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quarta-feira, 21 de março de 2012

Escrituras Hindus


Escrituras Hindus

Srī Swami Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
Gītā Āśrāma
Porto Alegre, RS
1997-2012



Sri Vyasadeva Maharishi



1. Introdução
É um fato notável de que não há uma religião sem seus escritos sagrados. Uma religião deve possuir um corpo de doutrinas, bem como uma cosmologia, uma teodicéia, e todo um conjunto de ensinamentos e filosofia que a tornam uma verdade possível. Também é bem conhecido o fato que uma religião deverá possuir um conjunto de mitologia, sem que esta expressão possua conotações inferiorizantes. Para o bem da Verdade, uma religião sem estudo e sem filosofia trata-se de uma forma de fanatismo, da mesma forma que uma filosofia sem religião é um modo de exibir a ignorância. Não há religião sem filosofia, sem um corpo de textos que lhe dão a devida sustentação. O Sanatana-dharma, na Sua própria definição de "conhecimento religioso eterno" é uma viva expressão da Verdade Suprema na forma de Escrituras.

2. Escolas de pensamento
Nós podemos destacar seis principais escolas de pensamento que expressam o Sanatana-dharma, a saber: 1) Nyaya; 2) Vaisheshika; 3) Sankhiya; 4) Yoga; 5) Purva-Mimamsa e 6) Vedanta. Uma particularidade destas escolas é que cada uma delas possui um fundador: Nyaya é atribuída a Buddha; Vaisheshika ao sábio Kanada; o Yoga a Patañjali; o Purva-mimamsa a Jaimini, e, por fim, o Vedanta a Badarayana. Apesar de defenderem pontos de vistas diferentes, estas escolas, decerto, abordam questões semelhantes e triádicas, pois procuram analisar as relações existentes entre o Brahman (Verdade absoluta; o Absoluto impessoal), a Jiva, (a alma) e a Prakriti, (mundo material; a Natureza). Às vezes, as escolas Nyaya e Mimansa, são as denominadas escolas heréticas, pois desqualificavam, de certo modo, os textos védicos clássicos.

Vendo a grande diversidade de pensamentos e de suas derivações, fica claro que o Hinduísmo é uma ampla e quase infindável variedade de pensamentos, permitindo conter, inclusive, e abrigar uma outra religião, como o caso do Budismo, que cresceu muito, principalmente, fora do território da Índia, onde não é significativamente expressivo o seu número de adeptos naquele país.

Para um praticante sério de Yoga, os escritos sagrados são personificações da Verdade Suprema, do Senhor em Si mesmo. O Vedanta, e todo o Seu conjunto de escrituras, contêm um vasto número de livros, textos, poesias, Sutras, enfim, contêm o vasto universo védico, numa tentativa de descrever as honras e glórias do Senhor Supremo. Como diz Maharaj Krishnananda, "Toda a nossa tentativa humana de entender a Deus sempre será uma tentativa", ou seja, sempre será uma forma de darmos uma espécie de antropomorfismo para Deus, segundo nossa própria imagem e semelhança. Por conseguinte, o estudo das Escrituras védicas constitui todo um corpo doutrinário e filosófico, do mais elevado nível. Na realidade, o desconhecimento ocidental, senão total da filosofia dos Vedas, e dos seus seis Darshanas insubstituíveis na história do pensamento humano, é algo imperdoável, e tem sido, sem nenhuma dúvida, um dos maiores empecilhos para o desenvolvimento humano.

3. Corpo doutrinário
No Sanatana Dharma há um conjunto de escrituras para um dos pilares sociais da vida. Artha, Kama, Dharma e Moksha, por sua vez, originam todo um corpo de doutrinas que antecedem seus nomes e ciências. Temos, assim, Arthashastras, que são escritos sobre o desenvolvimento econômico; Kamashastras, que tratam do gozo dos sentidos; Dharmashastras, que são os escritos das leis, e, por fim, os Mokshashastras, que se constituem no corpo doutrinário da liberação material "par excelence". Isso significa que o leitor terá todo um conjunto de textos para cada área que desejar desenvolver nos seus estudos. Por outro lado, o correto desenvolvimento e aprendizado das Escrituras deverá ser conduzido sob a orientação experiente de uma pessoa versada nelas, chamado de Guru ou preceptor. Esta dedicação ao Guru não se trata de nenhum fanatismo ou de uma perda de identidade, mas da correta forma de encontrar-se e ter clareado os reiais propósitos da vida humana. Yoga trata-se de um conjunto de ensinamentos e doutrinas que está muito além da simples alienação mental ou psicológica de alguém. O Yoga é um conjunto prático de vida que açambarca um universo inteiro de conteúdos e sentimentos, os quais não podem ser transmitidos apenas por livros. A rendição ao Guru é mais do que uma submissão pura e simples para alguém mais superior em conhecimeto, é uma forma de entregar o coração e a alma para o preceptor que remove toda a escuridão da ignorância na qual estamos mergulhados por absoluta vontade própria. Sendo assim, nada mais acertado do que sairmos desta ignorância por nossa própria vintade, sob a orientação segura e amorosa do Guru.

4. Divisões das Escrituras
As Escritura Hindus podem ser divididas em dois grandes grupos, a saber, Shruti e Smriti. Academicamente podemos dizer que as fontes autorizadas do Hinduísmo estão divididas nestas classes: 1. Shruti e 2. Smriti. Onde, Shruti é considerada a autoridade principal, e Smriti é a autoridade “secundária” dos textos sagrados.

5. Shruti, significa literalmente “aquilo que é ouvido”. Diz-se que grandes Rishis (sábios) escutaram em meditação às verdades eternas da religião e deixaram um relatório para o benefício dos outros. Estes relatórios são chamados Vedas. Temos quatro Vedas a saber: o Rig-veda, o Yajur-veda, o Sama-veda e o Atharvana-veda.

O Rig-veda é considerado um dos mais antigos Veda, consiste em mais de 1.000 hinos, e, praticamente, todos os outros Vedas baseiam-se nele. Contudo, grande parte dos aspectos conhecidos nas “ciências védicas”, como as técnicas de meditação, mantras e yoga são ali encontrados. É costume datá-lo em torno de 1.500 a.n.e., mas esta data pode estar bastante equivocada, pois sabemos de descobertas arqueológicas anteriores a ela, em pelo menos 5.000 anos, que relatam textos do Rig-veda.

No Sama-veda nós iremos encontrar uma espécie de releitura do Rig-veda, pois contam os versos do Rig-veda na forma de cânticos, representando, segundo a tradição védica, o êxtase e a benção da chamada auto-realização. Faz-se comparações de que, “enquanto o Rig-veda é o passo, Sama-veda é a dança; o Rg-veda é a palavra, o Sama-veda a compreensão”.

Já o Yajur-veda, o real precursor de todos os outros Vedas, uma vez que todos estavam inicialmente reunidos nele, dedica-se a purificação da mente e o “despertar” da consciência. De fato, o Yajur-veda pretende unir, pelo processo de yoga - união -, o indivíduo com o cosmos.

Por fim o Atharva-veda, contém cânticos e processos mágicos visando acalentar os deuses e as forças da natureza, com grande ênfase na arte da cura. Seus mantras visam afastar todo o mal, os inimigos, as doenças, a má sorte e todas as espécies de interferências positivas na vida. Este Veda é o único que contém rituais de magia e teurgia utilizadas pelos sacerdotes. Muitos ensinamentos do Ayurveda (ayur = vida quotidiana, e vid = conhecimento; ciência da vida quotidiana), tratado sobre a saúde, saíram do Atharva-veda.

No Srimad-Bhagavatam, 1.4.16-25, encontramos o seguinte: “Certa vez, Vyasadeva, logo ao nascer do Sol, tomou sua ablução matinal nas águas do rio Sarasvati e sentou-se sozinho para concentrar-se. O grande sábio, viu anomalias nas funções do milênio. Isso acontece na Terra em diferentes eras, devido a forças invisíveis, no decorrer do tempo. O grande sábio, que estava plenamente equipado com conhecimento, pôde ver, através de sua visão transcendental, a deterioração de tudo que é material, devido à influência da era. Ele pôde ver, também que das pessoas infiéis em geral teriam reduzida sua duração de vida e seriam impacientes, devido à falta de bondade. Desse modo, ele procurou o bem-estar dos homem em todas as ordens de vida [segundo o sistema de castas tradicionais da Índia]. Ele viu que os sacrifícios mencionados nos Vedas eram meios pelos quais as ocupações das pessoas poderiam ser purificadas. E para simplificar o processo, ele dividiu o único Veda [Yajur-veda] em quatro, a fim de expandi-los entre os homens". As quatro divisões das fontes originais de conhecimento (os Vedas) foram feitas separadamente. Mas os fatos históricos e histórias autênticas mencionados nos Puranas são chamados de quinto Veda.

Após o Vedas serem divididos em quatro partes, Paila Rishi tornou-se o professor do Rig-veda; Jaimini, o professor do Sama-veda, e Vaishampayana sozinho obteve a glória de Yajur-veda. Ao Sumantu Muni Angira, que era um Rishi muito devotado, foi confiado o Atharva-veda. E Romaharshana, ficou encarregado dos Puranas e dos registros históricos.

Todos estes acadêmicos eruditos, por sua vez, transmitiram os Vedas que lhes foram confiados a seus muitos discípulos, vem como aos discípulos de segunda a terceira gerações; e assim surgiram os respectivos ramos dos seguidores dos Vedas. Dessa forma, o grande sábio Vyasadeva, que é dito como sendo “muito bondoso para com as massas ignorantes”, editou os Vedas para que eles pudessem ser assimilados pelos homens da vida comum. Por compaixão, o grande sábio achou sensatamente que isso iria capacitar os homens a atingirem o objetivo último da vida, a liberação. Desse modo, ele compilou a grande narração histórica chama Mahabharata, para as mulheres, trabalhadores e amigos dos duas vezes nascidos (Brahmanas).

Por sua vez, cada Veda consiste de três partes: 1. Mantras ou hinos, 2. Brahmanas ou explicações dos mantras e rituais e 3. Upanishads ou expressões místicas que revelam profundas verdades espirituais. As mais importantes são os Upanishads. Formam as bases do Hinduísmo. Os mais importantes Upanishads são: Kata, Kena, Katha, Prashna, Mundaka, Mandukya, Aitareya, Candogya, Bahadaranyaka, Kaushitaki e Svetashvatara. Estas são altamente autorizadas. Como aparecem no fim do Veda, o ensinamento baseado neles é chamado Vedanta (teleologia (finalidade) védica). Algumas vezes o assunto exposto de todo o Veda acha-se dividido em: 1. Karma-kanda, 2. Upasana-kanda e 3. Jñana-kanda. O primeiro trata dos rituais, o segundo do culto ou meditação e o terceiro do mais alto conhecimento”. Costuma-se dizer que os Upanishads contém seis máximas ou Mahavakyas, “grandes ensinamentos”, sendo eles descritos a seguir:

6. Os Upanishads e os Mahavakyas
Os Upanishads são um conjunto de escrituras védicas, alguns em prosa, outros em verso, dos conhecimentos fundamentais dos Vedas. É dito que os Upanishads são os textos teleológicos dos Vedas, porque contêm em si a essência Vaidika-dharma. A complexidade dos Seus assuntos requer que aquele que Os estuda tenha o supervisionamento de um mestre experiente e realizado na Sua sabedoria. Assim como é dito que o Mantra Gayatri é a essência dos Vedas, e o OM a essência dos Vedas e do Gayatri, Os Mahavakyas (diz-se marra váquia) "ou grades ditos ou dizeres" são a essência dos Upanishads. Estes Mahavakyas resumem o conteúdo de todos os Upanishads, sendo que os 6 a seguir são o néctar da essência dos Upanishads.

1. Aham Brahmasmi: “Eu sou Brahma”. Estabelecendo a identidade entre o indivíduo e o chamado “Eu” supremo. Dentro de cada um de nós há a presença Dele em nossos corações;

2. Ayam Ama Brahma: “O Eu é eterno”. Havendo uma unidade entre o indivíduo e o Eu Absoluto, todos perfazemos o Absoluto e Ele é eterno;

3. Tat tvam Asi: “Tu és isto”. A mente é que nos conceda a ilusão do outro. Nós somos também os outros, pois o conhecimento está em todos os lados. Eu me percebo nele, logo, “todos somos isto”;

4. Prajñanam Brahma: “A inteligência é Brahma”. De certo modo, esta afirmação está dizendo que a nossa inteligência individual é a presença da inteligência divina em nós. Portanto, pelo seu intermédio podemos conceber o Absoluto;

5. Sarvam Khalvidam Brahma: “Todo o Universo é Brahman”. Portanto, tudo o que existe e que também não existe forma o Eu Supremo, o Uno. Não há nada que é ou será que não seja Brahma;

6. So ham: “Eu sou Ele”. No ato de respirar, nós dizemos o tempo todo o Absoluto.

Segundo Sarma, “A seguir, em importância ao Shruti, está o Smriti, que coletivamente significa as escrituras secundárias. Estas têm sua autoridade derivada do Shruti, pois sua finalidade consiste em expandir e exemplificar os princípios do Veda. Consistem em: 1. Smritis ou códigos de lei, 2. Itihasas ou épicos, 3. Puranas ou crônicas e lendas, 4. Agamas ou manuais de culto e 5. Darshanas ou escolas de filosofia. Vejamos:

7. Smriti
Cada um destes itens está distribuído em códigos ético-morais: os códigos mais importantes são o Manu, o Yajñavaika e o Parashara, dando conta, digamos assim, do que cada um deveria fazer segundo sua “classe social (varnashrama)”; Itihasas: estes são sem dúvida alguma os livros mais lidos (sabidos de-cor) de toda a Índia Hindu. O Mahabharata (grande Índia) e o Ramayana (epopéia de Rama), constituem os grandes épicos védicos. O Bhagavad-Gita, um capítulo do Mahabharata, constitui um livro a parte. Seus 700 versos contam a história de Arjuna e Krishna, diante do campo de batalha de Kurushetra, onde também são descritos os quatro tipos de yoga fundamentais: Karma-yoga, Dhyana-yoga, Jñana-yoga e Bhakti-yoga;, sendo que Karma-Jñana-Bhakti é o conjunto perfeito da desvelação da Verdade Suprema.

8. Puranas
São considerados “instrumentos de educação popular”, mas seguem os textos épicos importantes. Mesmo assim, muitos dos Puranas contêm relatos históricos importantes. Nestes textos, é freqüente o aparecimento de avataras e o relato de seus feitos. O mais constante são as citações às dez encarnações principais de Vishnu, como: Matsya (o Peixe), Kurma (a Tartaruga), Varaha (o Javali), Narasimha (o Homem-leão), Vamana (a Anão), Parashurma (Rama com o machado), Ramacandra (herói do Ramayana), Shri Krishna (o Bhagavan do Gita), Buddha (o fundador do Budismo), Kalki (o herói que num cavalo branco irá aparecer no final da Kali-yuga).

Se nós observarmos com atenção, existe uma teleologia em cada um dos aparecimentos de Vishnu na forma de um avatar. Matsya, por exemplo, possuía o objetivo de proteger e salvar o “progenitor da raça humana”, Vaisvasvata Manu, diante de um dilúvio que punha em risco toda a existência terrestre. Já a tartaruga Kurma, apareceu para “recuperar algo de valor”, os Vedas e Manu, que havia sido perdido no dilúvio, uma vez que os deuses e demônios tinham “revirado o Oceano de leite” procurando por “estes princípios perdidos”, mas nada encontraram. Kurma ofereceu-se para encontrá-los. A Terra, submersa nas água do dilúvio, tragada pelas atitudes maléficas de um demônio denominado Hiranyaksha, é levantada por Varaha, o Javali. O Homem-leão, Shri Nrishimhadeva, veio a este mundo com a finalidade de libertar a Terra da tirania de Hyranyakashipu. Este poderoso demônio havia adquirido alguns dons de Brahma, o criador do mundo, mas logo achou-se todo-poderoso, pois realmente estava imune a deuses, homens e animais. O avatar anão, Vamana, tinha como propósito “restabelecer o poder dos deuses”, que se encontravam esquecidos do reinado de Deitya Bali. Parashurama veio ao mundo para libertá-lo da tirania dos Kshatriyas, destruindo esta raça vinte e uma vezes. Rama, o principal agente do Ramayana, teve como objetivo derrotar o tirano Ravana, o conhecido “rei demônio de Lanka”. Krishna possui um triplo objetivo, uma vez que seu aparecimento condiz com o início da Kali-yuga. O primeiro deles é destruir os demônios, liderar a grande batalha de Kurushetra e trazer o mundo a grande mensagem de Bhakti (protegendo seus devotos), no Bhagavad-Gita. Buddha, por sua vez, é o fundador do Budismo, onde é frisado a proibição dos sacrifícios dos animais, enfatizando também a sua vontade para com todas as criaturas, para com todas as entidades vivas. Por fim, o décimo avatar em importância é Kalki, que nos final da Kali-yuga virá para virá para destruir os demônios e restabelecer a moral e a virtude, que estarão em completa decadência na mal de governantes completamente desqualificados e demoníacos (veja mais sobre Dasa-avatara).

9. Ágamas
Os Agamas podem ser considerados uma classe de escritos populares. Entretanto, o uso deste termo refere-se mais à forma como lidam os devotos com os cultos num aspectos singular ou particular. No Hinduísmo, podemos destacar três grandes grupos devocionais, os Sivaistas, que adoram Deus como Siva; os Vaishnavas, que adoram Deus como Vishnu, e os Shaktistas ou tântricos, que adoram a Deus como Mãe do Universo, sobre as diversas formas de Devi.

Escolas de filosofia ou Darshanas, que na realidade são “pontos de vista” filosóficos, semelhante, por exemplo, como acontece no Ocidente sob um mesmo aspecto metafísico. Dos seis pontos de vista filosóficos, a saber: Nyaya (Buddha), Vaishesika (Kanada), Sankhya (Kapila), Yoga (Patañjali), Mimamsa (Jaimini), Vedanta (Badarayana)], permanecem como de maior importância o Vedanta.

Mahadeva (Siva) com fragmentos dos Āgamas
Devemos, também, chamar a atenção dos leitores para algumas interpretações ocidentais fruitivas dos textos védicos, que fazem uma espécie de “polaridade” indevida entre o Sankhya e o Vedanta. Os Vedanta-sutras, na realidade, são textos filosóficos védicos comentados. E, obviamente, tanto o conhecimento do Sankhya como o Vedanta pertencem aos Vedas, e estão de um modo outro contextualizados naqueles Escritos. Entretanto, alguns autores dizem que o Sankhya é filosofia naturalista pura, dando, evidentemente, uma ênfase às suas convicções particulares e materialistas, independente dos Vedas. Mas, isso se deve pela existência de um monge chamado Kapila que pertencia aos materialistas, mas não se trata de quem é citado no Srimad-Bhagavatam; e, quanto ao restante, os chamados "espiritualistas", segundo esta classificação não autorizada, estariam vinculados ao Vedanta. Quando nós nos referimos a Kapila, com certeza, estamos nos referindo a Kapila Muni, filho de Devahuti, e que aparece registrado no Srimad-Bhagavatam (Bhagavata Purana). O Srimad-Bhagavatam é um dos documentos sagrados de grande importância dentro do chamado “teísmo védico”, e que postula as bases analíticas da Metafísica oriental, bem como qual é seu escopo e teleologia.

Kapila Muni, como anteriormente dissemos, aparece no Srimad-Bhagavatam, precisamente no Terceiro Canto, do Capítulo 25 ao 33. E, Este, definitivamente, é teísta e se trata, segundo nós entendemos, pela literatura védica consagrada, do verdadeiro Kapila que instruiu sobre o Sankhya.

O Sankhya, como vimos acima, nos permite distinguir entre o físico e a matéria, na medida em que avança nos aspectos metafísicos da existência, mas, convém salientar, faz também afirmações a partir das “contingências do mundo material”, portanto, possui uma espécie de cunho naturalista, mas não é naturalismo puro.

10. Os textos fundamentais do Hinduísmo e as escolas
Sri Kapila Munī
Dentro do Hinduísmo nós podemos destacar muitas escrituras, sendo que os Vedas são seus mais importantes textos e lhe ocupam o topo na hierarquia de importância. A palavra “veda” pode ser traduzida como “conhecimento”, ou “sabedoria”, e é possível que tenha influenciado o latim com o vocábulo “veritas; veritatis”, que em português quer dizer “verdade”. Os Vedas tradicionais são o Rig-veda, o Sama-veda, o Yajur-veda e o Atharva-veda. A maioria dos Vedas possuem os hinos e os rituais de sacrifícios religiosos dispostos de forma aprofundada. Em todos eles, porém, nós encontramos três partes importantes, a saber:: Samhita, Brahmanas, e Upanishads. Estas divisões têm a finalidade de atingir públicos diferentes, uma vez que se entendia que nem todos possuíam a mesma capacidade de intelecção e de compreensão dos textos védicos originais. Nós encontramos algo semelhante nos textos filosóficos gregos de algumas escolas, onde existiam os chamados textos ou escritos exotéricos, destinados ao público em geral, e os escritos esotéricos, textos destinados somente para um seleto grupo de filósofos ou pensadores. Neste sentido, os Upanishads são textos de difícil entendimento por parte do grande público, e sua tradução literal significa “diante de”, ou seja, eram comentários e textos obtidos frente a um mestre instrutor. Por outro lado, muitos Samhitas e Puranas, a exemplo do Bhagavad-Gita e Srimad-Bhagavatam, fazem parte dos ensinamentos para o público em geral. Já os Brahmanas são textos voltados para os preceitos e rituais praticados pelos sacerdotes, que recebem seu nome, tendo em vista o pré-requisito da compreensão e estudo aprofundado dos Vedas. Apesar do Manusmriti parecer como um texto independente, e posterior aos Vedas, Manu é citado nos textos védicos clássicos e originais. Por exemplo, lemos no Kanda I, Prapathaka I, “Sacrifícios para Lua nova e cheia” nas orações preliminares do Yajur-veda, mantra 2, o seguinte verso: “Vós sois a substância do sacrifício. Os Rakshasas (demônios) são queimados por ele, e os espíritos demoníacos são também queimados. Sois a causa Védica para os sacrifícios de palha; feitos originalmente por Manu e adaptados pelos chamamentos de Svadha”.

Os textos hindus mais apreciados por todos são os Puranas, devido as suas características de contar os chamados Lilas, ditos passatempos dos seus personagens, principalmente Krishna e Siva. Nos Puranas nós temos muitos dos chamados mitos hindus, onde seus personagens nos desvelam suas personalidades, sua vida cômica e trágica. Nos Puranas está muito da cosmologia védica: de como o mundo iniciou; como teve outros começos; batalhas entre semideuses e demônios, etc. Um dos mais famosos Puranas é o Bhagavata-Purana, também conhecido como Shrimad-Bhagavatam; é uma volumosa obra onde no seu Canto X é descrito a vida de uma encarnação de Vishnu, conhecida como Krishna. Krishna é um dos principais mediadores na Batalha de Kurukshetra, junto de Arjuna, seu primo. A parte do Mahabharata, no seu sexto Canto, chamada de Bishma-parva, a saga de Bishma, o avô dos contendores, ficou conhecido popularmente conhecida como Bhagavad-Gita, ou a “Canção do Senhor”. Nesta batalha digladiaram-se membros de uma mesma família, dividida entre as facções, os Pandavas e os Kauravas.

O Mahabharata e o Ramayana são considerados as duas epopéias do Hinduísmo. No primeiro, como vimos, está a mais espetacular das batalhas já ocorridas no mundo. No segundo, que é anterior ao primeiro na sua realidade histórica, é contada a saga de Rama e sua consorte Sita, que fôra raptada pelo demônio Ravana. No Ramayana aparece a figura de Hanuman, o homem-macaco, que se tornou o principal apoio para a vitória de Rama.

Uma parte do Mahabharata, o Bhagavad-Gita, é uma importante obra de discussão filosófica onde aparece o principal significado da natureza da existência, quais os desígnios dos homens, e como devem agir para atingirem a perfeição. É sem dúvida uma das obras mais publicadas no mundo, só ficando em segundo lugar com a Bíblia judaico-cristã.

Hari OM Tat Sat

terça-feira, 6 de março de 2012

Significado de Dharma


Significado de Dharma  

Swami Kṛṣnaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA

Porto Alegre, RS - Brasil
 2006-2012


Arjuna recebe ensinamentos sobre o Dharma

O sistema védico possui quatro pilares de sustentação da existência, conhecidos como  "chaturvarga" (quatro caminhos ou vias): Artha, Kama, Dharma e Moksha. No sentido amplo, Artha diz respeito à riqueza e sua distribuição justa; a arte e ciência econômica, tanto pessoal, familiar como do vilarejo, cidade, estado e país. Isso porque a ciência védica vê tudo de modo global e unitário. Kama diz respeito ao gozo dos sentidos, de forma justa e equilibrada; dança, música, pintura, escultura, etc., são artes ligadas ao prazer dos sentidos. Dharma no seu amplo e irrestrito sentido diz respeito à Justiça de forma justa; portanto, Dharma é o princípio da equidade levado à prática nas ações humanas. Por fim, Moksha diz respeito a justa maneira de buscar a liberação do ciclo de Samsara (nascimentos e mortes repetitivos), liberando-nos.

Como podemos observar, o princípio de "justiça" ou "justa medida" está sempre presente no Chaturvarga. O Sanatana Dharma tem ocupação com o Karma, ou ação que alguém realiza. Daí depreende-se que "dharma" é o principio norteador de todos os princípios. Isso porque o Ahimsa (não-agressão) é a base do Dharma, então a justa distribuição da riqueza; justa distribuição da justiça; justa aplicação do gozo dos sentidos, e a justa busca pela liberação, são norteados pelo Dharma ou princípio universal da Justiça. O conceito de "justiça" é tão variado e está sujeito a tantas interpretações como os conceitos de "verdade" e "liberdade". A verdade para um pode não ser para outro, bem como a liberdade de um pode ser a prisão de outro. Visando diminuir o máximo possível a ambiguidade na aplicação da reta justiça, a idéia de Dharma apresenta-nos o pricípio da equidade. Equidade, grosso modo, é sermos iguais com os iguais e diferentes para com os diferentes. Equidade, também, significa distribuir a justiça de forma justa. Por exemplo, se alguém coloca uma placa tipo: "proibido entrada de cães", numa pracinha, isso não quer dizer que cavalos, bois, cães, e outros animais, possam entrar. O rigor expresso na lei é mais abrangente do que a palavra escrita está dizendo naquela placa. Equidade, portanto, neste caso, significa que a placa proíbe qualquer que seja o animal, ainda que este não esteja na placa. Mais correto seria fazer-se uma placa que dissesse: “Proibido a entrada de animais", mas então nós também poderíamos estar proibidos de entrar, contudo, todos entendem que se está falando de animais diferentes de humanos. Isso é aplicar o Dharma: ações extraordinárias em circunstâncias extraordinárias; aplicar o princípio da equidade em todas as ações ou Karma.

Feitas estas colocações iniciais, a seguir veremos como Sua Santidade Swami Sivananda Maharaj responde a pergunta sobre o que é Dharma:

Nenhuma linguagem é perfeita, por isto não há uma equivalência perfeita em inglês ou português para o termo sânscrito Dharma. É muito difícil definir Dharma. Dharma é geralmente definido como “reto agir”, ou “obrigação”. Dharma é o princípio da justiça. É o princípio da santidade. Ele é também o princípio da unidade. Bhiisma disse nas suas instruções para Yudhishtira que qualquer geração de conflito é Adharma (contrário ao dharma), e qualquer coisa que coloca um fim num conflito, e traz e induz unidade e harmonia é Dharma. Qualquer coisa que auxilia para unir e desenvolver o divino amor universal e a irmandade é Dharma. Qualquer coisa criada que discorde, fende e fomente a desarmonia, e o ódio, é Adharma. Dharma é aquilo que sustenta e preenche a vida na sociedade (na convivência dos homens). As regras do Dharma foram estabelecidas materialmente para os homens. Dharma causa, como conseqüência, a felicidade, tanto neste mundo como no próximo. Dharma é um meio de preservação da unidade do Ser. Se você transgride isto, isto irá destruir você. Se você protege isto, irá proteger você. Ele é a única companhia após a morte. Ele é o único refúgio da humanidade.

O que entusiasma alguém é Dharma. Esta é outra definição. Dharma é o que conduz você ao caminho da perfeição e da glória. Dharma é o que socorre você diretamente na comunhão com o Senhor. Dharma é o que torna você divino. Dharma é a escada de ascensão para Deus. A auto realização é Dharma superior. Dharma é o coração da ética hindu. Deus é o centro do Dharma.

Dharma significa Achara ou, a regulação da vida diária. Achara é o supremo Dharma. Ele é a base para Tapas ou austeridade. Ele conduz à riqueza, beleza, longevidade e a continuidade da linhagem (de nascimentos). A má conduta e a imoralidade conduz para a má fama, sofrimento, doença e morte prematura. Dharma possui suas raízes na moralidade e o controle do Dharma é Deus em Si mesmo.

Maharshi Jaimini define Dharma como aquilo que é colocado pelos Vedas e que, no final das contas, não produz sofrimento.

Rishi Kanada, fundador do sistema Vaiseshika de filosofia, foi quem deu a melhor definição de Dharma nos seus Vaiseshika s™tras: “Yato-bhyudanihsreyasa-siddhih sa Dharmah”; “o que leva a realização de Abhyuadya (prosperidade neste mundo) e Nihsreyasa (total cessação da dor, e realização da eterna felicidade futura) é o Dharma.

Hari Om Tat Sat

sábado, 3 de março de 2012

O Absoluto, segundo o Sanatana Dharma


O Absoluto
segundo o Sanatana Dharma

Swami Krsnapriyananda Saraswati
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS
2008-2012

Maha Vishnu ou Paramatma

Mahavishu, Brahman personificado na Sua forma de conservador.

O Absoluto: Deus no Sanatana Dharma.
Conforme a visão do Sanatana Dharma (hinduísmo), "Deus" tem muitos nomes e formas; Ele é onipresente, então, Ele está presente em tudo e em todos. Ele é onisciente, portanto, Ele está na consciência de todos. Também, Ele é onipotente, logo, tudo é Ele. Ele é tão fixo na sua variedade que é como as estações e suas alternâncias; Ele é como as plantações: tempo de arear, semear e colher. Por isso Ele é Brahmaa, a semeadura; Vishnu, a colheita e armazenamento, e Siva, as queimadas, o renovar da terra. Ele é mãe, pai e filho; Ele é Devi ou a deusa criadora, bem como é Mara, a morte, e Maya, a ilusão.

Deus está tanto numa pedra como numa borboleta; na mais diminuta célula viva, e em toda as partes. Tudo é Deus, Deus está em tudo; Ele é tanto imanente como transcendente; tanto com forma como sem forma; tanto manifesto como imanifesto. Desta maneira, há tão somente Deus e Deus somente. No Sanatana Dharma toda a ação (Karma), tem em vista tão somente realizar Isso que é Ele.

Todos somos germinalmente tais quais Ele: Tat Tvam Asi; Maya ou apego ao temporário e ilusório faz a entidade viva perder a consciência do Supremo. No mundo material, todos vivem na ilusão da eternidade da matéria. A identificação com o corpo forma a ideia que diferencia, “eu” d’ Ele. Maya é este poder ilusório que dá nuances de verdade para o que não é verdadeiro. O mundo é uma aparência, um mero arremedo da Verdade. Não há diferenças entre a Verdade e o Supremo. Deus é o Uno do qual tudo se origina. Ele não tem começo nem fim, e É sem-segundo. Ele tem muitos nomes como Krishna, Siva, Mahadeva, Devi (Seu aspecto original feminino, criador); Ele é Ganesha, Skanda, Rama, Kartikeya; Ele é Kali (outro aspecto feminino), assim como Durga. São tantos os nomes e formas que Deus tem, que não se pode dizer todas numa vida. Porque tudo é Deus, logo, sendo Ele onipresente, onipotente, onisciente, está em qualquer lugar, podendo tudo, tendo consciência de Tudo. Ele é tudo.

Nem mesmo o mero cair de uma folha numa árvore distante passa despercebido por Ele. Ele é o controlador original, Vishnu. Ele é o criador de todas as entidades vivas, ou Brahmaa; Ele é o destruidor de tudo, que a tudo renova na Sua forma devastadora de Siva Nataraja. Tudo é Deus; Deus está em tudo. Tudo é Brahman!

A visão do Sanatana Dharma é pananteísta ou panteísta, ou seja, Deus está em tudo, e tudo é Deus. Mas no Sanatana Dharma não há politeísmo (muitos deuses), porque Deus é um só o Uno. Ele tem muitos nomes e muitas formas, mas é tão somente Um. Assim como “humanidade” é todo o conjunto de seres humanos, distintos em formas, cores, culturas, etc., assim, também, Deus é uno na Sua diversidade. Do mesmo modo como há “muitas virgem-marias” no Catolicismo, por exemplo, com muitos nomes e muitas formas, com vestes distintas, etc., assim, também, Deus e Suas representações no Sanatana Dharma é variado; mas suas representações são tão somente manifestações de uma mesma coisa.

A Unidade de Deus
Svarūpa - forma universal 
A principal afirmação da unidade de Deus é a Sua imensa diversidade, porque o Seu passatempo preferido é a diversidade. Assim como um jardim de uma só flor é monótono, sendo lindo quando tendo muitas flores diferentes, do mesmo modo, a multiplicidade de nomes e formas de Deus dá todo o colorido da onipresença de Deus. Assim como somos todos iguais por nossas diferenças, assim, também, Deus é uno da Sua diversidade. Compreender Deus na totalidade e unidade de Sua multiplicidade de nomes e formas é compreender a Unidade do Absoluto. Do mesmo modo como o barro molda vasos, copos, potes, estátuas, etc. etc, a unidade de todas as formas está na essência, ou seja, no barro. Deus é a unidade de tudo. A ilusão de dentro e fora de um vaso se desfaz quando ele se quebra. Desta forma, a ilusão de nomes e formas se desfaz quando há Viveka, ou seja, o discernimento entre o que é temporário, ilusório, passageiro e transeunte e o que é permanente na Sua multiplicidade e unidade. Viveka é saber discernir o que é eterno e permanente daquilo que é variado, temporário e passageiro. Viveka é saber discernir que o Verdadeiro e Sempre existente é o Ser ou Atma, aquilo que dá diferentes formas à matéria, mas que permanece inalterado por ela. O Brahman ou Absoluto é a origem meio e fim de tudo. Ele é tão somente o que de fato existe. Ele se fragmenta em diversos corpos, nomes e formas, mas é tão somente Ele, em diferentes graus de consciência que existe. Somos puro Atma: Tat Twam Asi: somos tais quais Ele, apenas se está corporificado num corpo temporário devido ao desejo pessoal de desfrutar-se dos sentidos grosseiros. Tão logo a falsa idéia do mundo material se desfaz diante do Absoluto e Eterno Brahman, então a entidade viva deseja por união permanente com o que ela realmente é, ou seja, puro Brahman: “Aham Brahmasmi”, afirmam os praticantes do Vedanta: Brahman é o que sou! Tão somente há Brahman.

Deus é uno e tudo é Deus. Há tão somente Deus e Deus somente. Toda a vida material é um aspecto ilusório ou externo, temporário, transitório, enquanto Brahman é a realidade última, única e eterna, que “está sempre sendo”. Sua finalidade é “sempre ser”. O Ser ou Atma é Brahman. O que chamamos “alma” é tão somente Atma, a unidade fundamental do Supremo. Alma é o que somos, logo, tão somente somos Brahman, porque tudo é Brahman.

Adoração ao ídolo
Murti de Mahavishnu
No Bhagavad-gita, canto 12.1, Arjuna pergunta para Sri Krsna, “qual entre os devotos é o mais versado na ciência do Yoga (busca da união ou Samadhi com o Supremo), os que te adoram no aspecto manifesto ou os que te adoram no aspecto imanifesto?”. Manifesto e imanifesto, as vezes são chamados de “personificado” ou “pessoal”, ou então “despersonificado” ou “impessoal”, respectivamente. Então, o Senhor Krishna responde que tanto um como o outro devoto pode ser bem versado na ciência do Samadhi, contudo, aqueles que O adoram no aspecto imanifesto ou impessoal têm mais dificuldade de atingi-lO. Por que isso? Porque concentrar-se numa forma, com atributos, passatempos, parafernálias, etc., é mais fácil para nós, porque estamos acostumados ao mundo com sua multiplicidade de nomes e formas. Com o passar do tempo, com o desenvolvimento de Viveka, vai-se atingindo a compreensão da unidade de tudo e de todos. Passo a passo, o devoto vai se desapegando do mundo, ou melhor, dos resultados das ações ou Karma, como se ele fosse o controlador de algo. Como está no Bhagavad-gita, 12.12, “o conhecimento é melhor do que a mera prática; mas a meditação é melhor do que o conhecimento, contudo, a renúncia ou Tyaga é melhor do que a meditação, porque a paz advém imediatamente para aquele que renuncia”. Mas renuncia ao que? Ao desejo de desfrutar dos frutos do Karma ou do trabalho. Eis porque o devoto vai aos poucos se desapegando, de achar-se ele como sendo o causador das coisas. A mera luta por um desfrute do resultado do trabalho é a causa do sofrimento “porque podemos controlar apenas nossas ações mas não as reações”; o arqueiro tem o controle da flecha até que a atira; tão logo a flecha sai do arco, o seu destino está lançado; não sabe mais o arqueiro – apesar de desejar - se ele irá alcançar o alvo. Portanto, quem renuncia o fruto do resultado alcança a paz da realização, porque tudo é feito tão somente para agradar ao Supremo.

Sri Krsna, ao longo do décimo segundo canto do B.Gita, comenta em detalhes as várias técnicas que o devoto ou pretendente à liberação deverá dedicar-se para obtê-la. A liberação do mundo material trata-se de livrar-se do Samsara, ou retorno ao mundo material devido à própria vontade do agente (Purusa ou Jiva) em querer desfrutar.

Adorar ao ídolo no templo; oferecer incenso, luz de ghi (manteiga clarificada), água, flores, frutos e alimentos é uma maneira de colocar os sentidos grosseiros para cheirar, ver, sentir, etc., tão somente os atributos da Deidade. O som da campainha detém o sentido da audição; o incenso, do olfato; a lâmpada de ghi, a visão, o bater de palmas no Kirtana, o tato, etc. Então, o devoto mantém todos os seus sentidos para tão somente adorar e glorificar o Supremo, Este razão de tudo.

Cada um deve procurar o Abhyasa ou técnica – método, sistema, etc., - que seja mais adequado para si próprio. Uns têm melhor desenvolvimento nos aspectos pessoais (a grande maioria), uns poucos no aspecto impessoal, Absoluto imanifesto de Brahman, mas com maiores dificuldades.

Em cada casa há um templo. Cada casa é, de fato, um pequeno Vaikunta ou mundo espiritual. Ela é consagrada ao ídolo, Deidade ou Murti do lar. A manutenção da chama ou Dip é feita pela mulher; ela toma conta de manter a tradição acesa. O fogo representa a vida, a criação, a renovação. Um dia por ano acendem-se muitas lamparinas, é o Dipawali, ou dia das lâmpadas. É o dia do perdão “hindu”. É o dia de dar roupas novas, presentear, perdoar aos ofensores, bem como é o início do Ano Novo. Este festival dá-se geralmente em meados de Novembro (no Ocidente é chamado de “dia das bruxas” - Halloween). Mas diferente da comemoração Ocidental, na Índia acende-se carreiras de luzes; iluminam-se as casas para receber Laksmi, a “deusa da fortuna”, a consorte do Senhor Vishnu.
Assim, em cada lar do Vaidika Dharmi (seguidor do Dharma, segundo os Vedas), há um templo consagrado ao Senhor ou Senhora Suprema com uma ou mais formas de imagens, ou quadros, ou mesmo uma pedra. Deus é onipresente, então está até mesmo num grão de arroz. A vida é levada como num lugar sagrado. A casa é o santuário da vida, então nem mesmo se deve usar sapato dentro de casa. Regras simples, mas que tornam o dia dia do devoto um ato sagrado, mesmo naquelas coisas mais triviais e comuns.

O mundo
Kamadhenu 
O planeta Terra é considerado um Patala de quinta grandeza, ou seja, um pequeno mundo infernal. Apesar de o termo nos remeter aos aspectos do entendimento Ocidental, “infernal” aqui aparece no seu sentido literal, ou seja, inferior, abaixo do Mundo Espiritual. Há planetas infernais e planetas celestes. As diferenças estão nos níveis de desfrutes possíveis. Há planetas infernais que possuem cinco vezes mais desfrutes que o planeta Terra. Há planetas celestes que estão muito acima em qualidade de vida material que qualquer outro, mas, em todos os casos, a alma corporificada deverá voltar a esta pequena Terra, considerada como estando no centro de Meru (a coluna do cosmos), e então alcançar a liberação. Enquanto não alcança-la, deverá voltar tantas vezes quantas forem necessárias para alcançar a liberação do Samsara. Este mundo material é, ao mesmo tempo, infernal e celeste. Mesmo os semideuses almejam nascer aqui. Porque aqui é que está a liberação do Samsara. Imagine-se que tão somente agir de tal maneira como um instrumento nas mãos do Supremo é possível alcançar a liberação do Samsara? Em nenhum outro local do universo isso é possível, segundo as Escrituras.

Quando o Senhor Krsna, o Vishnu corporificado na forma do Dharma, vem para restabelecer a ordem ou Dharma, então tudo se santifica. O mundo recebe os pés de lótus de Deus, então o mundo é, também, santificado. Logo, este mundo é um mundo celeste, divinizado, inteiramente purificado pelo Senhor e Sua misericórdia sem causa ou desmotivada. Apenas por Sua imensa compaixão e misericórdia o Senhor nos dá a Sua bênção de vir aqui e nos ajudar em nossas loucuras.

O mundo é desprovido de bem e mal. Quem ainda se deixa levar pelos pares de opostos,  certamente, não compreendeu a natureza perene e uma do Brahman. Os pares de opostos são possíveis porque há as idéias de “eu” e “meu”, tão logo elas se desmancham, diante da evidencia do Viveka, então o mundo passa a ser visto como um Lila ou passatempo do Senhor. Aqui é um palco para Seu deleite; somos instrumentos do Seu prazer, segundo Sua vontade. Erroneamente a alma corporificada identifica-se com o fruto do desfrute; se esquece do seu caráter temporário e passageiro, e age como se fosse eterna. A confusão se dá porque a alma é, de fato, eterna, mas o corpo não. Apesar de o corpo nascer, envelhecer e morrer, o agente ou quem lhe dá movimento é eterno, sempre existente, nunca nascido, e que jamais morre. Não há “criação” da alma; ela é eterna, incorruptível, não pode ser molhada, secada pelo fogo ou pelo vento; ela é eterna. O mundo é criação da vontade do Senhor, enquanto sonha no Seu sono cósmico. A criação vem e vai. Há uma criação e destruição eternas. São partes do processo material que está sujeito aos pares de opostos. O mundo material é a natureza externa do Supremo ou de Brahman; é um passatempo, um Lila Seu; não é real enquanto comparado com a eternidade do Atma, mas é temporário, passageiro, transeunte, sujeito à corrupção de categorias tão primitivas como tempo e espaço.

Eternidade do Brahman.
Trimurti
A criação, manutenção e destruição do Universo é eterna. Dois aspectos, e duas categorias, pertencem à filosofia do Sanatana Dharma e buscam perguntar pela eternidade do Brahman. O aspecto fixo e imutável, e o aspecto dinâmico e mutável; a categoria dual e a não-dual. Comparando à Metafísica de Parmênides, o Ser é eterno, sempre existente, ataráxico, motor-imóvel, sempre a mesma coisa. Assim alguns poucos vêem o Brahman. Isso mais se deve às influências da filosofia grega da Anatólia do que a filosofia Dialética do antigo continente Airyano (ariano), da Pérsia conquistada por Alexandre Magno, o príncipe grego que tanto influenciou os continentes. Mas a filosofia original do Sanatana Dharma é dialética, onde então o Ser é dinâmico, estando constantemente mutando... nada do que foi será novamente.. tudo muda.. nada é o mesmo. Esta visão está bem próxima daquela do grego Heráclito, onde este dizia que nem mesmo podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque não será a mesma água nem o mesmo rio.. tudo está mudando. Esta filosofia está presente há milênios entre os defensores do Tantra, a filosofia de Vasugupta, o filosofo do Siva Sutras ou textos auspiciosos sobre o Ser, onde Ser e consciência são unos: Cheitanya Atmah, ou seja, a consciência é o Atma.

A categoria não-dual da filosofia chama-se Advaita, enquanto que a dual é chamada de Dvaita. Esta é mais recente, porém depende muito da filosofia metafísica, ataráxica, nos moldes do grego Parmênides. Originalmente, toda a filosofia dos Vedas é não-dual, porque há tão somente o Brahman, e a ideia de individuo é ingênua. Não há uma alma individual e outra Suprema, há tão somente uma e única alma chamada Brahman. Mas os dualistas ou Dvaita defendem que há uma alma individual diferente em qualidade da alma Suprema, e esta, no mais das vezes, somente pode ser serva da Suprema, nunca unir-se a Ela. Diferente da filosofia não-dual ou Advaita, que defende a unidade do Brahman, o dualismo crê que o individuo pode tão somente contemplar o Supremo, mas o não-dualismo ou Advaita, que diz o contrário, porque na dissolução do “eu” e “meu” é onde está a liberação do Samsara, porque qualquer que seja o resquício de “mim” trará, de algum modo, a corporificação no mundo material, eternizando o Samsara ou retorno, muitas vezes chamado de “reencarnação”.

Brahman é eterno, e sua eternidade está presente no “sempre sendo”, mas de forma dinâmica, mutável, sendo eterno na sua mutabilidade; sendo Uno na Sua diversidade. Compreender o Uno no dinamismo do Ser é compreender tais quais muitos defendem na Teoria Quântica. Contudo, neste ainda há o átomo, ou unidade da matéria, mas, na visão védica, a matéria é tão somente uma ilusão, um agregado da vontade do Supremo. Não há átomos, nem partículas, tão somente a vontade do Supremo em querer fazer a diversidade a partir de Si mesmo, do mesmo modo como vasos, potes, ânforas, etc., são feitos de barro, tendo este elemento comum na sua “formação”. São ilusórias, portanto, as idéias de “dentro”, “fora”, “vaso”, “copo”, etc., porque tudo volta a sua “matéria” original tão logo é destruído enquanto forma. Forma é ilusão; diferentes moldagens de uma mesma e única matéria: a vontade do Supremo.


Om Hari Hara OM Tat Sat


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Baal Zaeb


Baal Zaeb

Swami Kṛṣṇaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
 1997-2012


Autorrelevo de Baal


1. Introdução
A Adoração ao "deus dos deuses" ou Ba´al já existia muito anteriormente ao XIV século antes da nossa era, sendo realizada, principalmente, por entre os chamados "semitas", considerados os descendentes de Shem, o filho mais velho de Noé. Mas hoje sabemos que o culto a Ba´al se alastrou por entre os egípcios, recebendo o nome de Bel ou Belos, e entre os gregos ficou conhecido como Zeus. Nos dias de hoje, a expressão "semita" refere-se mais a uma classificação lingüística do que uma etnia propriamente dita. O povo da época adorava Ba´al de muitas formas. A palavra "ba´al" pode ser traduzida como "mestre", "dono" ou "proprietário". Mas nas antigas religiões, "ba´al" diz respeito ao “deus sol”, “senhor”, e mesmo Deus. Ba´al era o nome comum das deidades da Síria e da Pérsia. Ba´al é o principal deus Canaãnita da fertilidade. O Grande Ba´al estava em Canaã. Ele era o filho de EL, o Supremo em Canaã, contudo, às vezes aparece como sendo filho de Dagon ou Dagnu. O culto a Ba´al era comemorado anualmente, bem como a sua morte e ressurreição, como parte dos rituais de fertilidade Canaãnita, e grandes festas eram feitas para Ele nas mudanças de estações, principalmente na lua cheia, que quase sempre coincide com sete dias da entrada da nova estação.. Estas idéias passaram para as culturas posteriores, e muitos dos aspectos da mitologia de Ba´al estão até mesmo no Novo Testamento. Aquelas cerimônias anuais de Ba´al, em algumas culturas, muitas vezes, incluíam sacrifícios humanos e a prostituição nos templos. O que se sabe do culto a Ba´al está em alguns fragmentos cuneiformes, bem como no Torah ou Bíblia. Estudos arqueológicos têm, por bem da verdade, trazido o conteúdo mítico das crenças dos antigos povos que viveram na região conhecida como Mesopotâmia, e aos poucos se vão clareando os aspectos obscuros e confusos, e assim compreendemos melhor Ba´al e a sua adoração.

2. Ba´al - etimologia e relações
Baal com ramo de Líbano

A palavra "ba´al", literalmente, na língua Semita significa "senhor", e ela era aplicada a qualquer situação. Assim como chamamos: "Senhor da Alegria", "Senhor do Amor", "Senhor das Trevas", etc., a palavra "ba´al" antecedia toda a referência ao "senhor" ou ser supremo de alguma coisa ou fenômeno, fosse boa ou não. Desta forma, temos como exemplo as seguintes referências para Ba´al:

Ba`al Lebanon, Senhor do Cedro ou Madeira (o ramo que está nas mãos da figura ao lado).
Ba`al Tsaphon, Senhor dos Distritos do Norte ou Nordeste
Ba`al Adir, Senhor da Ajuda
Ba`al Kaneph, Senhor Alado
Ba`al Moganim, Senhor dos Escudos
Ba`al Marpah´a, Senhor da Cura
Ba`al Shamim, Senhor dos Céus
Ba´Ili, Senhor ou Emissário de EL

Estudos atuais dizem que "ba´al" era o deus principal na Babilônia. A palavra "ba´al", trata-se de uma contração de "Ba´Ili", onde "IL" ou "EL" era o nome de Deus entre os Babilônios e Sumérios. A consorte de Ba´al nesta época tinha o nome de Ba´ilat. Estes nomes deram origem ao nome Allah e Allat, tanto no norte como no sul da Arábia, e mais tarde, no Islã.

Sabemos que na antiga cidade de Ekron, havia a figura de Ba´al Zebûb, que aparece como um deus adorado pelos Philisteus (Palestina). A ele se atribuía a fertilidade, e o fato de ter levado água e vida para as regiões desérticas, por isso, vemos algumas de suas representações tendo um galho ou ramo de árvore em sua mão, o que representa a fertilidade, bem como o ato de arar e irrigar a terra, e o desvio de rios para regiões secas e desérticas, aspectos muito comuns da necessidade de água para plantar na região da Palestina, situação que não mudou muito nos dias de hoje.

Os Hebreus costumavam chamar "Ba´al Zebûb" com o significado de "Senhor de Zebûb", ou então como "Bêt-zebûl", que significava: "casa elevada ou sublime", referindo-se ao "quarto céu", uma região celeste. Mas a palavra "zebûb", também, era o coletivo para "moscas", podendo ser uma corrupção da palavra "zebul", então "ba´al zebul" tem o significado de "Senhor do Elevado Lugar", ou das moscas. Mas devido a proximidade de palavras, ele também era conhecido como "Beelzebul", uma vez que ficou relacionado aos animais vacunos ou zebus e o seu esterco, ou "zebel" em aramáico. Por isso, ele era considerado o senhor da sujeira e do estrume, apesar de não ter a conotação negativa que hoje estas palavras possuem. O estrume de gado sempre foi considerado puro, porque promove a fertilização do solo fraco, dando vitalidade às plantas.

Há passagens bíblicas que fazem referências a Ba´al-zebûbe, o que pode ter sido a origem posterior de considerar Ba´al como um "ser do mal". Na Antigüidade, os povos das primitivas tribos nômades, possuíam o hábito de adorar os seus ancestrais ou "patriarcas", que lhes passavam as posses dos bens e da terra. Então havia o "deus" desta ou daquela localidade, e deste ou daquele patriarca. Apesar disso, existia e necessidade de relacionar com uma força suprema que ficava em templos. Um acontecimento bíblico, que envolve o rei Ahaziah (Acazias), mostra uma conotação negativa com o nome de Ba´al, vejamos: "2 Ora, Acazias caiu pela grade do seu quarto alto em Samária, e adoeceu; e enviou mensageiros, dizendo-lhes: Ide, e perguntai a Baal-Zebube, deus de Ecrom, se sararei desta doença. 3 O anjo do Senhor, porém, disse a Elias, o tisbita: Levanta-te, sobe para te encontrares com os mensageiros do rei de Samária, e dize-lhes: Porventura não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? 4 Agora, pois, assim diz o Senhor: Da cama a que subiste não descerás, mas certamente morrerás. E Elias se foi. 5 Os mensageiros voltaram para Acazias, que lhes perguntou: Que há, que voltastes? 6 Responderam-lhe eles: Um homem subiu ao nosso encontro, e nos disse: Ide, voltai para o rei que vos mandou, e dizei-lhe: Assim diz o Senhor: Porventura não há Deus em Israel, para que mandes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? Portanto, da cama a que subiste não descerás, mas certamente morrerás" (II Reis, 1).

Como vimos na passagem bíblica acima, fica-nos, de certa forma, claro o ethos da Antigüidade, que considerava o "deus" de um lugar mais importante que o de outro, que se forma por razões econômicas, sociais, culturais, etc. De fato, havia uma conotação de: povo, poder, e o seu "deus". É por isso que vemos expressões como "deus de Israel", "deus de Abraão", etc., porque não conseguiam ver Deus como uma unidade, ou como sendo igual para todos. Era um deus de poder e força. A percepção do sagrado, nos povos primitivos, tinha uma conotação panteísta, onde quem vencia quem, possuía o "deus" mais poderoso. Eis que na passagem bíblica que vimos anteriormente, o "profeta Elias", que se vestia de forma muito rude, amaldiçoa o rei de Israel pelo fato de ele ter ido buscar conforto em Ba´al, que a esta altura conflitava com a idéia de "povo escolhido de deus".

3. Influência Asiática
Na Índia, no idioma sânscrito – “língua” que provavelmente influenciou todas as outras que conhecemos, mesmo o aramaico - existe a palavra "baal", contendo uma grande quantidade de significados como: "ferir", "respirar", "juntar grãos", "acumular riquezas", "agonia", bem como o projetil de uma arma "baala". Mas a palavra é usada, no mais das vezes, para referir-se às crianças e seu estado de pureza. Esta palavra possui seu derivado "bolo", que quer dizer "força", "vitalidade", também se referindo a uma preparação alimentar naquele formato, servida como um "concentrador de energias". Sem dúvida, o grande representante da fertilidade, e da irrigação dos rios, na mitologia indiana é Baalaraama (uma junção de "baal", "criança ou fertilidade", e "raama", "prazer ou gozo", e ou o protagonista principal do Ramayana). Balarama é considerado, também, o irmão de Krishna, sendo, por isso, considerado séquito do oitavo Avatara de Vishnu. Muitas vezes, ele é representando com um arado nas mãos ou "hala", uma das palavras em sânscrito que, também, podem ter influenciado na palavra "ba´al", mesmo porque "fertilidade", "terra", "rios", "irrigação", ' os instrumentos de trabalho vinculados a atividade na terra, são termos muito próximos da cultura agropastoril, como a dos antigos povos do meio-oriente e do oriente. Todos sabemos que a civilização humana tem um forte vínculo com a terra nas suas origens, e que aos poucos foi se organizando em cidades, afastando-se, com isso, do significado dos mitos, e os sentidos originais que eles possuíam.
Visnu e Baali

4. Baal e Vishnu
Existe, também, uma variação da palavra "baal" em sânscrito para "baali". Esta palavra possui muitos significados. Entre estes significados encontramos "tributo", "oferenda", "presente", "oblação", "taxa", "imposto", etc. As oblações e oferendas dizem respeito aos seres semi-divinos, às divindades da casa, e até mesmo objetos sem vida. Esta oferenda, chamada "baali" é feita diante da comida que será comida, em arranjos na forma circular, ou então levadas para o lado de fora da casa. Também, para os adoradores de Kali ou Durga, quando eram feitas oferendas de animais, incluía-se a carne búfalo. A mitologia indiana fala de um rei Daitya, do reino de Kishindha, chamado Baali. Ele era filho de Virocana, que tinha orgulho do seu império que "se espalhava sobre os três mundos". Este rei chamava-se Bali, que foi humilhado por Vishnu, que apareceu diante do rei como um anão, Vamana, que era filho de Kashyapa e Aditi, e irmão mais jovem de Indra. Vamana fez Bali prometer três porções de terra, uma para cada passo que desse. Sem saber que o anão era o Senhor Vishnu, acabou vendo seu orgulho diminuir, a cada passo que Vishnu dava. Vamana alcançou a distância entre o céu e a Terra em dois passos, então Baali pediu para que Vamana colocasse o pé sobre sua cabeça. Depois disso, Vishnu confiou a Bali o reino de Patalla, uma região inferior, um chamado "inferno".*


Balarama com o arado
Posteriormente, a imaginação das pessoas através dos tempos, devido a fatores de "urbanização" da vida humana, deu diversas interpretações para Ba´al Zebûb, sendo, então, personificado como o senhor do mal e suas múltiplas manifestações (sofrimento, miséria, etc.). No mais das vezes, o mito de Belzebu nos dias de hoje possui uma relação próxima com o "gado Zebu", ainda que desconhecida e inconsciente, então Ba´al é representado com chifres, cascos de boi, e assim por diante. O que se trata de um mito evidentemente urbano, devido ao medo inconsciente que a vida na "floresta", e o desconhecimento da vida rural promovem nas pessoas das cidades.


Aanath
5. Aspectos do Mito de Ba´al
No chamado "panteão Canaãnita", "ba´al" era o nome genérico para o deus da fertilidade. Também, Ba´al, no início, não tinha relação com as chuvas, mas nos tempos finais ele, passou a ter esta função. Alguns sacerdotes que o adoravam o. Embora não haja um equivalente Canaãnita para a estação seca do verão - como ocorre na Mesopotâmia - havia uma relação entre a fertilidade, e fecundidade com Ba´al.

A mitologia de Ba´al diz que, após ele ter derrotado o deus do mar, Yam, construído uma casa no Monte Saphon, e tendo tomado posse de numerosas cidades, Ba´al anunciou que não mais haveria a autoridade de Mot - deus da morte, da guerra e da infertilidade. Então, Ba´al privou Mot da sua hospitalidade e amizade, dizendo a ele que fosse visitar os desertos por sobre a Terra. Em resposta a este desafio, Mot convidou Ba´al para a sua morada, para experimentar a sua comida, o lodo. Ficando terrificado, e incapaz de evitar a terrível intimação para a terra da morte, Ba´al emparelhou-se com um bezerro, tendo em vista reforçar-se para a experiência difícil, e então ficou como morto. EL, e os outros deuses, vestiram-se com as roupas funerais, derramando cinzas por sobre as suas cabeças, escarificando seus corpos, enquanto Anath, com o auxílio da deusa do sol, Shapash, trouxe o cadáver para o funeral. EL, colocou Athtar, o deus da irrigação, no trono que havia ficado vazio de Ba´al, mas Anath ficou com muitas saudades do seu marido. Ela implorou para que Mot devolvesse a vida a Ba´al, mas seu pedido não foi atendido. Anath tentou chamar a atenção dos outros deuses para ajudá-la, mas eles, de forma cautelosa, ficarem indiferentes ao pedido. Deste modo, Anath atacou Mot, cortando-o em pedaços com uma afiada faca, queimando-o, triturando-o até virar pó num moinho, e então espalhando seus pedaços sobre os campos com uma peneira, soprada ao vento.

Neste meio tempo, EL (ELohim), o deus supremo, teve um sonho no qual a fertilidade retornara, o que sugeria que Ba´al não estava morto. Depois disso, ele instruiu Shapash para manter vigilância por ele, durante sua viajem diária. No devido curso do tempo, Ba´al voltou ao seu estado normal, e Athtar saiu do seu trono.

Mas Mot estava pronto para arranjar outro ataque, mas nesta ocasião, todos os deuses apoiaram Ba´al, mas nenhum dos combatentes venceu. Finalmente, EL interveio mandando Mot embora, deixando Ba´al na posse do campo.

Daagon
6. Paralelo ao mito de Ba´al
Arqueologistas encontraram os fragmentos que narram o que vimos acima. Eles se encontram nas tábuas de Ras Shamra. Também, nestas tabuletas de argila, são feitos relatos das alterações das estações. Ba´al aparece como o deus da chuva, do trovão, e da luminosidade. Diz um trecho: "No toque de sua (Ba´al) mão direita, até as cores definham". Yam, o proprietário da água salgada, cedeu espaço para Ba´al como o protetor da chuva e da vegetação, uma mudança que tornou Mot como sendo o único antagonista abaixo da magnitude de EL. O tórrido aquecimento, a esterilidade, o deserto árido, a morte, etc, estes pertenciam ao reino de Mot, até Anath ter triturado, peneirado, e ter colhido o milho, com suas lágrimas por Ba´al, trazendo fertilidade a terra. Do mesmo modo como EL ressuscitou Ba´al, deu continuidade ao ciclo anual das chuvas a partir das lágrima de Anath..

Um paralelo de ritos mágicos pode ser encontrado no Livro dos Salmos na Bíblia onde está: "126. 5 Os que semeiam em lágrimas, com cânticos de júbilo colherão. 6 Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus molhos". Isso se trata de magia simpática, onde as lágrimas derramadas induzem a chuva.

7. Ba´al na cultura
Ba´al era filho de EL ou Dagon, uma deidade obscura que liga Hebreus com Philistines (Filiseus), na cidade portuária de Ashod. Há uma ligação de Dagon com o mar, como se vê numa moeda encontrada nas vizinhanças retratando o deus tendo um peixe as costas. Embora Ba´al tenha sujeitado Yam pessoalmente, é incerto se lutou ou não com Lotan, o Leviatham do Antigo Testamento, mas é sabido deu Anath, "... esmagou a serpente retorcida, de alguém com sete cabeças". Outro eco do pensamento do padrão mesopotâmico abriga-se no fato de Ba´al ter a necessidade de uma "casa". Sua oferenda de alimentos também agradaria um deus que "cavalga entre as nuvens". Em locais distantes como Cartago e Palmyra, há templos dedicados a Ba´al-Hammon, "o senhor do altar do incenso", o qual os gregos identificaram como Chronos. Foi sob o Monte Carmelo onde o profeta Elijah (Elias), duvidou das crenças do Rei Acazias no poder de Ba´al, quando a seu pedido, o "fogo do Senhor destruiu e consumiu o sacrifício queimado", e a madeira, as pedras, o pó, jogando a água da oferenda numa vala. Depois deste incidente, Elias teve o povo que matou os profetas de Ba´al, assegurando por meio disso a adoraão de Yahweh em Israel.

Estudos têm apontado que a adoração de Ba´al extendia-se desde os Canaãnitas até os Fenícios, uma vez que eles eram povos que praticamente viviam da agricultura. Tanto Ba´al como sua consorte Ashtoreth, Anath ou Astarte, que possui a sua equivalência na mitologia grega como Aphodite, eram símbolos da fertilidade por entre aqueles povos. Também, Ba´al, como o deus do sol, era adorado de forma fervorosa para o bem da colheita e dos animais. Os sacerdotes "israelenses", posteriormente, colocaram para as pessoas que Ba´al era o responsável pela seca, pragas, e outras calamidas, o exatamente contrário ao seu mito original. Os sacerdotes e profetas tinham grande importância na influência do modo de ser das pessoas. Mas nesta época, os mesmos sacerdotes que espalharam a idéia de que Ba´al era responsável pelos malefícios da seca, realizavam sacrifícios humanos, principalmente de crianças, para o deus Moloch.

Astarte 
Costuma-se aceitar que a adoração a Ba´al se espalhou pelo Mediterrâneo devido aos Fenícios, uma vez que eram bons construtores de navios e navegadores experientes. Portanto, encontramos a adoração a Ba´al entre os Moabitas, bem como seus confederados Midinitas, na época de Moisés, sendo, então, apresentado para os "israelitas". O culto a Ba´al era amplamente praticado pelos antigos "judeus", e apesar dos tempos de ter sido desqualificado como um deidade de adoração, ele nunca foi totalmente apagado. As pessoas simples, que vivem da lida do campo, adoram o deus sol, também pela busca da prosperidade, uma vez que dependem dele para a colheita e para a criação dos animais.

As imagens de Ba´al, e de outros "deuses", costumavam ser esculpidas de muitas formas, tipos e materiais. Dentro do culto a Ba´al, na medida em que as cidades que configuravam como um local de morada mais permanente, surgiram várias classes de sacerdotes, e muitos tipos de devotos. Nas cerimônias, eles realizavam vários tipos de adoração, queimavam incenso, e usavam roupas adequadas. Gordura de animais era queimada, e por entre os "israelitas", fazia-se sacrifícios de seres humanos. Muitas vezes, os sacerdotes dançavam ao redor do altar, cantando hinos religiosos, e não raro se auto-flagelando, tendo em vista "inspirar a atenção e compaixão de Deus".

om tat sat

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Avatāra


Avatāra
Swami Krishnaprīyānanda Saraswatī
prof. Olavo DeSimon

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
1997-2012

Dāsa Avatāras de Viṣṇu



A palavra Avatāra é de uso popular, mas o seu verdadeiro significado e origem são raramente conhecidos. O Dicionário Aurélio, descreve o seguinte: "AVATAR: Do sânscr. Avatāra, 'descida' (do Céu à Terra), pelo fr. avatar.] S. m. 1. Rel. Reencarnação de um deus, e, especialmente, no hinduísmo, reencarnação do deus Viṣṇu. 2. Transformação, transfiguração". De fato, o termo sânscrito “avatāra” significa "Deus que desce", ou simplesmente, "encarnação". 

Swami Śivānanda escreve que há uma "lei universal" que comanda ou governa o aparecimento de um Avatar. Ele diz, "A lei que governa a descida do Senhor por sobre a Terra é a mesma em todos os tempos, em toda a parte. Existe a descida de Deus para a ascensão do homem. A meta de todo o Avatāra é salvar o mundo dos grandes perigos, destruir os malvados e proteger os virtuosos. Disse o Senhor Krishna: 'Sempre que há a decadência da retidão, então Eu mesmo em pessoa saio e venho a Terra; para proteção do bem, destruição dos pecadores, pela segurança de firmemente estabelecer a justiça, Eu nasço de era em era'”.

De um modo amplo e genérico, um Avatāra é uma encarnação do Ser Supremo, numa de Suas inumeráveis formas, que possui uma atividade que se e somente se Ele pode articular e realizar. Portanto, quando uma forma pessoal do Supremo descende, seja como um homem ou uma mulher, no mundo material, fica conhecido como uma encarnação do Supremo ou Avatāra

O processo de descida de Deus, como uma "encarnação", pode, aparentemente, relacionar-se diretamente com o conceito de "entrada num corpo físico", feito de carne e ossos, uma vez que há uma relação com a palavra "encarnação" com o termo latino "carnis", que significa “carne”. Mas apesar disso, um Avatāra não se trata de uma alma ordinária, mas do Supremo em si mesmo, de modo que Seu corpo é feito de matéria transcendental.

Um Avatāra é conhecido pelos Seus feitos extraordinários. Todos os Avatāras  existem na eternidade, e estão livres das leis da matéria grosseira, bem como dos aspectos transitórios do mundo material como tempo, e espaço, etc. Apesar de nenhuma obrigação de ter contato com a energia material do mundo, os Avatāras descendem para proteger, dar instruções e resgatar. Apesar de Eles mostrarem atos que lembrem tristeza e ira, jamais podem ser comparados com sentimentos humanos comuns. Os seres humanos possuem atitudes que são de desejos terrestres, como medo, e ira. Um Avatāra, por Sua vez, age na Sua própria natureza, de modo divinamente bem-aventurado, realizando Līlās ou passatempos transcendentais, para agradar aos Seus devotos
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O Absoluto é uno, e apesar disso Ele se manifesta em inumeráveis formas – rūpas - neste mundo. Viṣṇu, por exemplo, tem uma forma doce e meiga como Śrī Kṛṣṇa; Viṣṇu com Sua flauta; há, também, a forma aterradora de Viṣṇu como Homem-leão, que venceu um demônio considerado invencível; também temos a forma do Senhor Rāma, que nos dá um verdadeiro exemplo de verdade, força e persistência. Há, também a forma do Senhor Śiva, que veio como Śrī Śaṅkara, para recuperar os textos védicos e a filosofia védica que estava obscurecida pela mentalidade ateia e o budismo niilista.

Cada um Avatāra possui uma missão em particular, sendo, portanto, uma forma única do desvelamento da Verdade Absoluta. 

Um estudo das Escrituras védicas, sob a bênção da graça indispensável do Guru, irá desvelar que um Avatāra do Senhor é necessário para restabelecer a paz no mundo, bem como para resgatar a Verdade, que se perde devido o passar do tempo, e a tendência que as pessoas têm de se envolverem com as atividades materiais, esquecendo-se das espirituais.

Hari Hara OM Tat Sat