado, experimentado. Não apenas teórico, frio e seco, como pensam alguns que vendem “conhecimento secreto”.

Poderíamos passar muitas horas falando destes supostos “conhecimentos secretos”, e então veríamos de que a realidade isso se trata de ignorância, nada mais do que uma tola ignorância. Aguçada é a curiosidade humana, ainda mais se for ocidental, burguesa e capitalista, que acha que com o dinheiro pode comprar tudo. Conhecimento secreto? Quem dá mais?

Hari Om Tat Sat

quarta-feira, 21 de março de 2012

Escrituras Hindus


Escrituras Hindus

Srī Swami Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
Gītā Āśrāma
Porto Alegre, RS
1997-2012



Sri Vyasadeva Maharishi



1. Introdução
É um fato notável de que não há uma religião sem seus escritos sagrados. Uma religião deve possuir um corpo de doutrinas, bem como uma cosmologia, uma teodicéia, e todo um conjunto de ensinamentos e filosofia que a tornam uma verdade possível. Também é bem conhecido o fato que uma religião deverá possuir um conjunto de mitologia, sem que esta expressão possua conotações inferiorizantes. Para o bem da Verdade, uma religião sem estudo e sem filosofia trata-se de uma forma de fanatismo, da mesma forma que uma filosofia sem religião é um modo de exibir a ignorância. Não há religião sem filosofia, sem um corpo de textos que lhe dão a devida sustentação. O Sanatana-dharma, na Sua própria definição de "conhecimento religioso eterno" é uma viva expressão da Verdade Suprema na forma de Escrituras.

2. Escolas de pensamento
Nós podemos destacar seis principais escolas de pensamento que expressam o Sanatana-dharma, a saber: 1) Nyaya; 2) Vaisheshika; 3) Sankhiya; 4) Yoga; 5) Purva-Mimamsa e 6) Vedanta. Uma particularidade destas escolas é que cada uma delas possui um fundador: Nyaya é atribuída a Buddha; Vaisheshika ao sábio Kanada; o Yoga a Patañjali; o Purva-mimamsa a Jaimini, e, por fim, o Vedanta a Badarayana. Apesar de defenderem pontos de vistas diferentes, estas escolas, decerto, abordam questões semelhantes e triádicas, pois procuram analisar as relações existentes entre o Brahman (Verdade absoluta; o Absoluto impessoal), a Jiva, (a alma) e a Prakriti, (mundo material; a Natureza). Às vezes, as escolas Nyaya e Mimansa, são as denominadas escolas heréticas, pois desqualificavam, de certo modo, os textos védicos clássicos.

Vendo a grande diversidade de pensamentos e de suas derivações, fica claro que o Hinduísmo é uma ampla e quase infindável variedade de pensamentos, permitindo conter, inclusive, e abrigar uma outra religião, como o caso do Budismo, que cresceu muito, principalmente, fora do território da Índia, onde não é significativamente expressivo o seu número de adeptos naquele país.

Para um praticante sério de Yoga, os escritos sagrados são personificações da Verdade Suprema, do Senhor em Si mesmo. O Vedanta, e todo o Seu conjunto de escrituras, contêm um vasto número de livros, textos, poesias, Sutras, enfim, contêm o vasto universo védico, numa tentativa de descrever as honras e glórias do Senhor Supremo. Como diz Maharaj Krishnananda, "Toda a nossa tentativa humana de entender a Deus sempre será uma tentativa", ou seja, sempre será uma forma de darmos uma espécie de antropomorfismo para Deus, segundo nossa própria imagem e semelhança. Por conseguinte, o estudo das Escrituras védicas constitui todo um corpo doutrinário e filosófico, do mais elevado nível. Na realidade, o desconhecimento ocidental, senão total da filosofia dos Vedas, e dos seus seis Darshanas insubstituíveis na história do pensamento humano, é algo imperdoável, e tem sido, sem nenhuma dúvida, um dos maiores empecilhos para o desenvolvimento humano.

3. Corpo doutrinário
No Sanatana Dharma há um conjunto de escrituras para um dos pilares sociais da vida. Artha, Kama, Dharma e Moksha, por sua vez, originam todo um corpo de doutrinas que antecedem seus nomes e ciências. Temos, assim, Arthashastras, que são escritos sobre o desenvolvimento econômico; Kamashastras, que tratam do gozo dos sentidos; Dharmashastras, que são os escritos das leis, e, por fim, os Mokshashastras, que se constituem no corpo doutrinário da liberação material "par excelence". Isso significa que o leitor terá todo um conjunto de textos para cada área que desejar desenvolver nos seus estudos. Por outro lado, o correto desenvolvimento e aprendizado das Escrituras deverá ser conduzido sob a orientação experiente de uma pessoa versada nelas, chamado de Guru ou preceptor. Esta dedicação ao Guru não se trata de nenhum fanatismo ou de uma perda de identidade, mas da correta forma de encontrar-se e ter clareado os reiais propósitos da vida humana. Yoga trata-se de um conjunto de ensinamentos e doutrinas que está muito além da simples alienação mental ou psicológica de alguém. O Yoga é um conjunto prático de vida que açambarca um universo inteiro de conteúdos e sentimentos, os quais não podem ser transmitidos apenas por livros. A rendição ao Guru é mais do que uma submissão pura e simples para alguém mais superior em conhecimeto, é uma forma de entregar o coração e a alma para o preceptor que remove toda a escuridão da ignorância na qual estamos mergulhados por absoluta vontade própria. Sendo assim, nada mais acertado do que sairmos desta ignorância por nossa própria vintade, sob a orientação segura e amorosa do Guru.

4. Divisões das Escrituras
As Escritura Hindus podem ser divididas em dois grandes grupos, a saber, Shruti e Smriti. Academicamente podemos dizer que as fontes autorizadas do Hinduísmo estão divididas nestas classes: 1. Shruti e 2. Smriti. Onde, Shruti é considerada a autoridade principal, e Smriti é a autoridade “secundária” dos textos sagrados.

5. Shruti, significa literalmente “aquilo que é ouvido”. Diz-se que grandes Rishis (sábios) escutaram em meditação às verdades eternas da religião e deixaram um relatório para o benefício dos outros. Estes relatórios são chamados Vedas. Temos quatro Vedas a saber: o Rig-veda, o Yajur-veda, o Sama-veda e o Atharvana-veda.

O Rig-veda é considerado um dos mais antigos Veda, consiste em mais de 1.000 hinos, e, praticamente, todos os outros Vedas baseiam-se nele. Contudo, grande parte dos aspectos conhecidos nas “ciências védicas”, como as técnicas de meditação, mantras e yoga são ali encontrados. É costume datá-lo em torno de 1.500 a.n.e., mas esta data pode estar bastante equivocada, pois sabemos de descobertas arqueológicas anteriores a ela, em pelo menos 5.000 anos, que relatam textos do Rig-veda.

No Sama-veda nós iremos encontrar uma espécie de releitura do Rig-veda, pois contam os versos do Rig-veda na forma de cânticos, representando, segundo a tradição védica, o êxtase e a benção da chamada auto-realização. Faz-se comparações de que, “enquanto o Rig-veda é o passo, Sama-veda é a dança; o Rg-veda é a palavra, o Sama-veda a compreensão”.

Já o Yajur-veda, o real precursor de todos os outros Vedas, uma vez que todos estavam inicialmente reunidos nele, dedica-se a purificação da mente e o “despertar” da consciência. De fato, o Yajur-veda pretende unir, pelo processo de yoga - união -, o indivíduo com o cosmos.

Por fim o Atharva-veda, contém cânticos e processos mágicos visando acalentar os deuses e as forças da natureza, com grande ênfase na arte da cura. Seus mantras visam afastar todo o mal, os inimigos, as doenças, a má sorte e todas as espécies de interferências positivas na vida. Este Veda é o único que contém rituais de magia e teurgia utilizadas pelos sacerdotes. Muitos ensinamentos do Ayurveda (ayur = vida quotidiana, e vid = conhecimento; ciência da vida quotidiana), tratado sobre a saúde, saíram do Atharva-veda.

No Srimad-Bhagavatam, 1.4.16-25, encontramos o seguinte: “Certa vez, Vyasadeva, logo ao nascer do Sol, tomou sua ablução matinal nas águas do rio Sarasvati e sentou-se sozinho para concentrar-se. O grande sábio, viu anomalias nas funções do milênio. Isso acontece na Terra em diferentes eras, devido a forças invisíveis, no decorrer do tempo. O grande sábio, que estava plenamente equipado com conhecimento, pôde ver, através de sua visão transcendental, a deterioração de tudo que é material, devido à influência da era. Ele pôde ver, também que das pessoas infiéis em geral teriam reduzida sua duração de vida e seriam impacientes, devido à falta de bondade. Desse modo, ele procurou o bem-estar dos homem em todas as ordens de vida [segundo o sistema de castas tradicionais da Índia]. Ele viu que os sacrifícios mencionados nos Vedas eram meios pelos quais as ocupações das pessoas poderiam ser purificadas. E para simplificar o processo, ele dividiu o único Veda [Yajur-veda] em quatro, a fim de expandi-los entre os homens". As quatro divisões das fontes originais de conhecimento (os Vedas) foram feitas separadamente. Mas os fatos históricos e histórias autênticas mencionados nos Puranas são chamados de quinto Veda.

Após o Vedas serem divididos em quatro partes, Paila Rishi tornou-se o professor do Rig-veda; Jaimini, o professor do Sama-veda, e Vaishampayana sozinho obteve a glória de Yajur-veda. Ao Sumantu Muni Angira, que era um Rishi muito devotado, foi confiado o Atharva-veda. E Romaharshana, ficou encarregado dos Puranas e dos registros históricos.

Todos estes acadêmicos eruditos, por sua vez, transmitiram os Vedas que lhes foram confiados a seus muitos discípulos, vem como aos discípulos de segunda a terceira gerações; e assim surgiram os respectivos ramos dos seguidores dos Vedas. Dessa forma, o grande sábio Vyasadeva, que é dito como sendo “muito bondoso para com as massas ignorantes”, editou os Vedas para que eles pudessem ser assimilados pelos homens da vida comum. Por compaixão, o grande sábio achou sensatamente que isso iria capacitar os homens a atingirem o objetivo último da vida, a liberação. Desse modo, ele compilou a grande narração histórica chama Mahabharata, para as mulheres, trabalhadores e amigos dos duas vezes nascidos (Brahmanas).

Por sua vez, cada Veda consiste de três partes: 1. Mantras ou hinos, 2. Brahmanas ou explicações dos mantras e rituais e 3. Upanishads ou expressões místicas que revelam profundas verdades espirituais. As mais importantes são os Upanishads. Formam as bases do Hinduísmo. Os mais importantes Upanishads são: Kata, Kena, Katha, Prashna, Mundaka, Mandukya, Aitareya, Candogya, Bahadaranyaka, Kaushitaki e Svetashvatara. Estas são altamente autorizadas. Como aparecem no fim do Veda, o ensinamento baseado neles é chamado Vedanta (teleologia (finalidade) védica). Algumas vezes o assunto exposto de todo o Veda acha-se dividido em: 1. Karma-kanda, 2. Upasana-kanda e 3. Jñana-kanda. O primeiro trata dos rituais, o segundo do culto ou meditação e o terceiro do mais alto conhecimento”. Costuma-se dizer que os Upanishads contém seis máximas ou Mahavakyas, “grandes ensinamentos”, sendo eles descritos a seguir:

6. Os Upanishads e os Mahavakyas
Os Upanishads são um conjunto de escrituras védicas, alguns em prosa, outros em verso, dos conhecimentos fundamentais dos Vedas. É dito que os Upanishads são os textos teleológicos dos Vedas, porque contêm em si a essência Vaidika-dharma. A complexidade dos Seus assuntos requer que aquele que Os estuda tenha o supervisionamento de um mestre experiente e realizado na Sua sabedoria. Assim como é dito que o Mantra Gayatri é a essência dos Vedas, e o OM a essência dos Vedas e do Gayatri, Os Mahavakyas (diz-se marra váquia) "ou grades ditos ou dizeres" são a essência dos Upanishads. Estes Mahavakyas resumem o conteúdo de todos os Upanishads, sendo que os 6 a seguir são o néctar da essência dos Upanishads.

1. Aham Brahmasmi: “Eu sou Brahma”. Estabelecendo a identidade entre o indivíduo e o chamado “Eu” supremo. Dentro de cada um de nós há a presença Dele em nossos corações;

2. Ayam Ama Brahma: “O Eu é eterno”. Havendo uma unidade entre o indivíduo e o Eu Absoluto, todos perfazemos o Absoluto e Ele é eterno;

3. Tat tvam Asi: “Tu és isto”. A mente é que nos conceda a ilusão do outro. Nós somos também os outros, pois o conhecimento está em todos os lados. Eu me percebo nele, logo, “todos somos isto”;

4. Prajñanam Brahma: “A inteligência é Brahma”. De certo modo, esta afirmação está dizendo que a nossa inteligência individual é a presença da inteligência divina em nós. Portanto, pelo seu intermédio podemos conceber o Absoluto;

5. Sarvam Khalvidam Brahma: “Todo o Universo é Brahman”. Portanto, tudo o que existe e que também não existe forma o Eu Supremo, o Uno. Não há nada que é ou será que não seja Brahma;

6. So ham: “Eu sou Ele”. No ato de respirar, nós dizemos o tempo todo o Absoluto.

Segundo Sarma, “A seguir, em importância ao Shruti, está o Smriti, que coletivamente significa as escrituras secundárias. Estas têm sua autoridade derivada do Shruti, pois sua finalidade consiste em expandir e exemplificar os princípios do Veda. Consistem em: 1. Smritis ou códigos de lei, 2. Itihasas ou épicos, 3. Puranas ou crônicas e lendas, 4. Agamas ou manuais de culto e 5. Darshanas ou escolas de filosofia. Vejamos:

7. Smriti
Cada um destes itens está distribuído em códigos ético-morais: os códigos mais importantes são o Manu, o Yajñavaika e o Parashara, dando conta, digamos assim, do que cada um deveria fazer segundo sua “classe social (varnashrama)”; Itihasas: estes são sem dúvida alguma os livros mais lidos (sabidos de-cor) de toda a Índia Hindu. O Mahabharata (grande Índia) e o Ramayana (epopéia de Rama), constituem os grandes épicos védicos. O Bhagavad-Gita, um capítulo do Mahabharata, constitui um livro a parte. Seus 700 versos contam a história de Arjuna e Krishna, diante do campo de batalha de Kurushetra, onde também são descritos os quatro tipos de yoga fundamentais: Karma-yoga, Dhyana-yoga, Jñana-yoga e Bhakti-yoga;, sendo que Karma-Jñana-Bhakti é o conjunto perfeito da desvelação da Verdade Suprema.

8. Puranas
São considerados “instrumentos de educação popular”, mas seguem os textos épicos importantes. Mesmo assim, muitos dos Puranas contêm relatos históricos importantes. Nestes textos, é freqüente o aparecimento de avataras e o relato de seus feitos. O mais constante são as citações às dez encarnações principais de Vishnu, como: Matsya (o Peixe), Kurma (a Tartaruga), Varaha (o Javali), Narasimha (o Homem-leão), Vamana (a Anão), Parashurma (Rama com o machado), Ramacandra (herói do Ramayana), Shri Krishna (o Bhagavan do Gita), Buddha (o fundador do Budismo), Kalki (o herói que num cavalo branco irá aparecer no final da Kali-yuga).

Se nós observarmos com atenção, existe uma teleologia em cada um dos aparecimentos de Vishnu na forma de um avatar. Matsya, por exemplo, possuía o objetivo de proteger e salvar o “progenitor da raça humana”, Vaisvasvata Manu, diante de um dilúvio que punha em risco toda a existência terrestre. Já a tartaruga Kurma, apareceu para “recuperar algo de valor”, os Vedas e Manu, que havia sido perdido no dilúvio, uma vez que os deuses e demônios tinham “revirado o Oceano de leite” procurando por “estes princípios perdidos”, mas nada encontraram. Kurma ofereceu-se para encontrá-los. A Terra, submersa nas água do dilúvio, tragada pelas atitudes maléficas de um demônio denominado Hiranyaksha, é levantada por Varaha, o Javali. O Homem-leão, Shri Nrishimhadeva, veio a este mundo com a finalidade de libertar a Terra da tirania de Hyranyakashipu. Este poderoso demônio havia adquirido alguns dons de Brahma, o criador do mundo, mas logo achou-se todo-poderoso, pois realmente estava imune a deuses, homens e animais. O avatar anão, Vamana, tinha como propósito “restabelecer o poder dos deuses”, que se encontravam esquecidos do reinado de Deitya Bali. Parashurama veio ao mundo para libertá-lo da tirania dos Kshatriyas, destruindo esta raça vinte e uma vezes. Rama, o principal agente do Ramayana, teve como objetivo derrotar o tirano Ravana, o conhecido “rei demônio de Lanka”. Krishna possui um triplo objetivo, uma vez que seu aparecimento condiz com o início da Kali-yuga. O primeiro deles é destruir os demônios, liderar a grande batalha de Kurushetra e trazer o mundo a grande mensagem de Bhakti (protegendo seus devotos), no Bhagavad-Gita. Buddha, por sua vez, é o fundador do Budismo, onde é frisado a proibição dos sacrifícios dos animais, enfatizando também a sua vontade para com todas as criaturas, para com todas as entidades vivas. Por fim, o décimo avatar em importância é Kalki, que nos final da Kali-yuga virá para virá para destruir os demônios e restabelecer a moral e a virtude, que estarão em completa decadência na mal de governantes completamente desqualificados e demoníacos (veja mais sobre Dasa-avatara).

9. Ágamas
Os Agamas podem ser considerados uma classe de escritos populares. Entretanto, o uso deste termo refere-se mais à forma como lidam os devotos com os cultos num aspectos singular ou particular. No Hinduísmo, podemos destacar três grandes grupos devocionais, os Sivaistas, que adoram Deus como Siva; os Vaishnavas, que adoram Deus como Vishnu, e os Shaktistas ou tântricos, que adoram a Deus como Mãe do Universo, sobre as diversas formas de Devi.

Escolas de filosofia ou Darshanas, que na realidade são “pontos de vista” filosóficos, semelhante, por exemplo, como acontece no Ocidente sob um mesmo aspecto metafísico. Dos seis pontos de vista filosóficos, a saber: Nyaya (Buddha), Vaishesika (Kanada), Sankhya (Kapila), Yoga (Patañjali), Mimamsa (Jaimini), Vedanta (Badarayana)], permanecem como de maior importância o Vedanta.

Mahadeva (Siva) com fragmentos dos Āgamas
Devemos, também, chamar a atenção dos leitores para algumas interpretações ocidentais fruitivas dos textos védicos, que fazem uma espécie de “polaridade” indevida entre o Sankhya e o Vedanta. Os Vedanta-sutras, na realidade, são textos filosóficos védicos comentados. E, obviamente, tanto o conhecimento do Sankhya como o Vedanta pertencem aos Vedas, e estão de um modo outro contextualizados naqueles Escritos. Entretanto, alguns autores dizem que o Sankhya é filosofia naturalista pura, dando, evidentemente, uma ênfase às suas convicções particulares e materialistas, independente dos Vedas. Mas, isso se deve pela existência de um monge chamado Kapila que pertencia aos materialistas, mas não se trata de quem é citado no Srimad-Bhagavatam; e, quanto ao restante, os chamados "espiritualistas", segundo esta classificação não autorizada, estariam vinculados ao Vedanta. Quando nós nos referimos a Kapila, com certeza, estamos nos referindo a Kapila Muni, filho de Devahuti, e que aparece registrado no Srimad-Bhagavatam (Bhagavata Purana). O Srimad-Bhagavatam é um dos documentos sagrados de grande importância dentro do chamado “teísmo védico”, e que postula as bases analíticas da Metafísica oriental, bem como qual é seu escopo e teleologia.

Kapila Muni, como anteriormente dissemos, aparece no Srimad-Bhagavatam, precisamente no Terceiro Canto, do Capítulo 25 ao 33. E, Este, definitivamente, é teísta e se trata, segundo nós entendemos, pela literatura védica consagrada, do verdadeiro Kapila que instruiu sobre o Sankhya.

O Sankhya, como vimos acima, nos permite distinguir entre o físico e a matéria, na medida em que avança nos aspectos metafísicos da existência, mas, convém salientar, faz também afirmações a partir das “contingências do mundo material”, portanto, possui uma espécie de cunho naturalista, mas não é naturalismo puro.

10. Os textos fundamentais do Hinduísmo e as escolas
Sri Kapila Munī
Dentro do Hinduísmo nós podemos destacar muitas escrituras, sendo que os Vedas são seus mais importantes textos e lhe ocupam o topo na hierarquia de importância. A palavra “veda” pode ser traduzida como “conhecimento”, ou “sabedoria”, e é possível que tenha influenciado o latim com o vocábulo “veritas; veritatis”, que em português quer dizer “verdade”. Os Vedas tradicionais são o Rig-veda, o Sama-veda, o Yajur-veda e o Atharva-veda. A maioria dos Vedas possuem os hinos e os rituais de sacrifícios religiosos dispostos de forma aprofundada. Em todos eles, porém, nós encontramos três partes importantes, a saber:: Samhita, Brahmanas, e Upanishads. Estas divisões têm a finalidade de atingir públicos diferentes, uma vez que se entendia que nem todos possuíam a mesma capacidade de intelecção e de compreensão dos textos védicos originais. Nós encontramos algo semelhante nos textos filosóficos gregos de algumas escolas, onde existiam os chamados textos ou escritos exotéricos, destinados ao público em geral, e os escritos esotéricos, textos destinados somente para um seleto grupo de filósofos ou pensadores. Neste sentido, os Upanishads são textos de difícil entendimento por parte do grande público, e sua tradução literal significa “diante de”, ou seja, eram comentários e textos obtidos frente a um mestre instrutor. Por outro lado, muitos Samhitas e Puranas, a exemplo do Bhagavad-Gita e Srimad-Bhagavatam, fazem parte dos ensinamentos para o público em geral. Já os Brahmanas são textos voltados para os preceitos e rituais praticados pelos sacerdotes, que recebem seu nome, tendo em vista o pré-requisito da compreensão e estudo aprofundado dos Vedas. Apesar do Manusmriti parecer como um texto independente, e posterior aos Vedas, Manu é citado nos textos védicos clássicos e originais. Por exemplo, lemos no Kanda I, Prapathaka I, “Sacrifícios para Lua nova e cheia” nas orações preliminares do Yajur-veda, mantra 2, o seguinte verso: “Vós sois a substância do sacrifício. Os Rakshasas (demônios) são queimados por ele, e os espíritos demoníacos são também queimados. Sois a causa Védica para os sacrifícios de palha; feitos originalmente por Manu e adaptados pelos chamamentos de Svadha”.

Os textos hindus mais apreciados por todos são os Puranas, devido as suas características de contar os chamados Lilas, ditos passatempos dos seus personagens, principalmente Krishna e Siva. Nos Puranas nós temos muitos dos chamados mitos hindus, onde seus personagens nos desvelam suas personalidades, sua vida cômica e trágica. Nos Puranas está muito da cosmologia védica: de como o mundo iniciou; como teve outros começos; batalhas entre semideuses e demônios, etc. Um dos mais famosos Puranas é o Bhagavata-Purana, também conhecido como Shrimad-Bhagavatam; é uma volumosa obra onde no seu Canto X é descrito a vida de uma encarnação de Vishnu, conhecida como Krishna. Krishna é um dos principais mediadores na Batalha de Kurukshetra, junto de Arjuna, seu primo. A parte do Mahabharata, no seu sexto Canto, chamada de Bishma-parva, a saga de Bishma, o avô dos contendores, ficou conhecido popularmente conhecida como Bhagavad-Gita, ou a “Canção do Senhor”. Nesta batalha digladiaram-se membros de uma mesma família, dividida entre as facções, os Pandavas e os Kauravas.

O Mahabharata e o Ramayana são considerados as duas epopéias do Hinduísmo. No primeiro, como vimos, está a mais espetacular das batalhas já ocorridas no mundo. No segundo, que é anterior ao primeiro na sua realidade histórica, é contada a saga de Rama e sua consorte Sita, que fôra raptada pelo demônio Ravana. No Ramayana aparece a figura de Hanuman, o homem-macaco, que se tornou o principal apoio para a vitória de Rama.

Uma parte do Mahabharata, o Bhagavad-Gita, é uma importante obra de discussão filosófica onde aparece o principal significado da natureza da existência, quais os desígnios dos homens, e como devem agir para atingirem a perfeição. É sem dúvida uma das obras mais publicadas no mundo, só ficando em segundo lugar com a Bíblia judaico-cristã.

Hari OM Tat Sat

terça-feira, 6 de março de 2012

Significado de Dharma


Significado de Dharma  

Swami Kṛṣnaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA

Porto Alegre, RS - Brasil
 2006-2012


Arjuna recebe ensinamentos sobre o Dharma

O sistema védico possui quatro pilares de sustentação da existência, conhecidos como  "chaturvarga" (quatro caminhos ou vias): Artha, Kama, Dharma e Moksha. No sentido amplo, Artha diz respeito à riqueza e sua distribuição justa; a arte e ciência econômica, tanto pessoal, familiar como do vilarejo, cidade, estado e país. Isso porque a ciência védica vê tudo de modo global e unitário. Kama diz respeito ao gozo dos sentidos, de forma justa e equilibrada; dança, música, pintura, escultura, etc., são artes ligadas ao prazer dos sentidos. Dharma no seu amplo e irrestrito sentido diz respeito à Justiça de forma justa; portanto, Dharma é o princípio da equidade levado à prática nas ações humanas. Por fim, Moksha diz respeito a justa maneira de buscar a liberação do ciclo de Samsara (nascimentos e mortes repetitivos), liberando-nos.

Como podemos observar, o princípio de "justiça" ou "justa medida" está sempre presente no Chaturvarga. O Sanatana Dharma tem ocupação com o Karma, ou ação que alguém realiza. Daí depreende-se que "dharma" é o principio norteador de todos os princípios. Isso porque o Ahimsa (não-agressão) é a base do Dharma, então a justa distribuição da riqueza; justa distribuição da justiça; justa aplicação do gozo dos sentidos, e a justa busca pela liberação, são norteados pelo Dharma ou princípio universal da Justiça. O conceito de "justiça" é tão variado e está sujeito a tantas interpretações como os conceitos de "verdade" e "liberdade". A verdade para um pode não ser para outro, bem como a liberdade de um pode ser a prisão de outro. Visando diminuir o máximo possível a ambiguidade na aplicação da reta justiça, a idéia de Dharma apresenta-nos o pricípio da equidade. Equidade, grosso modo, é sermos iguais com os iguais e diferentes para com os diferentes. Equidade, também, significa distribuir a justiça de forma justa. Por exemplo, se alguém coloca uma placa tipo: "proibido entrada de cães", numa pracinha, isso não quer dizer que cavalos, bois, cães, e outros animais, possam entrar. O rigor expresso na lei é mais abrangente do que a palavra escrita está dizendo naquela placa. Equidade, portanto, neste caso, significa que a placa proíbe qualquer que seja o animal, ainda que este não esteja na placa. Mais correto seria fazer-se uma placa que dissesse: “Proibido a entrada de animais", mas então nós também poderíamos estar proibidos de entrar, contudo, todos entendem que se está falando de animais diferentes de humanos. Isso é aplicar o Dharma: ações extraordinárias em circunstâncias extraordinárias; aplicar o princípio da equidade em todas as ações ou Karma.

Feitas estas colocações iniciais, a seguir veremos como Sua Santidade Swami Sivananda Maharaj responde a pergunta sobre o que é Dharma:

Nenhuma linguagem é perfeita, por isto não há uma equivalência perfeita em inglês ou português para o termo sânscrito Dharma. É muito difícil definir Dharma. Dharma é geralmente definido como “reto agir”, ou “obrigação”. Dharma é o princípio da justiça. É o princípio da santidade. Ele é também o princípio da unidade. Bhiisma disse nas suas instruções para Yudhishtira que qualquer geração de conflito é Adharma (contrário ao dharma), e qualquer coisa que coloca um fim num conflito, e traz e induz unidade e harmonia é Dharma. Qualquer coisa que auxilia para unir e desenvolver o divino amor universal e a irmandade é Dharma. Qualquer coisa criada que discorde, fende e fomente a desarmonia, e o ódio, é Adharma. Dharma é aquilo que sustenta e preenche a vida na sociedade (na convivência dos homens). As regras do Dharma foram estabelecidas materialmente para os homens. Dharma causa, como conseqüência, a felicidade, tanto neste mundo como no próximo. Dharma é um meio de preservação da unidade do Ser. Se você transgride isto, isto irá destruir você. Se você protege isto, irá proteger você. Ele é a única companhia após a morte. Ele é o único refúgio da humanidade.

O que entusiasma alguém é Dharma. Esta é outra definição. Dharma é o que conduz você ao caminho da perfeição e da glória. Dharma é o que socorre você diretamente na comunhão com o Senhor. Dharma é o que torna você divino. Dharma é a escada de ascensão para Deus. A auto realização é Dharma superior. Dharma é o coração da ética hindu. Deus é o centro do Dharma.

Dharma significa Achara ou, a regulação da vida diária. Achara é o supremo Dharma. Ele é a base para Tapas ou austeridade. Ele conduz à riqueza, beleza, longevidade e a continuidade da linhagem (de nascimentos). A má conduta e a imoralidade conduz para a má fama, sofrimento, doença e morte prematura. Dharma possui suas raízes na moralidade e o controle do Dharma é Deus em Si mesmo.

Maharshi Jaimini define Dharma como aquilo que é colocado pelos Vedas e que, no final das contas, não produz sofrimento.

Rishi Kanada, fundador do sistema Vaiseshika de filosofia, foi quem deu a melhor definição de Dharma nos seus Vaiseshika s™tras: “Yato-bhyudanihsreyasa-siddhih sa Dharmah”; “o que leva a realização de Abhyuadya (prosperidade neste mundo) e Nihsreyasa (total cessação da dor, e realização da eterna felicidade futura) é o Dharma.

Hari Om Tat Sat

sábado, 3 de março de 2012

O Absoluto, segundo o Sanatana Dharma


O Absoluto
segundo o Sanatana Dharma

Swami Krsnapriyananda Saraswati
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS
2008-2012

Maha Vishnu ou Paramatma

Mahavishu, Brahman personificado na Sua forma de conservador.

O Absoluto: Deus no Sanatana Dharma.
Conforme a visão do Sanatana Dharma (hinduísmo), "Deus" tem muitos nomes e formas; Ele é onipresente, então, Ele está presente em tudo e em todos. Ele é onisciente, portanto, Ele está na consciência de todos. Também, Ele é onipotente, logo, tudo é Ele. Ele é tão fixo na sua variedade que é como as estações e suas alternâncias; Ele é como as plantações: tempo de arear, semear e colher. Por isso Ele é Brahmaa, a semeadura; Vishnu, a colheita e armazenamento, e Siva, as queimadas, o renovar da terra. Ele é mãe, pai e filho; Ele é Devi ou a deusa criadora, bem como é Mara, a morte, e Maya, a ilusão.

Deus está tanto numa pedra como numa borboleta; na mais diminuta célula viva, e em toda as partes. Tudo é Deus, Deus está em tudo; Ele é tanto imanente como transcendente; tanto com forma como sem forma; tanto manifesto como imanifesto. Desta maneira, há tão somente Deus e Deus somente. No Sanatana Dharma toda a ação (Karma), tem em vista tão somente realizar Isso que é Ele.

Todos somos germinalmente tais quais Ele: Tat Tvam Asi; Maya ou apego ao temporário e ilusório faz a entidade viva perder a consciência do Supremo. No mundo material, todos vivem na ilusão da eternidade da matéria. A identificação com o corpo forma a ideia que diferencia, “eu” d’ Ele. Maya é este poder ilusório que dá nuances de verdade para o que não é verdadeiro. O mundo é uma aparência, um mero arremedo da Verdade. Não há diferenças entre a Verdade e o Supremo. Deus é o Uno do qual tudo se origina. Ele não tem começo nem fim, e É sem-segundo. Ele tem muitos nomes como Krishna, Siva, Mahadeva, Devi (Seu aspecto original feminino, criador); Ele é Ganesha, Skanda, Rama, Kartikeya; Ele é Kali (outro aspecto feminino), assim como Durga. São tantos os nomes e formas que Deus tem, que não se pode dizer todas numa vida. Porque tudo é Deus, logo, sendo Ele onipresente, onipotente, onisciente, está em qualquer lugar, podendo tudo, tendo consciência de Tudo. Ele é tudo.

Nem mesmo o mero cair de uma folha numa árvore distante passa despercebido por Ele. Ele é o controlador original, Vishnu. Ele é o criador de todas as entidades vivas, ou Brahmaa; Ele é o destruidor de tudo, que a tudo renova na Sua forma devastadora de Siva Nataraja. Tudo é Deus; Deus está em tudo. Tudo é Brahman!

A visão do Sanatana Dharma é pananteísta ou panteísta, ou seja, Deus está em tudo, e tudo é Deus. Mas no Sanatana Dharma não há politeísmo (muitos deuses), porque Deus é um só o Uno. Ele tem muitos nomes e muitas formas, mas é tão somente Um. Assim como “humanidade” é todo o conjunto de seres humanos, distintos em formas, cores, culturas, etc., assim, também, Deus é uno na Sua diversidade. Do mesmo modo como há “muitas virgem-marias” no Catolicismo, por exemplo, com muitos nomes e muitas formas, com vestes distintas, etc., assim, também, Deus e Suas representações no Sanatana Dharma é variado; mas suas representações são tão somente manifestações de uma mesma coisa.

A Unidade de Deus
Svarūpa - forma universal 
A principal afirmação da unidade de Deus é a Sua imensa diversidade, porque o Seu passatempo preferido é a diversidade. Assim como um jardim de uma só flor é monótono, sendo lindo quando tendo muitas flores diferentes, do mesmo modo, a multiplicidade de nomes e formas de Deus dá todo o colorido da onipresença de Deus. Assim como somos todos iguais por nossas diferenças, assim, também, Deus é uno da Sua diversidade. Compreender Deus na totalidade e unidade de Sua multiplicidade de nomes e formas é compreender a Unidade do Absoluto. Do mesmo modo como o barro molda vasos, copos, potes, estátuas, etc. etc, a unidade de todas as formas está na essência, ou seja, no barro. Deus é a unidade de tudo. A ilusão de dentro e fora de um vaso se desfaz quando ele se quebra. Desta forma, a ilusão de nomes e formas se desfaz quando há Viveka, ou seja, o discernimento entre o que é temporário, ilusório, passageiro e transeunte e o que é permanente na Sua multiplicidade e unidade. Viveka é saber discernir o que é eterno e permanente daquilo que é variado, temporário e passageiro. Viveka é saber discernir que o Verdadeiro e Sempre existente é o Ser ou Atma, aquilo que dá diferentes formas à matéria, mas que permanece inalterado por ela. O Brahman ou Absoluto é a origem meio e fim de tudo. Ele é tão somente o que de fato existe. Ele se fragmenta em diversos corpos, nomes e formas, mas é tão somente Ele, em diferentes graus de consciência que existe. Somos puro Atma: Tat Twam Asi: somos tais quais Ele, apenas se está corporificado num corpo temporário devido ao desejo pessoal de desfrutar-se dos sentidos grosseiros. Tão logo a falsa idéia do mundo material se desfaz diante do Absoluto e Eterno Brahman, então a entidade viva deseja por união permanente com o que ela realmente é, ou seja, puro Brahman: “Aham Brahmasmi”, afirmam os praticantes do Vedanta: Brahman é o que sou! Tão somente há Brahman.

Deus é uno e tudo é Deus. Há tão somente Deus e Deus somente. Toda a vida material é um aspecto ilusório ou externo, temporário, transitório, enquanto Brahman é a realidade última, única e eterna, que “está sempre sendo”. Sua finalidade é “sempre ser”. O Ser ou Atma é Brahman. O que chamamos “alma” é tão somente Atma, a unidade fundamental do Supremo. Alma é o que somos, logo, tão somente somos Brahman, porque tudo é Brahman.

Adoração ao ídolo
Murti de Mahavishnu
No Bhagavad-gita, canto 12.1, Arjuna pergunta para Sri Krsna, “qual entre os devotos é o mais versado na ciência do Yoga (busca da união ou Samadhi com o Supremo), os que te adoram no aspecto manifesto ou os que te adoram no aspecto imanifesto?”. Manifesto e imanifesto, as vezes são chamados de “personificado” ou “pessoal”, ou então “despersonificado” ou “impessoal”, respectivamente. Então, o Senhor Krishna responde que tanto um como o outro devoto pode ser bem versado na ciência do Samadhi, contudo, aqueles que O adoram no aspecto imanifesto ou impessoal têm mais dificuldade de atingi-lO. Por que isso? Porque concentrar-se numa forma, com atributos, passatempos, parafernálias, etc., é mais fácil para nós, porque estamos acostumados ao mundo com sua multiplicidade de nomes e formas. Com o passar do tempo, com o desenvolvimento de Viveka, vai-se atingindo a compreensão da unidade de tudo e de todos. Passo a passo, o devoto vai se desapegando do mundo, ou melhor, dos resultados das ações ou Karma, como se ele fosse o controlador de algo. Como está no Bhagavad-gita, 12.12, “o conhecimento é melhor do que a mera prática; mas a meditação é melhor do que o conhecimento, contudo, a renúncia ou Tyaga é melhor do que a meditação, porque a paz advém imediatamente para aquele que renuncia”. Mas renuncia ao que? Ao desejo de desfrutar dos frutos do Karma ou do trabalho. Eis porque o devoto vai aos poucos se desapegando, de achar-se ele como sendo o causador das coisas. A mera luta por um desfrute do resultado do trabalho é a causa do sofrimento “porque podemos controlar apenas nossas ações mas não as reações”; o arqueiro tem o controle da flecha até que a atira; tão logo a flecha sai do arco, o seu destino está lançado; não sabe mais o arqueiro – apesar de desejar - se ele irá alcançar o alvo. Portanto, quem renuncia o fruto do resultado alcança a paz da realização, porque tudo é feito tão somente para agradar ao Supremo.

Sri Krsna, ao longo do décimo segundo canto do B.Gita, comenta em detalhes as várias técnicas que o devoto ou pretendente à liberação deverá dedicar-se para obtê-la. A liberação do mundo material trata-se de livrar-se do Samsara, ou retorno ao mundo material devido à própria vontade do agente (Purusa ou Jiva) em querer desfrutar.

Adorar ao ídolo no templo; oferecer incenso, luz de ghi (manteiga clarificada), água, flores, frutos e alimentos é uma maneira de colocar os sentidos grosseiros para cheirar, ver, sentir, etc., tão somente os atributos da Deidade. O som da campainha detém o sentido da audição; o incenso, do olfato; a lâmpada de ghi, a visão, o bater de palmas no Kirtana, o tato, etc. Então, o devoto mantém todos os seus sentidos para tão somente adorar e glorificar o Supremo, Este razão de tudo.

Cada um deve procurar o Abhyasa ou técnica – método, sistema, etc., - que seja mais adequado para si próprio. Uns têm melhor desenvolvimento nos aspectos pessoais (a grande maioria), uns poucos no aspecto impessoal, Absoluto imanifesto de Brahman, mas com maiores dificuldades.

Em cada casa há um templo. Cada casa é, de fato, um pequeno Vaikunta ou mundo espiritual. Ela é consagrada ao ídolo, Deidade ou Murti do lar. A manutenção da chama ou Dip é feita pela mulher; ela toma conta de manter a tradição acesa. O fogo representa a vida, a criação, a renovação. Um dia por ano acendem-se muitas lamparinas, é o Dipawali, ou dia das lâmpadas. É o dia do perdão “hindu”. É o dia de dar roupas novas, presentear, perdoar aos ofensores, bem como é o início do Ano Novo. Este festival dá-se geralmente em meados de Novembro (no Ocidente é chamado de “dia das bruxas” - Halloween). Mas diferente da comemoração Ocidental, na Índia acende-se carreiras de luzes; iluminam-se as casas para receber Laksmi, a “deusa da fortuna”, a consorte do Senhor Vishnu.
Assim, em cada lar do Vaidika Dharmi (seguidor do Dharma, segundo os Vedas), há um templo consagrado ao Senhor ou Senhora Suprema com uma ou mais formas de imagens, ou quadros, ou mesmo uma pedra. Deus é onipresente, então está até mesmo num grão de arroz. A vida é levada como num lugar sagrado. A casa é o santuário da vida, então nem mesmo se deve usar sapato dentro de casa. Regras simples, mas que tornam o dia dia do devoto um ato sagrado, mesmo naquelas coisas mais triviais e comuns.

O mundo
Kamadhenu 
O planeta Terra é considerado um Patala de quinta grandeza, ou seja, um pequeno mundo infernal. Apesar de o termo nos remeter aos aspectos do entendimento Ocidental, “infernal” aqui aparece no seu sentido literal, ou seja, inferior, abaixo do Mundo Espiritual. Há planetas infernais e planetas celestes. As diferenças estão nos níveis de desfrutes possíveis. Há planetas infernais que possuem cinco vezes mais desfrutes que o planeta Terra. Há planetas celestes que estão muito acima em qualidade de vida material que qualquer outro, mas, em todos os casos, a alma corporificada deverá voltar a esta pequena Terra, considerada como estando no centro de Meru (a coluna do cosmos), e então alcançar a liberação. Enquanto não alcança-la, deverá voltar tantas vezes quantas forem necessárias para alcançar a liberação do Samsara. Este mundo material é, ao mesmo tempo, infernal e celeste. Mesmo os semideuses almejam nascer aqui. Porque aqui é que está a liberação do Samsara. Imagine-se que tão somente agir de tal maneira como um instrumento nas mãos do Supremo é possível alcançar a liberação do Samsara? Em nenhum outro local do universo isso é possível, segundo as Escrituras.

Quando o Senhor Krsna, o Vishnu corporificado na forma do Dharma, vem para restabelecer a ordem ou Dharma, então tudo se santifica. O mundo recebe os pés de lótus de Deus, então o mundo é, também, santificado. Logo, este mundo é um mundo celeste, divinizado, inteiramente purificado pelo Senhor e Sua misericórdia sem causa ou desmotivada. Apenas por Sua imensa compaixão e misericórdia o Senhor nos dá a Sua bênção de vir aqui e nos ajudar em nossas loucuras.

O mundo é desprovido de bem e mal. Quem ainda se deixa levar pelos pares de opostos,  certamente, não compreendeu a natureza perene e uma do Brahman. Os pares de opostos são possíveis porque há as idéias de “eu” e “meu”, tão logo elas se desmancham, diante da evidencia do Viveka, então o mundo passa a ser visto como um Lila ou passatempo do Senhor. Aqui é um palco para Seu deleite; somos instrumentos do Seu prazer, segundo Sua vontade. Erroneamente a alma corporificada identifica-se com o fruto do desfrute; se esquece do seu caráter temporário e passageiro, e age como se fosse eterna. A confusão se dá porque a alma é, de fato, eterna, mas o corpo não. Apesar de o corpo nascer, envelhecer e morrer, o agente ou quem lhe dá movimento é eterno, sempre existente, nunca nascido, e que jamais morre. Não há “criação” da alma; ela é eterna, incorruptível, não pode ser molhada, secada pelo fogo ou pelo vento; ela é eterna. O mundo é criação da vontade do Senhor, enquanto sonha no Seu sono cósmico. A criação vem e vai. Há uma criação e destruição eternas. São partes do processo material que está sujeito aos pares de opostos. O mundo material é a natureza externa do Supremo ou de Brahman; é um passatempo, um Lila Seu; não é real enquanto comparado com a eternidade do Atma, mas é temporário, passageiro, transeunte, sujeito à corrupção de categorias tão primitivas como tempo e espaço.

Eternidade do Brahman.
Trimurti
A criação, manutenção e destruição do Universo é eterna. Dois aspectos, e duas categorias, pertencem à filosofia do Sanatana Dharma e buscam perguntar pela eternidade do Brahman. O aspecto fixo e imutável, e o aspecto dinâmico e mutável; a categoria dual e a não-dual. Comparando à Metafísica de Parmênides, o Ser é eterno, sempre existente, ataráxico, motor-imóvel, sempre a mesma coisa. Assim alguns poucos vêem o Brahman. Isso mais se deve às influências da filosofia grega da Anatólia do que a filosofia Dialética do antigo continente Airyano (ariano), da Pérsia conquistada por Alexandre Magno, o príncipe grego que tanto influenciou os continentes. Mas a filosofia original do Sanatana Dharma é dialética, onde então o Ser é dinâmico, estando constantemente mutando... nada do que foi será novamente.. tudo muda.. nada é o mesmo. Esta visão está bem próxima daquela do grego Heráclito, onde este dizia que nem mesmo podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque não será a mesma água nem o mesmo rio.. tudo está mudando. Esta filosofia está presente há milênios entre os defensores do Tantra, a filosofia de Vasugupta, o filosofo do Siva Sutras ou textos auspiciosos sobre o Ser, onde Ser e consciência são unos: Cheitanya Atmah, ou seja, a consciência é o Atma.

A categoria não-dual da filosofia chama-se Advaita, enquanto que a dual é chamada de Dvaita. Esta é mais recente, porém depende muito da filosofia metafísica, ataráxica, nos moldes do grego Parmênides. Originalmente, toda a filosofia dos Vedas é não-dual, porque há tão somente o Brahman, e a ideia de individuo é ingênua. Não há uma alma individual e outra Suprema, há tão somente uma e única alma chamada Brahman. Mas os dualistas ou Dvaita defendem que há uma alma individual diferente em qualidade da alma Suprema, e esta, no mais das vezes, somente pode ser serva da Suprema, nunca unir-se a Ela. Diferente da filosofia não-dual ou Advaita, que defende a unidade do Brahman, o dualismo crê que o individuo pode tão somente contemplar o Supremo, mas o não-dualismo ou Advaita, que diz o contrário, porque na dissolução do “eu” e “meu” é onde está a liberação do Samsara, porque qualquer que seja o resquício de “mim” trará, de algum modo, a corporificação no mundo material, eternizando o Samsara ou retorno, muitas vezes chamado de “reencarnação”.

Brahman é eterno, e sua eternidade está presente no “sempre sendo”, mas de forma dinâmica, mutável, sendo eterno na sua mutabilidade; sendo Uno na Sua diversidade. Compreender o Uno no dinamismo do Ser é compreender tais quais muitos defendem na Teoria Quântica. Contudo, neste ainda há o átomo, ou unidade da matéria, mas, na visão védica, a matéria é tão somente uma ilusão, um agregado da vontade do Supremo. Não há átomos, nem partículas, tão somente a vontade do Supremo em querer fazer a diversidade a partir de Si mesmo, do mesmo modo como vasos, potes, ânforas, etc., são feitos de barro, tendo este elemento comum na sua “formação”. São ilusórias, portanto, as idéias de “dentro”, “fora”, “vaso”, “copo”, etc., porque tudo volta a sua “matéria” original tão logo é destruído enquanto forma. Forma é ilusão; diferentes moldagens de uma mesma e única matéria: a vontade do Supremo.


Om Hari Hara OM Tat Sat